quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Galeria dos Mártires - Pe. Francisco Luis Espinosa e Companheiros

Pe. FRANCISCO LUIS ESPINOSA e COMPANHEIROS
Mártires em Estelí
NICARÁGUA * 20/09/1978

Pe. Francisco e foi assassinado pela Guarda Nacional em Estelí, Nicarágua, quando dirigia seu veículo acompanhado de dois leigos em direção a Condega para levar medicamentos aos refugiados na Escola de Agricultura, da qual era diretor.

Ao entrar na cidade, o veículo parou porque lhe deram voz de alto na esquina da prefeitura. Da guarnição, distante uns 100 metros, dispararam uma rajada de metralhadora. Os disparos destroçaram o veículo e os corpos de seus 3 ocupante.

O veiculo foi ocultado imediatamente e os corpos enterrados numa vala comum, mas tão à flor da terra que foram descobertos ao se proceder a outros enterros.

Pe. Francisco Luis e seus companheiros morreram no ato de serviço a seus irmão refugiados.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Galeria dos Mártires - Ir. Yolanda Cerón Delgado

Ir. YOLANDA CERÓN DELGADO
Mártir dos Direitos Humanos
COLÔMBIA * 19/09/2001

Memória dos 16 anos de seu martírio.

Yolanda Cerón Delgado, religiosa da Congregação da Companhia de Maria, realizava por vários anos um trabalho de denuncia permanente sobre a grave situação dos direitos humanos na região, fazendo chamados urgentes para as autoridades locais, nacionais e internacionais para que se investigassem os casos e se criminalizassem os responsáveis destes crimes contra a comunidade nariñense, de acordo com informações da Agência Nizkor. 

Trabalhou por oito anos no apoio as comunidades indígenas e afro-colombianos.

No dia 19 de setembro de 2001, ao meio-dia, na porta da Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia, localizado no Parque Nariño, município de Tumaco (no departamento de Nariño, no sudoeste da Colômbia) Irmã Yolanda Cerón foi vítima de alguns bandidos que dispararam oito tiros, que há deixou gravemente ferida, sendo transferida para o hospital local, onde morreu momentos depois.. "Vemos claramente que este assassinato - de acordo com o comunicado oficial do Bispo de Tumaco - é uma resposta às ações que a Diocese tem empreendida pela defesa dos direitos humanos e as denuncias pelas ações de violência e corrupção que diariamente ocorrem em nosso solo".

Nos dias anteriores, de acordo com a mesma fonte, a religiosa tinha relatado a permanente vigilância que vinham fazendo aos escritórios da Pastoral Social, assim como a perseguição que foram submetidos por homens não identificados. Além disso, foi relatado que recentemente tinha sido convocada pelo Escritório de Tumaco para ratificar as queixas sobre a violação dos direitos humanos que ela havia feito meses anteriores.

A vida de Yolanda foi caracterizada pelo seu empenho e defesa da vida; desde sua opção por defender os mais pobres de seus país, denunciando as situações de desrespeito aos direitos humanos em sua região, mostrando profeticamente o que hoje é chamado de "terrorismo de Estado", cuja manifestação se expressa, entre outros, pelos paramilitares.

Yolanda era uma mulher de muito valor, corajosa e comprometida, que sempre lutou pela Paz. Seu compromisso incansável pela vida ao lado dos pobres, ameaçados e das pessoas afetadas por esta guerra absurda é um grande testemunho e exemplo, e também um chamado para nos comprometermos pela Causa da Paz e da Justiça na Colômbia, em nossas Cidades, no Mundo.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir da página: http://servicioskoinonia.org/martirologio/

Galeria dos Mártires - Charlot Jacqueline e Campanheiros

CHARLOT JACQUELINE e COMPANHEIROS
Mártires da Educação Libertadora
HAITI * 19/09/1986

Charlot Jacqueline e companheiros, militantes e educadores, mártires da educação libertadora para seu povo haitiano. 

