sexta-feira, 30 de junho de 2017

Galeria dos Mártires - Pe. Hermógenes Lópes Coarchita

Pe. HERMÓGENES LÓPES COARCHITA
Mártir do Povo
GUATEMALA * 30/06/1978

Hermógenes Lópes Coarchita, sacerdote guatemalteco, pároco em São José Pinula e fundador da Ação Católica Rural. Tinha 50 anos e há doze anos pároco local. Assassinado quando regressava de uma visita a um doente. Por conta das diversas ameaças de morte, viajava sempre sozinho para não sacrificar a outros. 

Estava sozinho quando três homens com pistola 45 e armas de grosso calibre o matou à queima-roupa. Seu corpo metralhado caiu sobre a Bíblia, dentro da pick-up em que viajava. Os moradores encontraram seu corpo perfurado de balas na estrada. Tomados de dor e indignação levaram o corpo ensanguentado e o colocaram sobre o altar, no qual tantas vezes ele compartilhou com o povo, o pão e a palavra.

As causas de sua morte são muito clara: Hermógenes denunciou a forma brutal de recrutar jovens para o serviço militar dizendo: "Respeitem a dignidade dos jovens camponeses e não os maltratem nem os levem forçados para preencher os números dos quartéis".

Opôs-se ao projeto da grande empresa AGUAS S.A. que deixaria sem água os camponeses, e a eles disse: "Não é lícito que vocês levem a água dos camponeses para vendê-la na capital"; protestou pelo alto custo do leite; denunciou a "campanha de vacinação", que não era senão uma campanha de esterilização das mulheres, e disse às autoridade do país: "A esterilização em massa é um desrespeito à dignidade e aos direitos das pessoas".

Todas as suas denúncias nada tinham de arrogância. Falava em nome do Evangelho, com profunda humildade, sem interesse próprio, falava como amigo dos pobres.

Apesar das constantes ameaças de morte, Hermógenes afirmou: "Se minha missão é dar a vida, assim farei. Mas nunca deixarei de lutar pelas causas que defendo". Em meio ao clima de violência vivido na Guatemala, dissera apenas cinco dias antes de morrer: "Se for necessário o sangue de um de nós para que haja paz, estou disposto a derramar o meu".

Em seu funeral estiveram presente 4.000 camponeses vindos de até 350km de distância. Muitos camponeses ficaram fora, sob a chuva durante as duas horas que durou a celebração presidida por diversos bispos e 50 sacerdotes. "O Padre Hermógenes foi um profeta. Morreu como morrem os profetas: assassinado... Ele clamou como João Batista: Não te é lícito... E por isso o mataram", disse um companheiro sacerdote. E um camponês afirmou: "Sentimos no coração o desaparecimento de nosso pastor... Ele estava conosco para solucionar os problemas do povo".

O Padre Mário Matamoros, reitor do seminário da Guatemala, visitou o Pe. Hermógenes no domingo antes de seu assassinato. Nessa oportunidade haviam conversado muito. Padre Mario dá este testemunho: "Hermógenes era um sacerdote simples e calmo. Quando denunciava algo é porque ele acreditava que o Evangelho não deixava outra alternativa. Disse-me que estava preparado para o que desse e viesse".

Pe. Hermógenes dedicou seus vinte e cinco anos de sacerdócio em defesa dos mais pobres.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de leitura dos livros: Sangue Pelo Povo e Martírio, memória perigosa na América Latina hoje.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Galeria dos Mártires - Os Mártires de Olancho

OS MÁRTIRES DE OLANCHO
Mártires da Solidariedade
HONDURAS * 25/06/1975

42 anos da memória martirial de Ivan Betancur, Michael Jerome Cypher, “Casimiro”, e Companheiros.

Ivan Betancur era colombiano, de 35 anos, e Michael “Casimiro”, franciscano norte-americano de 34 anos, ambos sacerdotes da Prelazia de Olancho, em Honduras. No dia 25 de junho de 1975 foram assassinados com outros sete camponeses e pessoas vinculadas à promoção do campesinato.

