sexta-feira, 28 de julho de 2017

Galeria dos Mártires - Pe. Stanley Francis Rother

Pe. STANLEY FRANCIS ROTHER
Mártir defensor dos pobres
GUATEMALA * 28/07/1981

MEMÓRIA DOS 36 ANOS DE SEU MARTÍRIO

Stanley Rother, missionário americano na Guatemala, sacerdote de 46 anos. Nasceu em Oklahoma, USA, trabalhou por 13 anos com os indígenas Cakchiquel na Guatemala. Durante todo esse tempo ele só queria cuidar do seu rebanho, na paz e harmonia. Outros sacerdotes americanos da área o consideravam o mais conservador de seu grupo. Era pacífico, dedicava seu tempo a ajudar o povo, a melhorar a agricultura e a saúde das pessoas.

Vários paroquianos seus, inocentes camponeses, foram assassinados pelo Exército. Pe. Stanley escreve uma carta denunciando essas atrocidades. Seu escrito circulou nos Estados Unidos (publicado em vários jornais e revistas), provavelmente foi esse o motivo que o levaria a ser assassinado.

Sua atitude tranquila, pacifica se transformava quando o povo estava sofrendo injustiça. Em certa ocasião, o Exército convocou uma reunião com o povo, no parque central. O tenente do Exército e comandante do destacamento de 300 soldados em Atitlan, convidou o Pe. Stanley para ocupar as cadeiras da Presidência da Assembléia Popular, ao que ele se recusou e ficou entre o povo.

O comandante, tomando o microfone, repetiu insistentemente que a presença do Exército naquele lugar obedecia a uma missão de paz e tranquilidade; que não era necessário que a população buscasse as igrejas para dormir, nem que durante o dia se trancassem em suas casas, pois o Exército não reprimia, o Exército defendia o povo... Então o Pe. Stanley pediu a palavra e do microfone falou: "Paz e tranquilidade nos anuncia o senhor tenente para Atitlan. Muito bem! Quero manifestar ao senhor tenente e a toda a opinião pública da Guatemala que o viver em paz e buscar a harmonia social são virtudes próprias de Santiago Atitlan, assim como são as roupas típicas que identificam a população deste lugar. Já há treze anos vivo neste paraíso de paz e fraternidade. Posso testemunhar que jamais um problema importante perturbou este remanso de paz... até que o Exército se fez presente. Esta paz e tranquilidade que nos oferece, talvez nela houvêssemos acreditado. Faz um mês, este povo perdeu 28 de seus filhos humildes e trabalhadores; as famílias procuram igrejas para dormir, não querem sair de suas casas por temor à repressão; começou a circular uma lista de morte... diante de tais fatos, é difícil crer na paz que nos oferecem...".

Ameaçado de morte, Pe. Stanley deixou por três meses sua paróquia e voltou aos Estados Unidos. Algum tempo depois tomou a decisão importante de voltar. Seu desejo de estar em Santiago Atitlán era mais forte que as mesmas ameaças. Ao lado dele, as pessoas também se fortaleceu em meio a muito sofrimento com gestos heroicos. Ele estava ao lado de quem amava, o povo, como um apóstolo de Jesus Cristo. Aos seus familiares que não podia compreender sua radical decisão, ele disse: "Se tenho que morrer, quero morrer lá. Quero estar lá com meu povo". 

A um amigo, disse uma frase que teve sentido de profecia: "Vou celebrar a semana Santa em Atitlan...".

No dia 28 de Julho de 1981, Pe. Stanley foi assassinado. A única testemunha conta: "Eu dormia no quarto do segundo andar, onde antes vivia o Pe. Stanley. Cerca de uma hora da madrugada chegaram três homens altos e fortes que perguntaram pelo Pe. Stanley. Ameaçaram-me e tive que indicar-lhes o quarto onde dormia. Ele já havia ouvido a conversa, porque quando os homens chegaram a sua porta, ele já estava vestido. Quiseram levá-lo, mas ele não se entregou. Logo atiraram nele... Avisei as religiosas, que viviam na casa mais próxima".

Regou com seu sangue a terra abençoada de tzutuhiles maya, simples camponeses e pobres.

A versão publicada nos meios de comunicação de opinião pública de Santiago Atitlan, era que quiseram roubar a igreja e o sacerdote tinha sido morto pelos ladrões...

Pe. Stanley disse que jamais se deixaria sequestrar, em sua longa carta de denuncia havia descrito como se fazia a tortura na Guatemala...

E ainda dizia: "Minha vida é para o meu povo. Eu não tenho medo". 
"O povo precisa de mim e eu quero estar aqui. E as pessoas me amam". 

Ninguém que assistiu à missa fúnebre vai esquecer a despedida que o povo de Santiago Atitlán deram o seu pastor como um sinal de amor, reverência e gratidão. Homens vestidos com suas melhores roupas, o levaram em procissão. Na capela-mor da igreja paroquial em dois vasos de barro e uma caixa de metal foram enterrados o seu sangue e coração. 

Com razão Pe. David Monahan na apresentação de suas cartas ele escreve: "As cartas do Padre Stanley Rother nos dá a conhecer um humilde seguidor de Jesus Cristo, que alcançou grandeza espiritual em meio a terrível opressão. Como pastor de Santiago Atitlán tornou-se, no sentido mais amplo, o Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas". 

Em 21 de Julho de 2010, a Arquidiocese de Oklahoma City, realizou uma cerimônia de encerramento da fase diocesana da canonização de Padre Stanley Rother.

Em uma solene celebração eucarística, o arcebispo, Dom Eusébio J. Beltran, ordenou o fechamento de todos os documentos que testemunha os acontecimentos de 28 de julho de 1981 na cidade de Santiago Atitlán, Guatemala, para embarque imediato da Congregação para as Causas dos Santos no Vaticano.

"Pe. Rother foi um bom e feliz padre. Ele era muito leal ao Evangelho e ao serviço aos pobres", disse Arcebispo, e anunciou que tem a esperança de que este servo de Deus seja declarado santo e mártir.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.




segunda-feira, 24 de julho de 2017

Galeria dos Mártires - Pe. Ezequiel Ramin

Pe. EZEQUIEL RAMMIN
Mártir da Terra
CACOAL-RO * 24/07/1985

Memória dos 32 anos de seu martírio

Ezequiel Ramin, jovem missionário comboniano, veio da Itália para Rondônia, na diocese de Ji-Paraná, onde se entregou generosamente ao serviço e à defesa dos indígenas e dos sem terra. 