Militantes cristãos e alfabetizadores da Missão ALPA. Sequestrados e desaparecidos. Charlot vivia em Cité Soleil, subúrbio de Porto Príncipe. Participava das organizações de bairros e acompanhava seus irmãos em todas as suas reivindicações. Era monitora da Missão ALFA, uma campanha de alfabetização nascida em 1984, por iniciativa da Igreja em solidariedade com os problemas das povo. 

O projeto da Missão ALFA abriu possibilidade de conscientização, uma vez que tinha como objetivo ensinar a leitura e a escrita para três milhões de analfabetos em cinco anos.

As pessoas descobriram, através da alfabetização, a importância de se expressar, do acesso à informação, para libertar a riqueza de seu espírito, e de sua cultura. Vislumbravam horizontes da democracia. 

Isso se tornou perigoso para as ditaduras no poder e a mesma hierarquia eclesiástica decidiu suspender o programa em um comunicado, referindo-se a politização de seus diretores e monitores. 

Na noite de 19 de setembro de 1986, Charlot e companheiros foram retirados de suas casas por homens uniformizados e civis, espancados com brutalidade e tratados como comunistas. Eles nunca mais apareceram. Parentes e amigos da Missão ALFA começaram a procurá-los. O país inteiro se mobilizou. 

Seus nomes e seus compromissos transcendem as fronteiras e as organizações internacionais cobram do governo haitiano o aparecimento destes militantes da educação. Uma manifestação de sessenta mil pessoas saíram as ruas exigindo o aparecimento de Charlot e o fim da repressão contra os monitores do ALFA. 

O povo tomaram consciência do seu papel, e em memória de Charlot e de seus companheiros, ocupam seus lugares na vanguarda de suas lutas.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir da página: http://servicioskoinonia.org/martirologio/

Galeria dos Mártires - Pe. Joan Alsina Hurtos

Pe. JOAN ALSINA HURTOS
Testemunho da Fé na América Latina
CHILE * 19/09/1973

Joan Alsina Hurtos, jovem sacerdote catalão, chegou ao Chile por meio da OCSHA (Obra de Cooperação Sacerdotal Hispano-Amaricana) em 1958. Jovial, destemido, generoso, com um claro carisma pela Pastoral Operária, viveu coerentemente seu sacerdócio e seu compromisso social, ao serviço do povo, de quem foi sempre um companheiro. Foi assessor de vários grupos cristãos.

Trabalhou no Hospital San Juan de Dios, viveu como operário num bairro de Santiago e foi, sobretudo, profeta da Palavra. Nos finais de semana celebrava a missa em um bairro operário ou ajudava nas paróquias vizinhas. Foi capelão dos grupos de Ação Católicas.

Depois do golpe militar chileno de 11 de setembro de 1973 de derrubou o presidente Allende, continuou indo ao trabalho no hospital dizendo que lá estaria mais seguro, além disso, no hospital havia muita gente em reais dificuldades que necessitava dele. No dia 19 daquele mês foi levado pelos militares. Seus amigos passaram vários dias procurando por ele. Em 26 de setembro, o cônsul espanhol avisou que seu corpo estava no necrotério (fora encontrado no dia 20). 

Na missa fúnebre foi concelebrada por mais de quarenta sacerdotes. Segundo o médico que efetuou a autópsia a pedido do cônsul, ele tinha no corpo mais de 10 perfurações de bala, todas disparadas pelas costas. Havia chegado ao necrotério às 10:30h da manhã do dia 20, em um caminhão juntamente com outros cadáveres achados debaixo da ponte Bulnes no rio Mapocho.

Nas horas antes do seu martírio deixou-nos um dos mais belos textos martiriais desse nosso século latino-americano: seu “Testamento”. O próprio soldado que o fuzilou dá testemunho da serenidade cristã com que Joan deu a vida: Ele me disse: ”por favor, não me vendes os olhos, mata-me de frente porque quero ver-te para te dar o perdão”... Levantou o olhar para o céu,... pôs as mãos sobre o peito... e disse: “Pai perdoa-os!”.