O massacre, preparado em todos os seus detalhes, foi executado por um fazendeiro e membros do exército que, pela manhã desse mesmo dia, haviam suspendido a “Marcha da Fome” e reprimido brutalmente seus responsáveis.

O testemunho de Ivan e de “Casimiro” e o trabalho de conscientização que se realizava através do Instituto “18 de Fevereiro” e da União Nacional dos Camponeses, era insuportável para os latifundiários que pretendiam manter terras e privilégios à custa da fome e da miséria dos camponeses.

As vítimas foram levadas à fazenda “Los Horcones” e aí assassinadas uma por uma, com disparos na cabeça e seus corpos enterrados a 29 metros de profundidade.

Os que conheceram a Ivan recordam-no como pessoa incansável e alegre em seu trabalho pastoral, homem de muita fé e oração, capaz de dar a vida em sua luta pela justiça. Michael “Casimiro” era um verdadeiro testemunho de pobreza e de entrega total à causa do povo, por quem ele morreu.

Seus companheiros mártires são: Juan Benito Montoya, camponês; Ruth Garcia, estudante; Lincoln Coleman, secretário da União Nacional dos Camponeses; Maria Elena Bolívar, cunhada de Ivan; Roque Ramón Andrade, das Escolas Radiofónicas; Oscar Ovidio Ortiz, camponês; Bernardo Rivera, assessor técnico.

Ivan Betancur
Michael Jerome Chrisper

                    Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de leitura do livro: Sangue Pelo Povo.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Galeria dos Mártires - Pe. Arturo Mackinnon

Pe. ARTURO MACKINNON
Mártir da Justiça
REPUBLICA DOMINICANA * 22/06/1965

Pe. Arturo Mackinnon pertencia à Sociedade Missionária dos Padres da Missão Estrangeira Scarboro, Canadá. Seu trabalho sacerdotal na República Dominicana começou em 06 de outubro de 1960, em Azua (1960-1961) em San José de Ocoa (1962-1964) e janeiro 1965 foi enviado para o Município de Monte Plata, onde ele foi violentamente assassinado aos 33 anos em 22 de junho de 1965, depois de protestar contra a detenção arbitrária de 37 pessoas.

Dispararam contra ele uma rajada de metralhadora à queima-roupa e em seguida vários tiros de pistola.

O exercito deu uma versão de que o sacerdote morrera junto a dois membros do exército. Vizinhos do lugar, que viram os movimentos e escutaram os disparos, bem como o superior religioso de Arturo, puderam reconstruir a execução sumária no meio do caminho, deste sacerdote muito querido, de espírito generoso e enorme senso de justiça.

Pe. Arturo era grande amigo da juventude e dos pobres. Tinha profundo anseio de justiça social e de respeito à pessoa humana. Mais de uma vez protestou energicamente, tanto em particular, como em público, contra as injustificadas arbitrariedades de certos militares contra o povo indefeso. Era um homem corajoso que sabia tomar posições em favor do povo. Foi acusado de ‘comunista’ e de ‘defensor de rebeldes’.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Pe. Leo Commissari

Pe. LEO COMMISSARI
Mártir das Lideranças de São Bernardo do Campo-SP
S. BERNARDO DO CAMPO-SP * 21/06/1998

Padre Leo Commissari nasceu em Bubano - Itália, em 19 de abril de 1942. Descendente de família religiosa viveu a infância numa situação de pobreza devido a Guerra e o Pós-Guerra. Ordenou-se sacerdote em 1976. Tendo como exemplo o irmão missionário na China Filippo Commissari, chegou ao Brasil em 1970 em Itapetinga - Bahia, onde viveu 7 anos. Voltando à Itália quis envolver o Bispo num projeto de missão diocesana para padres, irmãs e leigos. O sonho se realizou em 1980 quando os Bispos de Ímola e Santo André decidiram um intercâmbio de padres e irmãs "Projeto Igrejas Irmãs". Desde o começo o grupo então formado de 3 padres e 5 irmãs de diferentes congregações da Diocese de Ìmola, escolheram trabalhar na periferia de São Bernardo do Campo.