Vibrava pelas causas da justiça e libertação. 

Ameaçado, não desistiu em sua pastoral vinculada ao CIMI e a CPT. Morreu na estrada, crivado de balas pelo latifúndio. E em sua homenagem, foi composto nosso popular canto “Pai Nosso dos Mártires”.

 Abaixo algumas frases dita por Ezequiel Ramin:

- Amo todos vocês e amo a justiça... Não aprovamos a injustiça, embora recebemos violência. O padre que vos está falando recebeu ameaças de morte. Queridos irmãos, se minha vida lhes pertence, também minha morte lhes pertencerá.

- Existem, hoje, marginalizados e esquecidos, nas penitenciarias, nos hospitais, asilos, reformatórios, barracos, nas calçadas e debaixo dos viadutos das grandes cidades. São os excluídos da vida. Como se pode ficar indiferente diante de tamanha dor do ser humano? Se Cristo quer servir de mim, não posso recusar.

- Muitas vezes, sinto um nó na garganta e uma grande vontade de chorar, ao ver tantos quilômetros de cerca.

- A morte é uma vitória com aparência de derrota.

- Sinto-me em sintonia com o mundo latino-americano, com suas angustias e com suas grandes esperanças.

- Trabalhar com os pobres é criar primaveras depois do inverno.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Galeria dos Mártires - Pe. Carlos de Dios Murias e Pe. Gabriel Longueville

PE. CARLOS DE DIOS MURIAS e GABRIEL LONGUEVILLE
Mártires da Justiça em La Rioja
ARGENTINA * 18/07/1976


Carlos de Dios Murias nasceu a 10 de Outubro de 1945 em Córdoba (Argentina), no seio de uma família apegada aos valores religiosos e morais. É por essa altura que sobe ao poder Juan Peron, apoiado pela popularidade da sua esposa, a célebre Evita Peron.

Em 1955, Peron é afastado do poder por uma Junta Militar e Carlos, ao longo de quase toda a sua existência acaba por não conhecer outra coisa senão a instabilidade e a crise na qual a ditadura militar mergulha o país até 1973.

A sua irmã Maria Cristina descreve-o como um adolescente idealista, piedoso e sensível à condição dos oprimidos. Opta pela vida religiosa. É admitido entre os franciscanos conventuais. Deixou-se cativar pelo carisma de São Francisco de Assis, pela pobreza e pelo empenho apostólico dos frades.

Foi ordenado sacerdote em 17 de dezembro de 1972. Após a sua ordenação sacerdotal, se encarrega da paróquia de El Salvador de La Rioja e colabora com o Enrique Angelelli, bispo que Carlos admira muito particularmente.

Angelelli revela-se entusiasta no apostolado e comprometido na evangelização e defesa dos direitos dos oprimidos. Posteriormente, Carlos torna-se colaborador da paróquia de Chamical juntamente com Gabriel Longueville, padre francês, delegado do episcopado de França para a América Latina.

Carlos é apreciado pela sua abnegação, o seu bom humor e a sua coragem. Próximo dos humildes, não hesita nunca em ajudá-los, até materialmente. Todos os que o conheceram diziam que ele era um homem de Deus, profundamente espiritual e cuja vida está em concordância com o Evangelho de Jesus.



Gabriel José Rogelio Longeville, nasceu na França, em 18 de março de 1931. Em uma família de camponeses simples, com um coração verdadeiramente cristão.

Ingressou no Seminário Saint Charles. Logo depois foi para o Seminário de Viviers, onde estudou Filosofia e Teologia, terminado os estudos  Viviers, onde estudou Filosofia e Teologia, terminando os estudos foi ordenado sacerdote em 23 de julho de 1957.

Em 1969, ele viajou para o México, onde aperfeiçoou seu castelhano e exerceu o seu ministério sacerdotal junto a uma comunidade indígena.

Chega na Argentina no final de 1970, enviado pela Comissão Episcopal francesa para a América Latina (CEPAL). Ele se estabeleceu em Chamical juntamente com Pe. Carlos em 23 de fevereiro de 1972.

Homem de paz, sensível, muito falante, de alma profunda que exerceu um grande trabalho em favor dos mais pobres. Profundamente piedoso e devoto, viveu o evangelho e a pobreza real, com a facilidade de um nascido para isto.

Um artista nato, fazia escultoras e pintura, era autodidata.

Foram suficiente cinco anos para aprender a amar esta terra argentina e entregar sua vida, numa dedicação total aos princípios do Evangelho e ao serviço ao povo.

O compromisso e o martírio

Os dois homens entendem-se perfeitamente e entregam-se comprometidamente em favor da população empobrecida da sua comunidade, explorada em condições humilhantes pelos ricos proprietários.

Longe de qualquer atividade política, exercem o seu ministério em plena comunhão com o seu bispo, cuja linha de conduta eles seguem: fidelidade às orientações do Concílio Vaticano II e diretrizes da Conferência de Medelin para a América Latina.

Porém, na noite de 17 de Julho de 1976, os dois sacerdotes foram sequestrados logo após terminar o jantar na casa das Irmãs de São José. Eles foram levados por dois homens à paisana que afirmam ser da Polícia Federal. Três dias depois, são encontrados por um grupo de 20 trabalhadores ferroviários à beira da estrada de ferro, perto de Chamical. Tinham sido brutalmente torturados e os cadáveres estavam crivados de balas. Pe. Carlos tinha 30 anos e Pe. Gabriel tinha 43 anos.

A Igreja Católica Argentina começou o processo de canonização de dois padres, mortos durante a última ditadura (1976-1983). O bispo Roberto Rodriguez fez o anúncio durante uma homenagem aos padres Carlos Murias Deus e Gabriel Longueville, no cemitério de El Chamical, a 150 km da capital de La Rioja, onde estão enterrados os dois sacerdotes.