Segue abaixo carta-oração, testemunho espiritual escrita por Joan Alsina:

Por quê?
Queríamos colocar vinho novo em odres velhos e acabamos ficando sem odre e sem vinho... no momento.
Chegamos ao fim caminho, abrimos uma trilha e agora estamos nas pedras. Até quando continuaremos andando... Até quando? Pode ser que encontremos algumas árvores para nos proteger das balas.
- Nenhum dos que molharam o pão nas panelas do Egito, verá a Terra Prometida, sem passar antes pela experiência da morte.
- Já não há profetas entre nós, apenas o bezerro de ouro. (Ex. 32,1-16). Nada restou de dois dias para cá.
E como não podemos falar, ruminamos. Temos saudades do pão seco compartilhado, comido entre risos e sorrisos.
Nós não tínhamos entendido as palavras de São Paulo: "Nós todos vamos ser testado pelo fogo". E quanta palha queimada! Onde estão agora os que queriam chegar às últimas consequências?
- Permitiram-nos fazer um jogo tão nojento, com possibilidades tão limitadas, que nós mesmos nos saturamos. "Santa Democracia, rogai por nós!"
É fácil resignar-se - tão fácil pregar a resignação - com a perda. Porque perder significa deixar de ter e começar a ser. E aqueles que mais tinham e continuam a possuir, são os que menos eram; eram menos, mas tinham o poder e força.
“E Verbo se fazia carne”. E isto não toleramos. É o escândalo da cruz. Nunca Suportamos.
Respeitaremos todas as ideologias... enquanto não tentem tornar-se carne e realidade. Se ousarem, fá-la-emos sangue e carne massacrada.

E agora?
São muitas pessoas que foram identificadas e purificadas. Setenta e dois disseram. Quarenta mil estavam no êxodo. E aqui também, de um lado e outro.
Que importa?
O povo é tropa, evidentemente; "Faremos uma país novo, livre e independente". Outras Vozes, outros âmbitos. Não, as vozes são as mesmas, e a dialética também. Falta de conexão interna. Não sabem quem sou, de onde eu venho e para onde vou. Chegarei a casa. Este me olha. Aquele pode me prender. Esconder-te. Depender de uma senha, de uma instituição, de uma confissão arrancada. Suor, frio, calor. Uma cela pequena, solitária, fria. Quem está do outro lado do telefone? Quem chama à porta a esta hora? Não sei o que vou fazer, somente o que me farão. E o mais doloroso: por quê? Agora entendo quando me falam da luta contra o medo. E ainda continuam os disparos. Principalmente a noite. Isto é a insegurança e a consciência da insegurança, o medo.
Quem contra quem? Pessoas, pessoas, pessoas. De um lado e do outro. Eles estão mortos; ou em fuga; ou estão lá em cima. Estratégias, decretos, declarações! E o povo dormindo ou morto. É a impotência. O sangue ferve. As palavras não saem. E pensar que - palavras e ações estão fadadas ao pó e a carne esmagada e massacrada.
E a nossa Mãe? (Igreja)
Não se pode improvisar.
O equilíbrio serve somente para os tempos de 'paz'.

Esperanças
Se o grão de trigo não morrer, nunca dará frutos. É terrível um monte incendiado, mas é preciso ter esperança de que, da cinza molhada, negra e pegajosa, volte a germinar vida.
Descobrimos a vida em cada dia, em cada minuto. Descobrimos os valores dos pequenos gestos de cada momento. O riso na rua triste; a voz amiga em código no telefone; a preocupação pelos caídos; a mão estendida; a fase que ousa dizer uma piada.
Lembro-me de uma passagem de Saint Exupéry, em Vôo Noturno. Ele estava voando não sei sobre qual país, quando só então captou o sentido da casa, da montanha solitária, da luz, das ovelhas, do pastor. Para entender o sentido das coisas é necessário que nos distanciemos delas ou que delas nos distanciem.
Agora eu entendo as palavras de São Paulo: "A caridade não se incha de orgulho". (I Coríntios, 13,4). A verdade está escondida, porque é a Palavra feita carne. Somos como ovelhas levadas ao matadouro. Em tuas mãos entrego o meu espírito. Isto não é literatura. Nos momentos cruciais temos que empregar símbolos. De outra forma não poderíamos expressar.
Esperamos vossa solidariedade. Entendeis agora o que significa o Corpo de Cristo? Se nos afundamos, é algo da esperança que se afunda. Se com as cinzas brotar nova vida, é algo que nasce de novo dentro de vós.