Enfrentou a resistência da ditadura militar para entrar no País, por causa da forte presença da igreja católica em movimentos grevista no ABCD. Em São Bernardo, se alojou na favela do Oleoduto, na Vila São Pedro, para sentir na pele o sofrimento do povo. Foi ali onde iniciou um trabalho junto à comunidade carente, lutando a vida toda para resgatar os pobres do esquecimento em que a sociedade os deixa.

Construiu uma creche comunitária, orientou ocupações de terra e idealizou um centro de formação profissional que, depois de sua morte, foi a ele dedicado, passando a se chamar Centro de Formação Profissional Padre Leo Commissari.

Era fim de quermesse, 21 de junho de 1998, quando o padre Leo Commissari pegou seu carro e partiu em direção a rua do Oleoduto, em São Bernardo. Na direção contrária da estreita via, um outro veículo o obrigou a parar. Dele saíram um homem e uma mulher armados.

Padre Leo teve tempo de reconhecer o rosto que se aproximava de seu carro e perguntar “Por que irá me matar, Joãozinho?”. O primeiro dos três disparos contra o missionário acabaria com sua trajetória de luta social na periferia de São Bernardo que já durava dez anos.

A descrição da cena do crime foi dada por seu parceiro, também missionário italiano, padre Sante Collina, 69 anos. Quatro anos depois da morte do amigo, padre Sante foi à penitenciária em que o assassino cumpria a pena de 21 anos e repetiu a pergunta“Joãzinho, por que matou padre Léo?”. A resposta foi um silêncio amargo e de cabeça baixa.

“Sabíamos que incomodávamos muita gente grande com nosso trabalho. Éramos muito queridos até por pessoas que tinham envolvimento com tráfico”, contou padre Sante. O missionário lembra que o assassino era vizinho da creche comunitária, onde tinha um ponto de venda drogas.“Atrapalhávamos o negócio dele. Padre Leo não chegou nem a reagir.”

A morte do missionário foi um grande choque para a população que acompanhava seu trabalho, e para a alta cúpula de bispos católicos da Itália.

Abaixo algumas frase do Pe. Leo Commissari:

“O amor a Cristo nos irmão é um amor capaz de ir até as últimas consequências, é um amor capaz de ir até a morte.”

“… estou convencido de que o Senhor nos chama, ainda antes do nascimento e, aos poucos, Ele nos manifesta e nos diz aquilo que quer de nós. Quando nos damos conta de que Ele nos chama a uma consagração plena definitiva, isto constitui apenas o começo de um caminho que devemos perceber dentro da normalidade da vida, vivida na Igreja”.

“… a essência da vida religiosa não está no fato de viver aqui ou em outro lugar, em casa ou no convento, fazer umas coisas ou outras, mas viver tudo por causa de Cristo, como resposta ao Seu amor por nós. E realmente faz-se necessário que haja pessoas que pensem e vivam desta maneira”.
           
“Encontrar Cristo e dedicar a vida a Ele é maravilhoso e extremamente fecundo e fonte de uma alegria que o mundo não conhece; e isto é necessário, no mundo há um desejo enorme disto! Faz-se necessário que o nosso amor a Cristo seja autêntico, no seguimento fiel e disponível a Ele, a fim de que Sua Presença seja visível a todos, como salvação e libertação”.

“A questão do amor e a questão da vocação estão estreitamente ligadas, e esta ligação é misteriosa. Esta ligação é o amor de Deus e o amor de Deus pelo homem. Este amor certamente iluminará o significado da sua vocação, dentro do tempo. É preciso ter paciência, basta esperar um pouco. Alguém ou alguma coisa o iluminará”.     
        