Encerrada a investigação diocesana sobre o martírio dos padres Carlos e Gabriel bem como do leigo Wenceslao Pedernera, vítimas da ditadura militar, o Bispo Marcelo Colombo levou em Maio de 2015 os documentos de mais de 7.500 páginas para serem analisadas pela Congregação para as Causas dos Santos, e assim sejam reconhecidos como “Mártires de Chamical”, pelo serviço prestado por eles pelas causas dos pobres em La Rioja.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Galeria dos Mártires - Bartolomeu de las Casas

BARTOLOMEU DE LAS CASAS
Profeta, Defensor da causa dos Índios e Negros
MADRI * 17/07/1566

Bartolomeu de Las Casas nasceu em Sevilha, na Espanha, no ano de 1474. Seu pai era um mercador da esquadra de Colombo, na segunda viagem ao novo continente. Estudou na Universidade de Salamanca, onde se graduou em direito. 

Depois viajou para Roma, onde terminou os estudos e ordenou-se sacerdote em 1507. A rainha Isabel, chamada "a católica", da Espanha, considerava a evangelização dos índios a justificativa mais importante para a expansão colonial. Insistia para que os sacerdotes e frades estivessem entre os primeiros a fixarem-se na América. Em 1510, Bartolomeu de Las Casas retornou à ilha Espanhola, agora como missionário, para combater o tratamento cruel e desumano dado as índios pelos colonizadores.

Para defender os índios no novo continente, Bartolomeu viajou várias vezes à Espanha, apelando aos oficiais do governo e a todos que o quisessem ouvir. Desde que ingressou na vida religiosa dominicana, ele se dedicou à causa indígena em defesa da vida, da liberdade e da dignidade. Dedicou vários anos à meditação e ao estudo, depois dos quais começou a escrever e a viajar incansavelmente. Lutou, também, para que tivessem direitos políticos, de povos livres e capazes de realizar uma nova sociedade, mas próxima do Evangelho. 

Para Frei Bartolomeu, o índio é o pobre de que fala a Bíblia, não apenas assassinado, mas espoliado e explorado até o suicídio. Portanto, o culto a Deus e a exploração do pobre são incompatíveis. O ponto central de sua teologia está precisamente na identificação de Cristo com o índio martirizado, com o pobre real.

A prioridade, para Bartolomeu, era a evangelização. Com tal propósito, viajou pela América Central fazendo um trabalho pioneiro, registrando tudo em seus diários. Foi perseguido pelos colonizadores espanhóis de São Domingos, Peru, Nicarágua, Guatemala e do México. Neste último país, foi nomeado bispo aos setenta anos de idade, em 1544. Mas ficou apenas três anos em Chiapas, sempre perseguido pelos espanhóis.

Em 1547, partiu da América para não mais voltar. Regressou à Espanha, continuando lá a defesa dos índios, à permanente denúncia da exploração de que foi vítima por parte dos conquistadores, quando corrigiu e publicou seus escritos, todos se contrapondo à política colonial. Porém suas idéias foram contestadas na América e também na Espanha. Tanto que, em 1552, suas obras foram censuradas e proibidas para leitura.

Morreu aos noventa e dois anos de idade no Convento Dominicano de Atocha, no dia 17 de julho de 1566, em Madri, Espanha. Muito querido do povo mexicano, seu nome, hoje, é lembrado como um dos maiores humanistas e missionários da história do cristianismo.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Ivo Abani

IVO ABANI
Mártir da Terra Livre
PALMA SOLA-SC * 16/07/1989


Ivo Abani, trabalhador sem terra, assassinado no dia 16 de julho de 1989, durante violenta desocupação da Fazenda Caldatto, município de Palma Sola-SC, onde outras 40 pessoas foram feridas e 11 presas.

Ficou assim, antes de morrer, silencioso.
E pensou um poema de olhos fechados:

"Canário aderindo ao sol
Faz que esmorece
O músculo do dia.

Detrás do traje oleoso
A sombra cuida do esquecimento.

Eu pego para mim um relâmpago
Desnudo, para envelhecer.

Quero dormir no meio da tempestade".


Poema do livro: Raízes, memória dos Mártires da Terra, de Jelson Oliveira.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Galeria dos Mártires - José Raimundo Mota de Souza Júnior

José Raimundo Mota de Souza Júnior
Antônio Gonçalves-BA * 13/07/2017

Mais um companheiro que tomba na luta pelos direitos dos trabalhadores. Na tarde desta quinta-feira, 13 de julho, o líder camponês e quilombola, José Raimundo Mota de Souza Júnior é assassinado.

Educador popular, grande defensor da Agroecologia, das cisternas de placa, um companheiro de luta e vivência. Júnior é militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e morador da Comunidade Quilombola de Jiboia, município de Antônio Gonçalves-Bahia.

Júnior do MPA, como era conhecido, foi assassinado a tiros enquanto trabalhada no campo com um irmão e um sobrinho, ambos conseguiram escapar com vida. Vizinhos relataram que minutos antes de seu assassinato, “os caras” foram até a casa de Junior perguntando por ele, sem saberem da intensão, informaram que estava trabalhando na roça.

Por hora, o corpo foi conduzido ao Instituto Médico Legal (IML) em Juazeiro para exames de balística e amanhã, pela parte da tarde será velado. Lideranças locais e do MPA descrevem que foi uma repressão a luta e a organização que o companheiro assumiu no seu dia a dia.

Há pouco mais de um ano, um outro camponês militante do MPA e liderança da região foi assassinado a balas, conhecido como João Bigode era morador da Fazenda Santana. Depois do assassinato de João Bigode, Júnior temia que acontecesse o mesmo com ele.

Só neste primeiro semestre de 2017 já são 47 assassinatos no campo, um dos índices mais altos desses 32 anos que a Comissão Pastoral da Terra tem registrado os Conflitos no Campo.

Que Júnior permaneça presente em cada sopro de ousadia, em cada canto de esperança. Para que sua luta não sejam em vão, luta e resistência nestes tempos sombrios.

