quarta-feira, 24 de maio de 2017

Galeria dos Mártires - José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva

JOSÉ CLÁUDIO RIBEIRO DA SILVA e MARIA DO ESPÍRITO SANTO DA SILVA
Mártires e Heróis da Floresta
NOVA IPIXUNA-PA * 24/05/2011

Memória dos 6 anos do Martírio.

O casal de lideres extrativistas José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva foi executado na manhã de 24 de Maio de 2011 na cidade de Nova Ipixuna, no sudeste do Pará, cidade a 390 quilômetros de Belém.

A suspeita de Organizações Não Governamentais (ONG’s) e da família é que eles tenham sidos executados por madeireiros da região. José Cláudio era considerado sucessor de Chico Mendes, em referência ao líder dos seringueiros do Acre que foi morto em 1988 por sua defesa da Amazônia.

O casal saiu do Projeto de Assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira, localizado a cerca de 50 quilômetros da sede do município de Nova Ipixuna, quando foi cercado em uma ponte por pistoleiros. Ali, eles foram executados a tiros.

José Claudio da Silva vinha recebendo ameaças de madeireiros da região desde 2008. Segundo informações do CNS, desconhecidos costumavam rondar a residência do casal disparando vários tiros para tentar intimidá-los. José Cláudio da Silva era um dos principais defensores da preservação das floresta amazônica após a morte de Chico Mendes e constantemente fazia denúncias sobre o avanço ilegal na área de de preservação onde trabalhava por madeireiros para extração de espécies como castanheira, angelim e jatobá.

Em 2010, durante evento que discutia a preservação da floresta amazônica, José Cláudio da Silva classificou como “assassinato” a derrubada de árvores da região e disse que “vivia com a bala na cabeça” por causa das constantes denúncias contra madeireiros. “Vivo da floresta, protejo ela de todo jeito. Por isso, eu vivo com a bala na cabeça a qualquer hora, porque eu vou pra cima, eu denuncio os madeireiros, eu denuncio os carvoeiros e por isso eles acham que eu não posso existir”, disse.

Ele ainda declarou. “A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes querem fazer comigo. A mesma coisa que fizeram com a Irmã Dorothy querem fazer comigo. Eu estou aqui conversando com vocês, daqui um mês vocês podem saber a notícia que eu desapareci. Me perguntam: tem medo? Tenho, sou ser humano, mas o meu medo não me cala. Enquanto eu tiver força pra andar eu estarei denunciando aquele que prejudica a floresta”, afirmou.

"Queremos um mundo em que o ser humano aprecie a natureza, viva cercado por ela e admire a castanheira, viva, na floresta, não como uma bela tábua em sua casa"

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Galeria dos Mártires - Irmã Irene Mc'Cormack, rsj e Companheiros

IRMÃ IRENE MC'CORMACK e Companheiros
Mártires pela causa da Paz
PERU * 21/05/1991

Memória dos 26 anos do Martírio

Irene Mc'Cormack afirmava ser uma menina vibrante, determinada e divertida. Foi educada pelas Irmãs de São José, em um colégio interno, em Santa Maria College, em Attadale Austrália Ocidental, onde ela disse ter desenvolvido seus dois grandes amores: servir a Deus e educar os jovens. Com a idade de 15, decidiu que queria ser freira. Ela se juntou às Irmãs de São José do Sagrado Coração em 1956 e passou alguns anos ensinando em áreas rurais da Austrália Ocidental

Após 30 anos de ensino em escolas australianas irmã Irene tomou a decisão de que queria servir os mais pobres e marginalizados, e seguiu em missão para o Peru em 1987 para uma obra missionária. O primeiro trabalho de Irene foi em El Pacifico, um subúrbio de baixa renda, em San Juan de Miraflores, Lima e Santa de Perola no Distrito de San Martín de Porres. Em 26 de junho de 1989, Irene continuou seu serviço missionário em Huasahuasi, na Cordilheira dos Andes a cerca de 200 km de Lima, junto com sua companheira, a irmã Dorothy Stevenson, assumindo a supervisão e distribuição de bens de emergência da Caritas Peru.