Adeus a todos. Ele sempre nos acompanha onde quer que estejamos.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Alírio Buitrago, Carlos Augusto Buitrago, Fabián Buitrago, Gildardo Ramírez e Marcos Marín

ALÍRIO BUITRAGO, CARLOS AUGUSTO BUITRAGO, FABIÁN BUITRAGO, GILDARDO RAMÍREZ E MARCOS MARÍN
Mártires da Fé
COLÔMBIA * 17/09/1982

Alírio, Carlos, Fabián, Gildardo e Marcos, jovens camponeses, catequistas da paróquia de Cocorná, em Antioquia, foram assassinados ao entardecer do dia 17 de Setembro de 1982 por um grupo paramilitar de quatros homens, que os convidaram a sair de casa e lhes dispararam rajadas de metralhadora.

Carlos e Alírio eram irmãos, Fabián era tio deles e todos muitos amigos entre si. Organizaram-se para servir a seus irmãos, tão pobres como eles, nas tarefas de alfabetização, de formação religiosa, de recreação, bem como em formarem cooperativas.

Graças a seus trabalhos, nas veredas de Cocorná, foi se descobrindo a força da solidariedade e da fé compartilhada. Tudo isso incomodava os latifundiários, comerciantes que especulavam com a pobreza do povo e a polícia que os protegia: "Estão se formando guerrilheiros", "vão invadir nossas terras", diziam.

E começavam as ameaças aos sacerdotes, as detenções de camponeses, os massacres... "É um caso muito doloroso para nós. Meus filhos, porém, não morreram, continuam vivos entre nós. Cumpriram a vontade de Deus. Todos os que dão a vida em benefício dos outros, levando uma vida cristã como eram meus filhinhos, meu irmão e companheiros, estão fazendo a vontade de Deus", disse entre soluços a mãe de Alírio e Carlos, camponesa de Cocorná.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir do livro: Sangue Pelo Povo, Ed. Vozes.
 

Galeria dos Mártires - Paulita Úbeda de Moares e Companheiros

PAULITA ÚBEDA DE MORAES e COMPANHEIROS
Mártires da Justiça
NICARÁGUA * 17/09/1978

Pualita Úbeda de Morales, seu filho Fernando e companheiros, assassinados pela Guarda Nacional em Estelí, Nicarágua. Paulita, professor, catequista de 39 anos e mãe de quatro filhos, participou ativamente do sindicato dos professores. 

Em 1970 organizou a primeira greve nacional. Paulita e vários companheiros são demitidos pela ditadura Somoza. Ela também participa de todas as atividades da Igreja em Estelí. Tendo a casa tomada pela Guarda Nacional, precisa sair para comprar remédios para sua mãe que está gravemente doente. 

Um guarda dá um tiro nela à queima-roupa. Após três horas de agonia Paulita morre. Seu corpo foi deixado na rua durante quatro dias, até que puderam dizer o que aconteceu para marido de Paulita, que obtém a permissão para enterrá-la em casa. Aberto a cova para enterrá-la, chega a guarda e atira contra homens. Morrem seis, entre eles Fernando, seu filho mais velho de 17 anos.

Paulita, Fernando e companheiros seguem vivos na memória do povo.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir da página servicio koinonia. 