Por Comunicação MPA
http://mpabrasil.org.br/lider-campones-e-assassinado-na-bahia/

Galeria dos Mártires - Pe. Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo

Pe. RODOLFO LUNKENBEIN e SIMÃO BORORO
Mártires da Terra Indígena
MERURI – MT * 15/07/1976

Missionário salesiano entre os índios Bororo, na aldeia de Meruri, Pe. Rodolfo pôs nessa missão toda sua “jovialidade e amizade, sua serenidade e exatidão na prática religiosa e nos estudos; seu espírito de trabalho e sacrifício”. Sabia muito bem do risco que corria: “Também hoje o missionário, afirmou, deve estar disposto a sacrificar sua vida”. “Não há nada mais bonito do que morrer pela causa de Deus. Este seria meu sonho”. 

Mártir glorioso da nova pastoral indigenista do CIMI, ele deu a vida pelas terras bororo e o índio bororo Simão, no mesmo martírio, deu a vida pelo missionário Rodolfo.

Prece da Esperança no Compromisso

Deus, nosso Pai, celebramos, com a morte gloriosa do Cristo, a morte gloriosa de Rodolfo e de Simão, o sangue de Teresa, de Lourenço de Zezinho e de Gabriel; a angústia e a solidariedade de Ochoa, dos bororós, dos missionários ... perfeitos no amor, segundo a Palavra de Cristo: o índio deu a vida pelo missionário; o missionário deu a vida pelo índio. Para todos nós, índios e missionários, este sangue de Meruri é um compromisso e uma esperança. O índio terá terra! O índio será livre! A Igreja será índia! 
(Pedro Casaldáliga, apud José Marins et alii, op. cit., p. 151.)

https://www.youtube.com/watch?v=VqpL3TwLjj0

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Héctor Jurado

HÉCTOR JURADO
Mártir do Povo Uruguaio
URUGUAI * 15/07/1972


Memória dos 45 anos de Martírio. 

Héctor Jurado, pastor metodista uruguaio. 

Detido pela polícia, morreu em consequência das torturas no Hospital Militar, poucos dias depois de sua prisão.

Embora não tenham sido fornecidos os resultados da autópsia, sabe-se que o corpo de Héctor apresentava sinais de maus tratos, além de uma ferida provocada por bala e outra provocada por corte.

O comunicado oficial disse que ele havia se suicidado com arma branca no momento da detenção.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de leitura dos livros: Sangue pelo Povo - Martirológio Latino-Americano - Ed. Vozes 

Galeria dos Mártires - José Amâncio Dias

JOSÉ AMÂNCIO DIAS
Mártir da Justiça e do Direito
BÉLEM DE MARIA-PE * 14/07/1993

José Amâncio Dias, líder sindical de Belém de Maria, Pernambuco, pai de 11 filhos, assassinado no dia 14 de julho de 1993 por ter apoiado a luta pelos direitos dos pobres assalariados do nordeste brasileiro.

A interrogação pousou no abismo
Nos princípios gerais que o pássaro
Trouxe das candeias do lugar.

As árvores se tocaram nas idades do medo
Perto do cansaço. Do deserto.
Agarradas entre as veias que de si
Penetram o coração iluminado da terra.

Debaixo do seu fardo a água
- insubmissa à lei e à música - 
Originou a circulação
Pondo o sol na erva do outono
E o dia na raiz dos grilos
Pendendo a roupa branca lavada.

A água não tem tinta para o mundo
Por isso acumula insetos sem compromisso
E verifica o peso das sementes sobre o leito dos pássaros.
Tem uma vocação para a eloquência, a água.
Um dizer sertanejo nas axilas.
Um odor poderoso frequentando a tarde.

Por isso, disseram tua notícia fundada na chuva.
Até no meio das farinhas
E nos lábios roliços da madeira
Que erguia o cume das casas, em louvação.

Texto do livro: Raízes, Memória dos Mártires da Terra, Jelson Oliveira - Ed. Loyola 

quarta-feira, 12 de julho de 2017

ROMARIA DOS MÁRTIRES DA CAMINHADA

MEMÓRIA DE UM ANO DA ROMARIA DOS MÁRTIRES DA CAMINHADA

Queridas pessoas, 
Estamos celebrando um ano da nossa Romaria dos Mártires da Caminhada, segue em anexo um texto-memória da experiência que vivemos naqueles dias de festa para os olhos e para o coração. Sigamos em Romaria no compromisso com as Causas do Reino, neste momento de travessia que estamos vivendo, onde cada dia os trabalhadores e trabalhadoras perdem seus direitos conquistados, continuaremos na luta por nenhum direito a menos e na certeza de "TUDO PELO REINO".




ROMARIA DOS MÁRTIRES DA CAMINHADA
"PROFETAS DO REINO"
  
Tecendo a Romaria dos Mártires

No ano de 2016 a Igreja de São Félix do Araguaia, onde o suor e o sangue fecundam o chão, realizou mais uma Romaria dos Mártires. Em caminhada celebrou a memória dos 40 anos do martírio do Pe. João Bosco Penido Burnier, do Pe. Rodolfo Lunkenbein e do índio Simão Bororo, e também a memória do Martírio de Sepé Tiaraju – Patriarca da Causa Indígena, que há 260 anos gritou “Esta Terra é Nossa”.
O tema desta Romaria foi: “PROFETAS DO REINO”, dando à profecia as três funções que a caracterizam: anúncio, denúncia e consolo. A profecia anuncia a Boa Nova: ela é evangelizadora por definição. A profecia denuncia o anti-reino: denuncia a má notícia de todos os sistemas e atitudes de morte. A profecia consola: É o pedido do próprio Deus, consola o meu povo. Opta pelos pobres, excluídos, marginalizados. A profecia que consola é misericordiosa, solidária, cuidante, luta pela justiça e pela paz, é amorosa.
         Para que essa festa Martirial acontecesse de forma profética, simples, orante e comprometedora, muitas mãos de muitos lugares e de muitos sonhos ajudaram a tecer de forma bela, comunitária, generosa essa nossa grande Romaria dos Profetas e das Profetizas do Reino.
         Tecendo a festa da vida, para nos embalar nesta Romaria, muitos encontros, reuniões, oficinas, mutirões e celebrações foram acontecendo na cidade e no sertão. Aos poucos crianças, juventudes, mulheres, homens e idosas foram se envolvendo nesta ciranda, e com seus dons, carismas e descobertas de suas potencialidades, as equipes de serviço foram se organizando, tecendo relações de cuidado, partilha, gratuidade e muita alegria, tatuando os seus nomes no estandarte da Romaria.
         As várias equipes deram um colorido especial à tecelagem desta festa. Durante meses, dia e noite, com muita paixão e compromisso, jeito humilde e alegria se dedicaram aos vários serviços: oficinas de arte, teatro, arrecadação de alimentos, hospedagem, acolhida, liturgia, café, animação, cozinha, infraestrutura, comunicação, exposição, venda de materiais da Prelazia e coordenação.
         Nas rodas de conversa nos diversos regionais da Prelazia se levantaram nomes de profetas e profetizas da bíblia, da comunidade e de outros lugares do mundo. Esses nomes depois de bordados e pintados em retalhos de várias cores foram alinhavados num grande painel de juta e chitão, formando um belo mosaico de cores e profecia.
         Neste tempo de preparação experimentamos o novo céu e a nova terra, onde a partilha, a doação, o encantamento e o profetismo se fez vida nas vidas, nas nossas vidas.
  