“Todavia sempre permanecerá o mistério e a decisão será sempre sua. Porém, com o tempo, chegará a você esta luz, que o fará compreender o suficiente e escolher com consciência e serenidade… O importante é não perder tempo, viver amando”.

“… sinto-me como uma pessoa que busca uma definição de si mesmo, uma verdadeira expressão, ou talvez mais verdadeira do que vocação fundamental que me atraiu, desde quando era adolescente”.  
   
“Jesus não disse que se deve estudar um código de leis ou de sabedoria, não pediu um aprofundamento da cultura teológica das pessoas, mas orientou para a fé. Um ato muito simples, “Eu confio em você, leve-me para onde quiser”.              

“A nós é pedido que sejamos fiéis até o fim, ao Evangelho, para que estejamos, ao mesmo tempo, ligados a Deus e ao seu povo. Estamos contentes. Não nos faltam a saúde e a alegria. Moramos na favela, mas a nossa barraca é limpa e até confortável na sua essencial pobreza. O trabalho é muito, mas não nos deixamos dominar pelas coisas a fazer. Sempre nos reunimos de manhã cedo para rezar e meditar a palavra de Deus”.

https://www.youtube.com/watch?v=F8vsg4EaH10

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Sergio Ortiz

SERGIO ORTIZ
Mártir da perseguição à Igreja na Guatemala
GUATEMALA * 21/06/1984

Sergio Ortiz, seminarista, foi sequestrado nos arredores da Universidade Nacional de San Carlos na Cidade da Guatemala. Foi encontrado morto dois dias depois. Seu corpo tinha sinais de torturas e um tiro de misericórdia.

O assassinato de Sergio é considerado como uma repressão oficial feita contra a Igreja Católica, por causa da atitude de denúncia que esta assume diante da situação econômica, social e política da Guatemala. 

“Há grupos poderosos interessados ​​em que os pobres não se despertem e nem que exijam seus direitos ... O fato de que algum padre se coloca a promover o camponês, a despertá-lo, a dizer de sua condição humana e sua dignidade, pode ser mal interpretado por aqueles que não querem que os guatemaltecos despertem para os seus  direitos, e que exijam seus direitos como pessoa. A pregação da Igreja não é uma mensagem abstrata para seres abstratos, mas sim uma mensagem eficaz para seres muito concreto, que têm problemas com que a marginalização, desemprego e violência”, disse o Arcebispo de Guatemala, Prospero Penados del Barrio, em 14 de julho de 1984.

Sergio representa esta Igreja particular, que desperta os irmãos oprimidos e que diz com firmeza sobre os direitos que lhes é de direito.

É mais um mártir da justiça na Guatemala.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de pesquisa na internet no servicios koinonia.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Galeria dos Mártires - Pe. Rafael Palacios

Pe. RAFAEL PALACIOS
Mártir das CEB’s
EL SALVADOR * 20/06/1979

Rafael Palacios nasceu em San Luis Taipa, em 16 de outubro de 1938, sendo ordenado sacerdote diocesano no dia 26 de maio de 1963.

Após o assassinato do Pe. Octavio Ortiz e quatros leigos em 20 de janeiro de 1979, Pe. Rafael foi substituí-lo na Paróquia San Francisco Mexicanos, de San Salvador. Nesta comunidade esteve totalmente dedicado ao trabalho dos setores operários, especialmente dos bairros de Santa Tecla e de Santa Luiza. Seu principal serviço pastoral era a formação de Comunidades Eclesiais de Base. Nisso reside também à causa de sua morte.

No dia 20 de junho de 1979, se dirigia a uma reunião das Comunidades Eclesiais de Base, (CEB’s), na Igreja El Calvario, foi assassinado em plena rua, crivado de balas pela ultra-direita, aos 41 anos.