Galeria dos Mártires - Pe. Guadalupe Carney

Pe. GUADALUPE CARNEY
Revolucionária e Mártir do Povo Hondurenho
HONDURAS * 16/09/1983

Pe. Guadalupe Carney nasceu em 1924, Chicago, Estados Unidos. Seu nome original é James Francis Carney, de uma família de classe média trabalhadora, e desde cedo percebeu a vida burguês em que vivia. Serviu como soldado na França e na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial; e por mais estranho que pareça, ele pensou que era preferível deixar-se matar ao invés de matar um soldado inimigo.

Além disso, sua obstinada resistência à autoridade o colocou em apuros às vezes. Em uma ocasião passou um tempo na prisão porque se recusou a parar de conversar com prisioneiros alemães. Ele tinha o sentimento e a consciência de que todas as pessoas deveriam ser tratadas com dignidade e respeito.

Sua fé era profundamente importante para ele. No entanto, ele ficou surpreso com o quão pouco a religião parecia importar para muitos cristãos, tanto em seus anos de Exército e, mais tarde, nos estudos universitários. Ele também foi profundamente tocado pela extrema pobreza dos norte-africanos muçulmanos que tinha visto na França, e se perguntava indignado; "por que o ser humano tem que viver em tais dificuldades".

Todas estas experiências despertou um desejo de tentar mudar a maneira como as pessoas vivem no mundo. Em 1948, entrou na Companhia de Jesus, para responder o chamado, tornando-se posteriormente um missionário jesuíta em Honduras. Comunista e cristão mesmo antes de sua formação no seminário. Em seus anos de faculdade, ele trabalhou na fábrica da Ford em Detroit. Lá, ele percebeu e ficou incomodado por um estranho fenômeno; enquanto os comunista ateus procurava lutar e a trabalhar para uma sociedade mais justa e um mundo melhor, os muitos cristãos dava mais atenção ao ficar à frente e à busca da riqueza e do prazer.

Ele se convenceu de que o sistema capitalista era intrinsecamente mau, promovendo uma atitude egoísta, individualista e competitiva nas pessoas. Mas ele também rejeitou os sistemas marxistas da Rússia e da China, que parecia perder o valor da pessoa humana na coletividade do estado. Ele continuou em busca de outro caminho, uma forma de socialismo onde as pessoas compartilham o que têm, como os primeiros cristãos descritos nos Atos dos Apóstolos.

Chegou a Honduras em 1962, já como sacerdote jesuíta, animado pelo ideal do Concílio Vaticano II, do serviço radial aos pobres, e pela convivência com as comunidades campesinas e com os pobres, e participando de suas lutas, se transformou como ele mesmo disse em suas memórias, “de um gringo burguês em um lutador revolucionário”.

Neste país pobre da América Central, Carney argumentou que, tal como o Filho de Deus tornou-se plenamente humano como um de nós, então ele teve que realmente tornar-se um com o hondurenho campesino. Como Saul tornou-se Paulo para significar a sua nova vida em Cristo, Carney tornou-se Guadalupe para simbolizar sua total identificação com o povo hondurenho. Por fim, e depois de anos de trabalho neste país, ele se tornou um cidadão de Honduras e renunciou ao seu direito de cidadão americano.

Em seu livro “Metamorfosis de un revolucionario”, ele elaborou suas ideias sobre a formação espiritual. Estudos teológicos tradicionais, ele acreditava, pareciam formar sacerdotes no serviço do status quo. A classe média confortável vive em sua maioria dentro do sistema capitalista e escondido nos ideais imperialistas dos Estados Unidos.

Pe. Guadalupe afirmou que foram os pobres camponeses de Honduras que realmente lhe ensinou o Evangelho, a Boa Nova que Jesus trouxe, e que a classe burguesa não pode realmente entender o que significa "levar a Boa Nova aos pobres".