O chão da Romaria

            No chão sagrado, chão regado com o sangue do mártir Pe. Joao Bosco Penido Burnier e de tantos outros mártires, homens e mulheres que foram dando suas vidas pelo chão da moradia, do direito, da educação, da saúde, da cidadania e da paz, neste chão sagrado os vários espaços foram sendo organizados, com beleza estética, ética e ecológica tornado esse chão a casa do Bem Viver e Conviver.
Nesta grande casa comum, no chão de Ribeirão Cascalheira, os romeiros e romeiras foram acolhidos e hospedados nas casas e em vários espaços públicos e comunitários, reproduzindo o jeito acolhedor, simples e fraterno do povo da terra. A praça da Igreja São Joao Batista tornou-se o lugar do encontro, do abraço, da convivência, da dança, da partilha e da refeição. Cada lugar foi pensado para ser funcional, simbólico e ecológico. Na praça, os espaços foram organizados com tendas, ornadas com fitas de cetim, chitão, faixas, folhagens e flores para serem o lugar da alimentação, das rodas de conversa, da feira de artesanatos indígenas. Lugar com muitas torneiras para lavar os copos, pratos e talheres, eliminando assim os materiais descartáveis num gesto profético de cuidado com a terra mãe.
A Igreja São João Batista tornou-se o lugar da memória das romarias, dos martírios e da vida do povo. Com fotografias, painéis, cartazes, flores, bandeiras e estandartes a história dos 45 anos da Prelazia de São Félix foi sendo recontada. Também merecem um destaque especial os espaços onde mulheres e homens preparavam a alimentação. Ao redor das fornalhas, os muitos alimentos doados pelas comunidades da Prelazia foram tomando cores, cheiros e sabores. Os espaços celebrativos: Praça São Joao Batista, Capela da Cruz do Padre João e o Santuário dos Mártires já tendo em sua essência a beleza da simplicidade foram enriquecidos com os trabalhos manuais de muitas mãos que durante meses teceram, bordaram, costuraram e pintaram os vários materiais que ornamentaram esses lugares de encontro amoroso com o sagrado.
         Esses vários espaços, o chão da Romaria, foram todos preparados num grande mutirão, onde muitas pessoas com ternura, dedicação e cuidado arrumaram a casa para a festa. 

As celebrações da Romaria


         Toda a organização da romaria foi alimentada pela mística martirial, com celebrações martiriais que aconteceram na cidade e no sertão, fazendo memória dos nossos mártires, recordando as romarias que aconteceram: em 1986 Romaria dos Mártires; 1996 Vidas Pela Vida; 2001 Vidas Pelo Reino; 2006 Vidas Pelo Reino da Vida e 2011 Testemunhas do Reino. Momentos ricos de resgate da memória e compromisso do povo na luta pela terra, pelos direitos, pela dignidade. Muitas pessoas que viveram nas horas de agonia do Pe. João Bosco e que também puderam prestar os primeiros socorros, estar solidários com Margarida e Santana que estavam sendo torturadas, estavam presentes nestas rodas de memória. O bonito era perceber como a história foi sendo recontada, revivida e muitos elementos novos dos quais não conhecíamos foram sendo partilhados por pessoas que testemunharam o martírio diário do povo.
         Antecedendo os dias da romaria, aconteceu nas comunidades o Tríduo Martirial. No dia 13, a primeira noite do tríduo foi na Comunidade São João Batista, com a participação de bastante gente que já se somava para ajudar nos trabalhos da Romaria. Fizemos memória de Sepé Tiaraju, Patriarca da Causa Indígena.  Celebramos os 260 anos do seu martírio. Na segunda noite do tríduo fizemos memória dos 40 anos da morte do Pe. Rodolfo Lunkenbein e de Simão Bororo, mártires da Terra Indígena. A celebração aconteceu na Comunidade São José. Os sobrinhos do Pe. Rodolfo que vieram da Alemanha falaram da importância da memória profética de seu tio e da missão que ele assumiu com os povos indígenas e que devemos hoje assumir também.
         Na terceira e última noite do tríduo recordamos o martírio do Pe. João Bosco. Rezamos no chão sagrado da Capela da Cruz onde ele viveu seus últimos momentos de agonia e doação. Nesta noite havia muita gente que já chegava e participaram deste momento. Pudemos ouvir o testemunho do Raimundo Paulo, que nos lembrou que aquela região vivia conflitos dos pequenos posseiros com a investida dos grandes fazendeiros que queriam expulsá-los de suas terras e que devido a estes conflitos houve a morte de um policial ocasionando posteriormente a prisão e tortura de Margarida e Santana. Dona Nelsa nos fez refletir sobre a união do povo pelas causas da vida, da terra e que com a morte do Pe. João
o povo tomou consciência que a situação de perseguição aos camponeses deveria ser combatida. Juarez, que era agente de pastoral no vilarejo na ocasião do martírio do João Bosco, nos contou detalhes sobre o fato ocorrido. Da ida do Bispo Pedro e o Pe. João até a cadeia para intercederem pelas mulheres, o tiro fatal e a agonia do pe. João Bosco. A luta para encontrar um avião para levá-lo para Goiânia. No final da celebração a multidão seguiu para a Praça do Santuário dos Mártires para assistir a peça “Fica Pedro”, do grupo Associação Cultural Cena Onze, que conta um pouco da vida e do profetismo do Bispo Pedro.