Assim relatou um amigo seu: “Desde que o conheci, o escutei dizer que um sacerdote não tem razão de ser, senão no seio de uma comunidade. Que o essencial da mensagem de Jesus foi convidar a humanidade dividida a lutar contra o que mantém as pessoas dispersas e desorientadas, isto é, o pecado. Jesus nos propõe seu plano e nos convida a segui-lo, não de qualquer modo, ...”.

“Todo o ideal do Pe. Rafael, sua vocação sacerdotal, sua inteligência, suas forças, colocou-as a serviço dos demais. Podíamos vê-lo sempre pelas ruas dos lugares onde havia trabalhado, tratando de convidar a todos para formar uma CEB’s. Este foi seu ideal e o conseguiu. Dizia que nessa comunhão íamos descobrindo o Reino. Sofreu muitas incompreensões e foi considerado uma pessoas perigosa, pelo simples fato de oferecer formação ao povo”.

Dom Romero, na homilia assim se referiu ao Pe. Rafael: “Posso dizer com as comunidades de base que tão bem o conhecera que ele estava longe de provocar qualquer violência, ou de semear ódio... Ele pregava o amor, era um homem de profunda meditação, que sempre acreditou mais na força do amor do que na violência, cujo ideal era o de criar comunidades de base inspiradas no amor de Jesus Cristo... Seria triste em um país onde o assassinato é cometido tão horrivelmente contra o povo, não encontrássemos também sacerdotes entre as vítimas. Eles são testemunhas de uma Igreja encarnada nos problemas de seu povo”.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Galeria dos Mártires - Frei Cosme Spessoto

Frei COSME SPESSOTO
Mártir da Caridade
EL SALVADOR * 14/06/1980

Frei Cosme Spessoto, italiano, sacerdote franciscano de 57 anos. “O vinhateiro de San Juan Nonualco”, como era chamado por sua obstinação em tratar de cultivar a vinha do Senhor e de conseguir esse intento.

Pároco durante 27 anos e vigário episcopal da diocese de San Vicente, foi assassinado por quatro indivíduos bem armados que entraram na igreja e dispararam contra ele enquanto rezava.

Mártir da caridade, desenvolveu durante sua vida uma incansável atividade missionária. Sua intenção foi ser “instrumento de paz” entre seus paroquianos por fim a violência.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir do livro Sangue Pelo Povo.

Galeria dos Mártires - Pe. Mauricio Silva

Pe. MAURICIO SILVA
Mártir dos Pobres
ARGENTINA * 14/06/1977

Mauricio Silva, Membro da Fraternidade de Irmãozinhos do Evangelho e gari das ruas de Buenos Aires. Sequestrado quando se apresentava para trabalhar como todos os dias.

Depois, a casa da comunidade foi invadida pelo exército à procura de “provas subversivas” e sua ficha de empregado municipal, retirada.

Mauricio nasceu em Montevidéu e foi ordenado sacerdote salesiano em 1951. A partir daí trabalhou como missionário na Patagônia argentina. De volta a Montevidéu desempenhou intensa atividade pastoral.

Aos 45 anos sentiu-se fortemente atraído pela espiritualidade de Foucauld e ingressou na Fraternidade de Buenos Aires. Depois do noviciado trabalhou entre os “cirujas”* nas lixeiras de Rosário. Volta a Buenos Aires para prestar testemunho entre os varredores de ruas. Quando um de seus antigos amigos o descobre, Maurício saúda, sorri e continua silencioso, atrás de sua vassoura, tornando realidade o que escrevera em um de seus poemas: “Quando amar é um sulco humilde e obscuro que reclama o grão para ser fecundo e morrer na solidão, eu sei que tu estás, Senhor”.

Onde está agora Mauricio carregando o seu Senhor? “Esta pessoa não existe na Argentina”, respondem as autoridades invariavelmente, apesar dos pedidos internacionais e até do próprio Papa Paulo VI.