A história de sua vida tem o direito de ser reconhecida como uma história de um revolucionário, porque o Pe. Guadalupe acreditava firmemente que como cristão, tinha que ser um revolucionário, e viver a radicalidade do evangelho, para se ter uma vida cristã plena. O Evangelho é revolucionário. Guadalupe viu e compreendeu os problemas dos pobres. Ele viu como as empresas de frutas americanas haviam tomado as melhores terras e plantações. Eles e alguns hondurenhos ricos controlava cerca de 95% da riqueza do país. Enquanto o restante da população viviam em extrema pobreza.

As tentativas de organizar sindicatos muitas vezes ocasionaram às mortes e desaparecimentos de seus líderes. Em um vídeo raro ele diz: "a forma como os camponeses são tratados é totalmente inaceitável por Deus e isto deve ser mudado”.

Em uma história datada de 20 julho de 1966 no National Catholic Reporter, Pe. Guadalupe é defendido por seu superior jesuíta Padre Fred Schuller. Este, sem reservas, descreveu o trabalho de Guadalupe como "o da Igreja". Chamado de comunista pela rica família Borgan, Guadalupe foi acusado de "agitar os camponeses, pregando a subversão contra o governo de Honduras". Schuller, "afirmou que essa falsa acusação era típica, era o que estavam sujeitos aqueles que defendem os pobres, eram insultados e tidos como subversivos".

A Igreja não podia ficar em silêncio enquanto seus filhos pobres estavam sendo explorados e muitas vezes martirizados por tentarem lutar por seus direitos elementares. Eventualmente Pe. Guadalupe escolheu viver sozinho em sua pequena Igreja de missão onde dividiu completamente a vida e a pobreza de seu povo. Por sua identificação com o povo ele ensinou os caminhos da teologia da libertação: "Cristo veio para libertar as pessoas e estabelecer um Reino da Justiça e de Paz". E estes ensinamentos tornou-se parte significativa da luta do povo para tornar isso uma realidade.

Houve momentos em que o governo de Honduras teria aprovar leis que deram grandes extensões de terra para os camponeses pobres, de modo que eles teriam uma melhor chance de sobreviver; em seguida, as empresas e os ricos proprietários de terras influenciariam novos governos para tirar os direitos do povo de ter suas próprias terras.

Por muitas vezes fizeram ameaças como: "padre comunista, será morto se não parar de se intrometer em assuntos políticos”. Em seu trabalho paroquial Pe. Guadalupe foi de aldeia em aldeia fazendo seus deveres religiosos, mas também falando contra as injustiças feitas aos pobres; e ajudando a organizar os sindicatos hondurenho. Mais ameaças foram feitas contra a sua vida. Em 1979 foi preso, teve sua cidadania hondurenha ilegalmente revogada e foi expulso do país.

Ele escreveu sobre sua vida e seus ideais, enquanto vivia na Nicarágua. Eventualmente, ele voltou para Honduras para ser capelão das forças revolucionárias. Em 1983, aos 58 anos de idade, "Padre Guadalupe", agora uma lenda entre os pobres de Honduras, tornou-se um capelão para uma comuna armada revolucionária, e pouco tempo depois foi capturado pelo exército, que afirmou que "Pe. Carney tinha desaparecido". Mais tarde, as autoridades apresentaram a estola e o cálice aos seus parentes, o que sugere que ele tinha "provavelmente morrido de fome nas montanhas". Esta forma de ocultar a verdade sobre a morte do Pe. Guadalupe não foi aceita por seus familiares, já que ele tinha habilidades para sobreviver na selva. Isto cheirava como uma maneira de encobrimento da verdade por parte da justiça hondurenha. Seu irmãos, irmã e um amigo jesuíta ficaram por cerca de 20 anos em busca de informações sobre a sua morte junto ao governo de Honduras.

O governo de Honduras veio com cerca de seis histórias diferentes. Depois de tentarem de toda forma ocultar a verdade, com um memorando oficial que sustentava que ele havia morrido de fome, em 19 de agosto de 1985 surge uma testemunha para desmentir estas afirmações, o Senhor Cabelleros, um refugiado hondurenho e um ex-membro dos esquadrões da morte hondurenhos. Ele confirmou o envolvimento da CIA e disse que tinha ouvido de outras pessoas que Padre Guadalupe tinha sido assassinado e fora jogado de um avião na selva.