Vigília Martirial


No entardecer do dia 16, com o céu avermelhado, próprio deste tempo, a multidão dos romeiros e romeiras foi se juntando na praça da Igreja São João Batista, animados pela equipe de canto, que cantava e invocava a memória profética dos nossos mártires. Ao redor da grande fogueira, ao som dos atabaques, ia e de flautas, o povo de romeiras e romeiros eram acolhidas com o mantra: Seja bendito quem chega, trazendo a paz... Pessoas vindas de vários lugares: Piauí, Bahia, Pernambuco, Ceará, Rondônia, Tocantins, Pará, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso, Alemanha, Argentina, e dos regionais da Prelazia. Essas mulheres e homens, profetas e profetizas do Reino que vieram para a nossa romaria entoavam: Tenho de gritar, tenho de arriscar, ai de mim se não o faço! Como escapar de ti, como calar, se tua voz arde em meu peito! Tenho de andar, tenho de lutar, ai de mim se não o faço! Como escapar de ti, como calar, se tua voz arde em meu peito?  O bispo Adriano faz a saudação à assembleia em festa: “Que a cruz bendita de Jesus Cristo, cruz que é vitória e a sua luz que brilha em todos os povos e em todas as culturas esteja com vocês, profetas e profetizas do Reino”.
Nesta noite de esperança pascal, noite martirial, noite dos profetas e das profetizas do Reino, noite dos que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro, escutamos o texto do livro do Apocalipse:  ... Ouvi então o número dos que receberam a marca: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos do povo de Israel... Depois disso eu vi uma grande multidão, que ninguém podia contar: gente de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam todos de pé diante do trono e diante do Cordeiro. Vestiam vestes brancas e traziam palmas na mão... Um dos Anciãos tomou a palavra e me perguntou: “Você, sabe quem são e de onde vieram esses que estão vestidos com roupas brancas? Eu respondi: “Não sei não, Senhor! O Senhor é quem sabe!”. Ele então me explicou: “São os que vêm chegando da grande tribulação. Eles lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro”. (7,2-4.9-14). A Cruz do Padre João foi trazida pela juventude da comunidade, rodeada de crianças com palmas nas mãos e a nuvem de testemunhas que podiam ser vistas nos estandartes dos nossos mártires. Enquanto entoava-se o hino: Ribeirão Bonito, Cruz do padre João, alta Cascalheira, gente do sertão, O suor e o sangue fecundando o chão... Com as frases da última fala de Pedro na Romaria de 2011: “O maior mártir foi Jesus; Podem nos tirar tudo menos a fiel esperança; Não percam a esperança, não desanimem; Não se esqueçam do sangue dos mártires; Outro mundo possível somos nós; Não podemos viver sem dignidade e liberdade; Não esqueçam da opção pelos pobres; Outra Igreja possível somos nós; Quem nasceu para morrer lutando não vai morrer de braços cruzados; Somos povo da Esperança; Somos povo da páscoa”. Juventudes dançavam fazendo uma coreografia com muita leveza e beleza....

O bispo Pedro Casaldáliga estava na roda, no meio do povo, com os olhos brilhando de alegria, corpo frágil, voz trêmula, na cadeira de roda, silêncio profético. Foi acolhido com um caloroso carinho e admiração por aqueles e aquelas que acreditam e vivem as mesmas causas pelas quais ele deu e continua dando a vida.
Os povos originários, os primeiros habitantes deste chão sagrado do Araguaia, com tochas e os corações esperançosos e sonhadores acenderam a fogueira, em seguida o fogo foi  abençoado, e dele acendeu-se o círio Pascal. As velas do povo são acessas, dissipando as trevas e resplandecendo nas noites escuras do povo o clarão da luz do mártir Jesus Cristo, a testemunha fiel, apontando um novo horizonte de Libertação para toda a humanidade: Tu és fonte de vida, Tu és fogo, tu és amor, Vem Espirito Santo.
Toda a praça, o caminho e o coração do povo foi sendo iluminado, aquecido e no clarão da fé e da esperança os romeiros e romeiras seguiram em caminhada rumo ao Santuário dos Mártires.