* Cirujas: pessoas miseráveis que procuram entre o lixo alimentos, roupas e objetos diversos.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir do livro Sangue Pelo Povo.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Galeria dos Mártires - Novo Massacre de Sumpul

NOVO MASSACRE DE SUMPUL
Mártires da Resistência
EL SALVADOR * 12/06/1982

Novo massacre de Sumpul, mais de 300 agricultores, a maioria mulheres, crianças e idosos, foram assassinados ao tentar chegar à fronteira de Honduras. Depois dos combates com a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, FMLN, tropas especializadas de El Salvador e Honduras, com assessores norte-americanos, ataque durante 15 dias a população civil de Cabañas e Chalatenango.

Em 29 de maio, mais de 700 camponeses indefesos de Los Amates e Santa Anita começou um desesperado êxodo em massa, em direção à fronteira. Eles tentam se esconder nas colinas e vales, comendo ervas e raízes. Soldados os perseguiam, metralhando, matando de qualquer maneira aqueles que conseguem alcançar a fronteira. Chegaram no Rio Sumpul, exaustos, alguns feridos, aterrorizados, os agricultores tentaram atravessa-lo. As crianças e os idosos não puderam resistir à força da água e se afogar. Como em 1980, o Rio Sumpul novamente é manchado de sangue inocente.

Hondurenho que atinjam ao outro lado são resgatados por observadores internacionais, que enfrentam duramente aos oficiais e soldados. Eles conseguem levá-los para o campo de refugiados em Mesa Grande. 163 agricultores se encontravam exaustos, dilacerados pela dor. Como um casal que, depois de perder um filho, corre para se refugiar em uma casa; quando se aproximam da casa, ouvem gritos de mulheres e crianças que estão sendo queimados vivos dento dela. Ou a mãe que chega a Mesa Grande totalmente muda, pois perdeu seis filhos pequenos. Todos testemunharam cenas sangrentas, horríveis. Alguns morrem logo ao chegar ao outro lado do rio. Só tiveram tempo de pedir que resgatassem aos companheiros espalhados nas montanhas. Eles viveram e deram a vida por lutar pela paz.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir da página http://servicioskoinonia.org/martirologio/ 

Galeria dos Mártires - Joaquim das Neves Norte

JOAQUIM DAS NEVES NORTE
Mártir da Terra
NAVIRAÍ-MS *12/06/1981

Joaquim das Neves Norte, advogado, 40 anos, pai de 4 filhos, assessor do Sindicato Rurais de Naviraí-MS, colaborador da CPT-MS, assassinado a mando do fazendeiro Adolfo Sanches Neto, no dia 12 de junho de 1981.

Abaixo, poema do livro: Raízes, memória dos Mártires da Terra, de Jelson Oliveira.

Cumpro o apanágio das ausências
E o teu nome, das neves do norte
Chega impossível, improvável, inflamado.

Algo como um relatório inteiro de mortes,
Um esbulho, uma condenação, uma ilegalidade.

Não por existir, te condenam, mas por não desapareceres,
Por não conseguirem derrotar
Os sangues que ao teu sangue se juntam.
Pelas águas mal-dormidas que fazes correr
Rente aos leitos encurvados das noites do medo
Pelas palavras dos que acreditam nos sonhas
Que crescem no meio das sementes.
Esses que agora se juntam para dizer:

"Se vê, se sente, Joaquim está presente!"

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Galeria dos Mártires - Agustín Ramírez e Javier Sotelo

AGUSTÍN RAMÍREZ e JAVIER SOTELO
Mártires dos Marginalizados
ARGENTINA * 05/06/1988

Agustín Ramírez, 22 anos e Javier Sotelo, 19 anos. Trabalhadores mártires da luta dos marginalizados na Grande Buenos Aires, Argentina.

Eles viviam em um assentamento em San Francisco Solano, zona marginal da Grande Buenos Aires. Operários e militantes cristãos, preocupados com a situação social dos seus irmãos e especialmente os jovens. Assassinados na noite de 05 de junho de 1988. Seus corpos foram crivados com poucas, porém certeiras balas de 9 milímetros, que os fez caíram um ao lado do outro martirizados.