A vida de Guadalupe é um testemunho eloquente do sacerdócio e do chamado cristão para o discipulado. Em uma época de ufanismo onde o Evangelho radical de Jesus é frequentemente subvertido pela corrosão sedutora do nacionalismo, Carney lembra a todos os batizados, onde o nosso compromisso deve se centrar; "no compromisso com as causas do povo, pela libertação da exploração e injustiça, sempre na procura da Paz".

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de pesquisas na internet e livros: Metamorfoses de un revolucionario. 

Galeria dos Mártires - Noite dos Lápis

NOITE DOS LÁPIS
Mártires pelo Direito Educacional
ARGENTINA *  16/09/1976

É conhecida como "Noite dos lápis" pelo desaparecimento e tortura que ocorreu em 16 de setembro de 1976 durante a ditadura chamada deProcesso de Reorganização Nacional, onde sete jovens estudantes entre 16 e 18 anos, a maioria militantes ou ex-militantes secundária União dos Estudantes (UES), que protestavam na cidade de La Plata pelo boleto escolar secundária (BES), que havia sido suprimido pelo governo militar. 

O depoimento de Pablo Diaz, um dos sobreviventes, tem sido fundamental para a reconstrução e denunciando esses fatos.

                                                                                                                         Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Galeria dos Mártires - Steve Biko e os Mártires Sul Africanos

STEVE BIKO e os Mártires Sul Africanos
Mártir da Liberdade e do Direito do Povo Negro
ÁFRICA DO SUL * 12/09/1977

Steve Bantu Biko, mais conhecido por Biko, nasceu em King William na África do Sul, a 18 de Dezembro de 1946. Quando ainda adolescente foi expulso da escola Lovedale, em King William’s Town, com a alegação por parte da direção da escola de que ele tinha “comportamento subversivo”. Foi transferido para outra instituição na região litorânea de Natal. Terminando o ensino médio, ingressou na Escola de Medicina da Universidade de Natal, na seção destinada aos negros. Era a década de 60 do século passado, e o país estava em plena Apartheid.

Tornou-se um ativista estudantil. Em 1968, com outros companheiros de luta fundou a SASO (South African Student's Organisation - Organização dos Estudantes Sul Africanos) rompendo com a NUSAS (National Union of South African Students - União Nacional dos Estudantes Sul Africanos), defendendo uma intervenção mais radical e criticando o predomínio e orientação dos liberais brancos na NUSAS. 

Biko, que foi o primeiro presidente da SASO, pretendia com esta organização desenvolver a participação dos negros, elevar o seu orgulho e atuar independentemente dos brancos. Para a SASO escreveu diversos documentos com o pseudônimo de Frank Talk.

Biko foi um dos fundadores do Movimento de Consciência Negra, defendendo que o principal na luta contra o apartheid era a luta dos negros, a sua organização e mobilização, combatendo a dependência dos negros em relação aos liberais brancos. Em 1972 fundou a Convenção do Povo Negro (Black People's Convention) e foi eleito seu presidente honorário. Também em 72 foi expulso da Universidade e passou a trabalhar em programas para a comunidade negra (Black Community Programs - BCP), participando na construção de hospitais, creches e no apoio aos trabalhadores negros. 

Em Março de 1973 foi "banido" e proibido de sair da cidade de King William. "Banido" significava que não podia comunicar com mais de uma pessoa de cada vez, desde que não fosse da sua família, e não podia publicar nada, tal como os seus escritos anteriores não podiam ser divulgados ou citados. Apesar disso, dirigiu uma seção do BCP na sua cidade, mas posteriormente foi também proibido de ter quaisquer ligações com os programas da comunidade negra.

Não obstante a repressão de que era vítima, Biko criou em 1975 um fundo de apoio aos presos políticos e às suas famílias. As organizações que criou e apoiou, nomeadamente as organizações estudantis, tiveram um papel decisivo nos levantes de Soweto, em 1976. Biko foi perseguido e preso por diversas vezes.