Caminhada Martirial

No caminho para o santuário, na beira da estrada sete cruzes de bambu, enfeitadas com fitas de cetim coloridas e flâmulas com as palavras: Indígenas, Negros, Mulheres, Trabalho, Migrantes, Juventude, Ecologia Integral, marcavam os lugares onde, os romeiros e romeiras selariam os compromissos com as causas da vida e dos povos.
Na primeira cruz, recordamos os Profetas e Profetizas das Causas Indígenas. Uma indígena Guarani-Kaiowá deu o seu testemunho e denunciou o massacre sistemático que seu povo vem sofrendo.... um grito de socorro ecoa nesta noite martirial. Se fez a oração da Causa Indígena e seguimos cantando: Marçal paixão de Cristo, corpo encarnado em Guarani... Durante a caminhada foram proclamados nomes dos mártires das causas Indígenas e proferidas palavras de ordem, gritos de denúncia, anúncio e esperança.
Na segunda cruz, recordamos os Profetas e Profetizas da Causa Negra. Uma mulher negra falou sobre as lutas e conquistas dos negros e negras num mundo preconceituoso e racista. Foi rezada a oração da Causa Negra e seguimos cantando, entremeando os cantos com palavras de ordem e com a proclamação dos nomes dos mártires relacionados com as causas do povo negro e pessoas que defenderam estas mesmas causas: Zumbi dos Palmares, Dandara, Anastácia, Martin Luther King, Nelson Mandela, Dom José Maria Pires, Benedita da Silva, Chica da Silva, Edina Lima.
Na terceira cruz, recordamos as Mulheres como profetizas do Reino. Uma mulher falou em nome de todas as mulheres guerreiras, fez-se uma oração da Causa da Mulher e seguimos cantando a Canção de Margarida, dizendo palavras de ordem e proclamando o nome de mulheres martirizadas e que assumiram as causas das mulheres.
Diante da quarta cruz, recordamos os Profetas e Profetizas das Causas do Trabalho. Foi lembrada a luta do povo operário, a falta de emprego, a precarização da mão de obra e o trabalho escravo. Seguimos cantando: Operário de sonho-criança, operário da terra e oficina... Na caminhada proclamamos os nomes dos mártires relacionados com as causas do trabalho: Santo Dias, Frei Tito, Gervásio Santana, Franz de Castro, Vladimir Herzog, Frank Pais, Marcos Túlio, Artur Bernal, Juan Alsina. E dizíamos palavras de ordem.
Na quinta cruz, recordamos os Profetas e Profetizas das Causas dos Migrantes – Refugiados da fome e da guerra. Nos foi testemunhado os dramas e dilemas de homens, mulheres e crianças que saem em busca de uma vida melhor. Rezamos a oração dos Direitos Humanos, e seguimos em caminhada cantando: Pelos caminhos da América, há tanta dor, tanto pranto, nuvens, mistérios e encantos que envolvem nosso caminhar e durante a caminhada foram proclamadas palavras de ordem: Sem guerras e sem armas, sem impérios e sem ditaduras; Um mundo só, o mundo da família humana; Na partilha, na solidariedade, na comunhão.
Na sexta cruz recordamos os Profetas e Profetizas das Causas das Crianças e Juventudes. Uma jovem que nasceu na região, falou sobre a  importância de assumir assim como seus pais as causas da vida, as causas das juventudes, as causas do povo. Foi rezada a oração do Menor, e seguimos caminhando e cantando: Dorme Joilson, brinca de paz, no céu, Deus é criança, vai festar. Se teu martírio continuar Deus-criança por teus olhos vai chorar. Recordamos durante a caminhada os nomes dos mártires relacionados com as causas das crianças e juventudes: Gabriel Maire, Alexandre Vannucchi Leme, Vilmar de Castro, Pe. Henrique, Joilson, Nestor Paz Zamora, Nevardo Fernandez, Luz Stella, José Antônio, Pedro Abizu, Gisley, Lourival, Walderes, Raimundo, e proclamávamos palavras de ordem.
Diante da sétima cruz, recordamos os Profetas e Profetizas da Ecologia Integral, nos foi lembrada a luta pela preservação e cuidado com o meio ambiente, com a terra, a água. Foi rezada a oração da Terra, e seguimos cantando: Peregrino nas estradas de um mundo desigual, espoliado pelo lucro e ambição do capital, do poder do latifúndio enxotado e sem lugar. Na caminhada foram proclamados nomes dos mártires da ecologia: Chico Mendes, Dorothy, Berta Cáceres, Eugenio Lira, Ezequiel, Padre Josimo, Margarida Alves, Oscar Fallas, Jaime, David, Maria Del Mar, Tião da Paz, Nativo da Natividade, Luz Estela, Nevardo.


Chegando no Santuário, ao rufar dos tambores, ao toque dos instrumentos, todas e todos com Zé Vicente cantamos o canto dos Mártires da terra: Venham todos, cantemos um canto que nasce da terra, canto novo de paz e esperança, em tempos de guerra. Logo em seguida, jovens da comunidade apresentaram a vida e a morte do Padre João Bosco Burnier em forma de teatro. As matriarcas entram com cestos de bolos de arroz, mandioca e fubá, que foram abençoados e partilhados com todos e todas. A noite martirial continuou com os artistas da caminhada: Zé Vicente, Raquel Passos, Benone Jardim, Antônio Baiano, que com seus cantos e encantos alegraram os romeiros e romeiras do Reino. Também nesta noite de festa foi feito o lançamento do CD Irmandade dos Mártires, com músicas compostas para ajudar a bem celebrar a memória e o compromisso dos nossos mártires.
  
Celebração da Ceia do Senhor Jesus

Manhã do dia 17 de julho, ainda de madrugada, romeiros e romeiras vão chegando na praça São João Batista. O cheiro do café, o canto dos pássaros, o balé das araras, os raios do sol, anunciam o dia do Senhor, o dia da nossa Páscoa semanal, a páscoa dos mártires da caminhada, dia do nosso encontro com o crucificado-ressuscitado. Numa explosão de alegria os romeiros e romeiras, sonhadores e sonhadoras do povo começam a dançar cirandas, corpos se encontram, vozes ecoam no amanhecer deste novo dia.
Está alegria da manhã continua na ida e na chegada dos romeiros e romeiras à Praça do Santuário, lugar sagrado, pascal, espaço vivo habitado pela assembleia de profetas e profetizas da Esperança. Com cantos e entrega dos lenços, preparado pelas mãos de muitas mulheres da comunidade, todas e todos são acolhidos. O refrão, Vidas pela vida, vidas pelo Reino era entoado e aos poucos os corações foram se apaziguando, um grande silêncio orante e amoroso tomou conta da praça, daquela assembleia. As juventudes acendem o círio, um grupo de meninas entra dançando e incensando todo o espaço da celebração que foi preparado com muita beleza e simplicidade e perfeita harmonia.

A procissão de entrada conta com 40 mulheres trazendo cuias com água, parentes dos mártires e os bispos presentes na romaria: Dom Sebastião Gameleira, bispo anglicano; Dom Leonardo, secretário da CNBB; Dom Roque, arcebispo de Porto Velho, Rondônia, presidente do CIMI; Dom Eugênio, bispo de Goiás; Dom Vilar, bispo de Cáceres; Dom Adriano, atual bispo da Prelazia e o bispo Pedro Casaldáliga, que ficou no meio da assembleia, sentado em sua cadeira de rodas. Ele se fez romeiro entre os romeiros e romeiras. O canto de abertura dizia: Aqui estão os profetas que nestes tempos nos deram as esperanças e forças para andar. Eles nos deram a prova daquele amor verdadeiro, que não somente dá tudo, mas se dá! Luta de amor, estas vidas! Morte de amor, estas mortes! Neles florescem os sonhos do amanhã!
Aqui estão os profetas, bem vindos! Bem vindas! Páscoa de Jesus, páscoa dos profetas e das profetizas do Reino, páscoa dos Mártires, páscoa dos 40 anos do Martírio do padre João Bosco Penido Burnier, do padre Rodolfo Lunkenbein e do Índio Simão Bororo, páscoa do nosso país, neste momento temeroso e tenebroso da nossa história.    
Após a saudação da presidência e bênção da água, a assembleia foi aspergida pelas mulheres na força do Espírito que faz novas todas as coisas. E todos e todas foram banhados/as na água que nos faz passar da escravidão à liberdade e à esperança de um outro mundo possível, do Bem Viver, bem Conviver, profetas do Reino hoje e em todo tempo.