Um amigo que descobre o assassinato de Agustín e Javier é sequestrado, brutalmente torturado e jogado em um campo para que cesse com sua denúncia. A polícia afirma que o crime é devido a um acerto de contas entre gangues rivais. Em vez disso, vizinhos, amigos e familiares acusam a própria polícia como responsáveis ​​pelo assassinato. O novo chefe da polícia, inspetor Laborde, acabara de ser movido de Budge, onde policiais que estavam em sua responsabilidade mataram cruelmente três meninos, na rua e em frente de testemunhas. Quinze dias antes da morte de Agustín e Javier, uma comissão policial de seis homens armados, procuraram Agustían, interrogaram vizinhos e deixaram uma mensagem clara para ele: “Diga-lhe que suma, ou vai morrer”.

Qual é o crime de Agustín para receber tal ameaça? 

Sua mãe conta que, na adolescência, ele lia a Bíblia diariamente e queria ser um cristão, de fato. Sensível à dor dos mais fracos, trazia para casa pessoas carentes da rua: crianças, idosos, mães com crianças. Sua mãe lhe fazia ver que eles são tão pobres quanto os convidados. Em silêncio, Agustín, dava sua cama e dorme no chão. Aos 16 anos ele decidiu que queria ser um sacerdote e executou todos os procedimentos para a admissão ao Seminário. Admitido, disse à sua mãe: “Mãe, eu vou perder tempo com muitos anos de estudo para melhor trabalhar no bairro”.

Integrou a Comissão dos “sem-teto”; participou de uma manifestação em Villa Calzada, que foi violentamente reprimidos pela polícia e várias pessoas ficaram feridas. Agustín estava entre os que fizeram uma denuncia deste ato covarde dos policiais contra os manifestantes. E por esta denuncia é que se dá sua sentença de morte.

Também é conhecido por ser um membro entusiasta da Equipe Social, que publica a revista “Latinoamérica Gaucha”, da qual ele é diretor. Seu objetivo era informar sobre as tarefas do bairro, os benefícios da organização, orientar os jovens a evitar as drogas e convidá-los a se divertir saudavelmente em clubes e festivais que são feitas no bairro.

Na sua morte, um menino disse: “Eu creio que Agustín passou o mesmo que passou Jesus...”. Seis mil pessoas de Solano e outros bairros participaram da Missa por Agustín e Javier. Os trabalhadores, militantes cristãos, sacerdotes carregam sobre os seus ombros os caixões ao longo de seis quilômetros até o cemitério. Uma marcha pela vida, presidida pelo Bispo de Quilmes, Jorge Novak, repetindo os versos do hino de Luther King: “Não temos medo ... vamos vencer ... a paz virá”.


Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Pe. José María Gran Cirera e Domingo Barrio Batz

Pe.  JOSÉ MARÍA GRAN CIRERA e DOMINGO BARRIO BATZ
Mártires em El Quiché
GUATEMALA * 04/06/1980

Memória dos 37 anos do martírio

José María Gran Cirera, nascido em Canet de Mar, Barcelona, 27 de abril de 1945. Ele fez sua profissão religiosa no dia 8 de setembro de 1966. Foi ordenado sacerdote em Valladolid em 09 de junho de 1972; três anos depois, foi trabalhar como missionário na Diocese de Quiché, Guatemala.

Assassinado juntamente com Domingo Barrio Batz em 04 de junho de 1980, perto da aldeia Xe Ixoq Vitz em Chajul.

Seus cinco anos de serviço missionário no Quiché foram nas paróquias de Santa Cruz e San Gaspar Chajul Zacualpa. Sempre alegre e disposto a vivenciar com o povo o Deus vivo e presente na comunidade. Sendo um homem sensível e de coração inquieto, logo se identificou com o povo simples destas comunidades.