Em 18 de Agosto de 1977 foi preso juntamente com o seu companheiro Peter Cyril Jones, acusados de desobedecerem às leis do apartheid. Biko foi barbaramente agredido e torturado numa prisão em Port Elizabeth por cinco policiais o que lhe provocou uma hemorragia cerebral. Em 11 de setembro, em consequência das torturas ele já estava em um estado contínuo de semiconsciência. O médico da prisão aconselhou que Steve fosse levado a um hospital. Jogado nu e sem qualquer proteção na traseira de um Land Rover, Biko foi levado numa viagem de 1,2 mil quilômetros rumo a Pretória, aos solavancos. No dia seguinte, chegava ao Presídio Central da cidade, foi jogado no chão de uma cela fria do jeito que estava, despido e quase inconsciente, onde viria a falecer no dia 12 de Setembro de 1977 com apenas 30 anos de idade, por não resistir aos graves ferimentos causados pelo espancamento policial.

O funeral do ativista atraiu às ruas centenas de milhares de sul-africanos, num protesto que entrou para a vergonhosa história mundial da segregação racial. 

O governo do apartheid primeiro afirmou que ele tinha morrido devido a uma greve de fome, posteriormente, perante a gravidade visível das lesões na cabeça, afirmaram que tentou se suicidar, batendo com a cabeça.

A Comissão de Verdade e Reconciliação criada após o fim do apartheid, não perdoou aos seus assassinos. Mas, em Outubro de 2003, o Ministério Público da África do Sul anunciou que os cinco polícias acusados do crime não seriam processados por falta de provas, alegando que faltavam testemunhas que provassem a acusação e considerando ainda que a possibilidade de acusação pelo crime de lesões corporais já tinha caducado.

A morte de Biko agitou o planeta, e logo ele foi reconhecido "mártir", inspirando outros a lutarem pela igualdade dos direitos entre negros e brancos, ampliando e elevando o combate ao regime do apartheid na África do Sul. Mas o governo da África do Sul apertou o cerco, e baniu organizações (principalmente as que Biko trabalhou) e pessoas que se manifestassem contra seu abuso de poder.

Em 1980, Peter Gabriel editou um álbum que incluía a canção "Biko", que se tornou um hino mundial contra o apartheid e que foi posteriormente cantada por outros artistas, como por exemplo Joan Baez. Em 1987, Richard Attenborough realizou o filme Cry Freedom (Grito de Liberdade) sobre a vida de Biko e no qual a música de Peter Gabriel foi incluída na trilha sonora. Em 1997, no vigésimo aniversário da sua morte, Nelson Mandela fez o sua homenagem a ele e inaugurou uma estátua em sua memória. 

Nelson Mandela em 1997, no elogio a Steve Biko, afirmou: "Um dos grandes legados da luta que Biko travou - e pela qual morreu - foi a explosão do orgulho entre as vítimas do apartheid".

Atualmente existe na África do Sul a Fundação Steve Biko (http://www.sbf.org.za/) que é presidida pelo seu filho Nkosinati Biko.

Segue abaixo letra traduzida do Petel Gabriel

«BIKO» 

Setembro de 1977,
Clima agradável no Porto Elizabeth...
A rotina era a mesma
Na sala policial 619.

Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Yihla Moja, Yihla Moja - O homem está morto.

Quando tento dormir à noite
Meus sonhos são vermelhos...
Lá fora o mundo é negro e branco
Com apenas uma cor morta.

Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Yihla Moja, Yihla Moja - O homem está morto.

Tu podes assoprar uma chama,
Mas não podes fazê-lo com uma fogueira...
Uma vez que as fagulhas incendeiam algo,
O vento as tornará maiores.

Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Yihla Moja, Yihla Moja - O homem está morto.

E os olhos do mundo agora estão vigilantes.

https://www.youtube.com/watch?v=y7Oo1QSyxUc

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.