          Com grande vibração e alegria a assembleia entoa o Glória a Deus nas alturas é o canto das criaturas.... Somos os teus preferidos, é o nosso Pai tão querido! Concluímos os ritos iniciais rezando ao Pai: Deus da vida e de toda a família humana que caminha na vossa presença. Fazendo memória dos mártires da caminhada, celebramos a Páscoa do vosso Filho Jesus, a Testemunha Fiel. Nós vos bendizemos pelo amor que venceu o medo, a tortura e a morte, e vos pedimos que nos torneis filhas e filhos da mesma Graça, profetas, testemunhas e herdeiros do sangue derramado, fiéis ao Evangelho do Reino.
Com toques de instrumentos musicais, danças e canto o livro Palavra foi entronizado no meio da assembleia, a Palavra do profeta Jeremias foi proclamada: “Não tenhas medo... eu estou contigo... ponho as minhas palavras na tua boca”  E na voz e na força da profecia de uma mulher o Evangelho das bem-aventuranças foi cantado, sinalizando uma Igreja Povo de Deus, toda ministerial, profética e libertadora. Após um silêncio para acolher a boa notícia nas nossas vidas, a palavra foi partilhada com os vários bispos, destacamos aqui a fala do bispo Dom Sebastião: “Apenas duas palavras.
A romaria nos confirma no ensinamento do Apóstolo Paulo aos Romanos 12,1-2: `Ofereçam o corpo de vocês como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, este é o sacrifício coerente da parte de vocês. E não se deixem moldar pelas estruturas do sistema deste mundo, mas transformem-se pela renovação profunda de sentimentos e pensamentos a fim de poder discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito’. Nosso culto é a oferta quotidiana de nossos corpos, isto é, de nossas relações e tarefas quotidianas. A Romaria é expressão de nossas opções e ações em solidariedade
com a luta de nossa gente.
Aqui, nesta celebração da santa eucaristia, confirmamos e aprendemos que ´adoração a Deus se dá em espírito e verdade´, pela participação na luta do povo. Vamos repetir em conjunto: ´adoração a Deus se dá em espirito e verdade, pela participação na luta do povo´. Fora disso qualquer culto não passa de idolatria. Pois a vida do povo pobre e a causa de sua libertação têm de estar no coração, no centro da Igreja de Jesus. A segunda palavra: aqui temos a graça de experimentar, no gesto vivo de caminhar em unidade, carregando a memória de nossos mártires, nós que viemos de tantos diferentes lugares e somos gente tão diversa e ecumênica, aqui contemplamos no hoje da romaria a Igreja do amanhã. Vamos repetir em conjunto: `Contemplamos no hoje da romaria a Igreja do amanhã`. Igreja comprometida com as causas do povo, testemunha do Evangelho, militante, ecumênica e plural. Todos e todas somos membros desta Igreja de São Félix do Araguaia”.
Com a ladainha dos nossos mártires unindo-nos ao Cristo, o mártir Jesus, suplicamos ao Pai a vinda do Reino.
  A mesa da Ceia foi preparada com pão e vinho para todos e todas. Enquanto a assembleia comungava do corpo e sangue do mártir Jesus, cantávamos: Olhar ressuscitado, todo o teu corpo, acompanhando a marcha lenta do povo... Guerrilheiro do Reino, maior guerrilha. Tua cruz empunhamos em prol da vida. Nossos mortos retornam, com nossos passos, em Teu Corpo vivente, ressuscitados. Em Ti, cabeça nossa, libertador, libertos, libertando, erguemo-nos... Viva a Esperanca!!!! Alimentados com o pão da vida, o vinho-sangue da alegria, silenciamos. Comungamos com as Causas do Reino, com as vidas dadas pelo Reino da Vida e reafirmamos como profetas e profetizas do Reino nossos compromissos:
                   - Acompanhar as CEBs na sua caminhada do dia a dia;
                   - Cultivar o cuidado e o respeito às diversidades de gênero, crença e etnia;
                   - Respaldar particularmente os direitos dos povos originários;
                   - Cuidar da Casa Comum, da “Ecologia integral”;
                   - Participar dos movimentos populares dando a nossa contribuição específica;
                   - Acompanhar as vidas e as lutas das juventudes;
- Envolver-se na Campanha da Reforma política, acompanhar e fiscalizar a vida política nos nossos municípios;
                   - Fazer das Romarias dos Mártires uma graça e uma missão.
         O povo Xavante com seus corpos enfeitados para festa, num gesto de louvor, profecia e grito na defesa das suas terras dançaram a dança da Esperança, a dança da resistência. E as juventudes de quase todos os cantos do país com as bandeiras da paz, da utopia e profecia entram dançando e cantando: É bonita de mais, É bonita demais. A mão de quem conduz a bandeira da Paz!
Fomos enviados para continuar a Romaria dos Mártires, no cotidiano de nossas vidas, nos vários cantos do Brasil, nas lutas e na solidariedade. A imagem de Nossa Senhora Aparecida, a mãe do mártir Jesus foi entregue para as Juventudes da nossa Prelazia para seguir em missão: “Mãe Aparecida, o profeta João, terra da esperança, povo em mutirão, Igreja dos pobres em Libertação.       
   A festa continua na Praça São João Batista com o almoço comunitário, fruto da partilha e do serviço da equipe da cozinha, mulheres e homens que durante todos os esses dias se dedicaram a preparar as refeições com encanto, alegria, temperos, cheiros e generosidade. Após esse momento de muita alegria é hora de voltar para o chão sagrado das nossas vidas. Abraços, despedidas, cantos, pactos e com o coração aquecido, reanimados e reanimadas na Esperança Pascal seguimos na Romaria da vida.


                                                                                                                         Mirim e Tonny
Fotos: Creusa Salete