O trabalho pastoral o obrigava a fazer longas viagens missionárias para estar presente em cada uma das comunidades da paróquia. Ele descobria a presença de Deus em pessoas que sofria as muitas carências. Ficava cada vez mais claro o sentido da missão e seu compromisso evangélico com os pobres e perseguidos.

Domingo Batz
Ele era muito consciente da instabilidade política que estava por vir sobre o povo desassistido pelas políticas de desenvolvimento oficiais. Naquela época, ele escreveu: "Há mais soldados do que antes em Chajul, e por causa de certos rumores que correm entre as pessoas, nós preferimos não deixar a cidade por vários dias, pois, com tantos soldados nas ruas, as pessoas não estão tranquilas e a presença do padre, mesmo que pouco possa fazer, sempre dá um pouco de tranquilidade”.

Seu serviço pastoral foi feito especialmente nas comunidades mais remotas. Um fato ecoou fortemente em Quiché: o incêndio na Embaixada de Espanha, onde 39 pessoas foram mortas, a maioria eram camponeses, e alguns eram catequistas. Este fato chocou a população. E o então bispo, Dom Juan Gerardi, sacerdotes e religiosos corajosamente denunciou em um comunicado: "a situação de violência extrema, agravada pela ocupação militar do Norte...”.

Logo após o ocorrido, o comandante militar disse a população que o Pe. José María e os outros padres e freiras eram responsáveis pelo que eles estavam passando no norte de El Quiché e advertiu ao Pe. José María que ele era um estrangeiro e enfrentaria as consequências.

A partir de então começaram as ameaças diretas contra os sacerdotes e catequistas.

Dias depois o Pe. José María precisou seguir em viagem missionária até Chel, distante do povoado, e lá realizou celebrações e atendeu ao povo como acostumava a fazer. Neste povoado ele foi avisado do perigo que corria, porém, não desistiu de suas atividades pastorais e seguiu sua missão como de costume, atendendo as comunidade e os povos.

Ao retornar, em Visiquichún, aldeia para a qual ele teve que passar no meio do caminho, foi advertido novamente do perigo. E neste lugar Pe. José María disse várias coisas de grande importância: em primeiro lugar; sua decisão de voltar ao Chajul porque no dia seguinte deveria celebrar a solenidade de Corpus Christi; em seguida, ele tentou em vão dissuadir Domingo Barrio Batz que o acompanhou o resto do caminho, porque sua vida corria perigo e ele tinha uma esposa e filhos para cuidar; Domingo se recusou a deixá-lo ir sozinho; novamente advertidos por alguns comerciantes que elementos do exército os aguardados no caminho acima, padre José Maria e Domingo ajoelhou-se em oração. Dessa oração, ambos criaram forças para seguirem em frente. Logo depois os dois caíram mortos. Pe. José María com um tiro pelas costas, que lhe fez explodir o coração e Domingos com um tiro no pescoço que arrancou-lhe a cabeça. O exercito admitiu ser o autor das mortes, alegando um confronto com “guerrilheiros”. Padre José Maria tinha 36 anos.

Na ocasião do martírio o Bispo Juan Gerardi disse: “Não dê ouvidos às vozes que querem manchar este testemunho. Não deem ouvidos a aqueles que dizem que os padres deveriam ser mortos, porque eles são comunistas. Irmãos, não! Parte dessa perseguição religiosa é uma campanha de desprestigio e difamação que vêm sido vítima bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, destinadas a criar um clima de desconfiança do povo católico aos seus legítimos pastores. Para nós é especialmente significativo, dadas as circunstâncias da morte do Padre José María Gran Cirera, MSC, pastor da Chajul, um tiro nas costas, quando regressava a cavalo para levar o consolo da religião para muitos paroquianos em aldeias remotas de sua paróquia, acompanhado apenas de seu sacristão Domingo Batz, que igualmente foi morto".

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.