Irene organizou bibliotecas para as crianças pobres, que não tinham chance de obter livros para auxiliar na sua lição de casa. Ela também treinou ministros extraordinários da Sagrada Comunhão, e incentivava que fizessem visitas aos paroquianos em bairros periféricos.

Em 17 de dezembro de 1989, os sacerdotes de Huasahuasi foram avisados ​​de que eles estavam correndo perigo, sendo ameaçados pelo grupo guerrilheiro de Sendero Luminoso, e que eles e as duas irmãs deixassem a aldeia, que fossem para Lima. Irene, no entanto, sentiu que a igreja não podia abandonar os moradores naquele momento e voltou para a região em 14 de janeiro de 1990. Durante esse tempo, sem sacerdote residente, as irmãs Irene e Dorothy Stevenson continuaram servindo ao povo, na vida espiritual, com os serviços litúrgicos e catequéticos bem como na educação e alimentação.

Na noite de 21 de maio de 1991, um grupo de guerrilheiros de Sendero Luminoso entraram na aldeia, ameaçaram os moradores e saquearam casas, aterrorizando o povo. Quatro homens foram retirados de suas casas e levados para a praça central da cidade. Eram eles: o professor da Faculdade de Agricultura da Comunidade, Ruban Palacios Blancas, 54; o ex-vice-prefeito, Alfredo Morales Torres, de 56 anos; um membro do comitê da cidade vigilante, Pedro Pando Llanos e o delegado para a comissão Agustin Bento Morales, 50.

Os guerrilheiros também foram para o convento onde a irmã Irene estava sozinho, pois a irmã Dorothy estava em Lima para um tratamento médico. Eles ameaçaram explodir a porta do convento se ela não saísse, estando fora do convento ela foi levada para juntos dos quatro homens na praça central.

Durante uma hora as cinco vítimas foram interrogadas, julgadas e condenadas à morte. A população local intercedeu por suas vidas, dizendo que estas eram boas pessoas, não malfeitores. Mas o Sendero Luminoso respondeu que não tinha vindo para um "diálogo", mas sim para "realizar uma sentença".

Os crimes cometidos pela irmã Irene e companheiros, eram por ela estar alimentando os pobres e educando as crianças locais. Foi acusada de distribuir "comida americana" (oferecida pela Caritas) e espalhando "ideias americanas" por fornecer livros escolares.

O povo insistia em dizer que irmã Irene era australiana, não americana, porém a guerrilha não quis acreditar. 

Durante a noite, um grupo de jovens da aldeia se reuniram em torno Irene na escuridão e conseguiu levá-la de volta para a multidão. Mas os guerrilheiros logo percebeu sua ausência e voltou-a para o banco na praça central. Os cinco presos foram obrigados a se deitarem de bruços sobre o chão da praça. Irmã Irene foi a primeira a ser executada, com um tiro na parte de trás da cabeça por uma menina-soldado, cerca de seis metros da porta da igreja, em seguida os quatro homens.

Uma vez que os corpos não puderam ser removidos da praça até que as autoridades dessem permissão, os paroquianos mantiveram-se em vigília à luz de velas e rezando. Em seguida, um grupo de mulheres a deitou fora na sacristia e fez por ela o que suas famílias fizeram para os homens mortos com ela. Em 23 de Maio de 1991, uma missa fúnebre foi realizada e Irene foi enterrada no cemitério Huasahuasi, em um nicho doado por um paroquiano.

Após 26 anos desde a sua morte, irmã Irene Mc'Cormack tem sido homenageada em muitas obras em favor da vida. A cada ano as irmãs de São José fazem memória do seu martírio, realizando uma semana de direitos humanos.

A superiora de sua congregação, irmã Anne Derwin, em vista a aldeia onde as freiras continuam seu trabalho missionário a exemplo da irmã Irene, disse que o esforço para que a santidade de Irmã Irene seja reconhecida, seria encaminhada pelo Bispo de Tarma, no Peru.

Disse o Bispo que as pessoas precisam de novos modelos de santidades e que o povo já declarou a santidade de irmã Irene. “Eles a chamam de santa Irene. Tem foto dela nos muros da cidade. E até hoje, as pessoas colocam flores em seu túmulo todos os dias”.

O irmão de Irene, John Mc'Cormack, está ciente do longo processo para a canonização de sua irmã e disse que ele ficaria orgulhoso se sua irmã torna-se uma santa.

“Seria muito significativa para a família. Mas, em certo sentido, nós já a consideramos santa, assim como o povo também a considera, mas esperamos que ela seja reconhecida oficialmente pela Igreja e tenha um lugar reservado em seus altares”.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Chicão Xucuru

CHICÃO XUCURU
Mártir da Terra Indígena
PESQUEIRA - PE * 20/05/1998

Chicão Xucuru (Francisco de Assis Araújo) foi vitima de uma emboscada de três pistoleiros do latifúndio, na manhã do dia 20 de maio de 1998. Já escapara de várias tocaias, de ataques planejados pelos fazendeiros.

Em 1995, a mando de fazendeiros, foi assassinado o advogado da Funai, Geraldo Rolim da Mota Filho, que prestava apoio jurídico ao povo Xucuru. 

Homem altivo e sereno, amável e inteligente, líder natural que sabia ouvir e orientar, Chicão tinha o poder que manava do reconhecimento e admiração do seu povo Xucuru. 

Grande líder da retomada das terras, sua perspectiva era recuperar a terra Xucuru invadida por 181 fazendas, cujos donos em boa parte são compadres e amigos do Marco Maciel, na ocasião vice-presidente da república.

Zenilda, a esposa de Chicão, seus filhos, seu povo, vêm retomando a herança, regada com sangue pelo destemido Chicão, e afirmando a identidade e os direitos do povo Xucuru.

“Para nós, a gente tem a Terra como nossa Mãe. Então, se ela é nossa Mãe, é ela quem nos dá o fruto de sobrevivência, ela deve ser zelada e preservada a partir das pedras, das águas e das matas.

Os latifundiários, principalmente fazendeiros, madeireiros e garimpeiros, vêem a Terra como objeto de especulação, pra vender e ganhar dinheiro, cercar a Terra e criar gado, sugar o suor dos pobres, mas deixar o pobre morrer de fome, não só o índio como outras pessoas...”.

Poema: A mata Escura de Chico Farias/Daniel Macedo

A mata escura guarda um grito
na serra do Ororubá.
A mata escura guarda um grito
na serra do Ororubá.

Grito, lamento infinito
espíritos de índios a vagar,
sementes que brotam de um sentimento
que nos levam a cantar a cantar...
Inconformados ancestrais
que inocentes nos "defenderam"
na Guerra do Paraguai.

E os carés tem que aprender
a verdadeira lição
Ororubá é Xucuru
Ta lá na confirmação quem da fé
é o pai tupã no ritual do toré

Grito, lamento infinito
espíritos de índios a vagar,
sementes que brotam de um sentimento
que nos levam a cantar a cantar...

Vídeo: O Outro Mundo De Chicão Xucuru - Mundo Livre S/A


Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.




Galeria dos Mártires - Manoel Luís da Silva

MANOEL LUÍS DA SILVA
Mártir da Terra
SÃO MIGUEL DE TAIPU, PB * 19/05/1997

Manoel Luís da Silva, sem terra, assassinado por capangas a mando dos grande latifundiário.

O crime aconteceu em 19 de maio de 1997, quando alguns trabalhadores sem terra, ao voltarem de uma mercearia, nas proximidades do acampamento instalado na Fazenda Engenho Itaipu, sofreram uma emboscada preparada pelos acusados. 

Manoel Luiz da Silva foi assassinado com tiros de espingarda calibre 12 e o sem terra João Maximiniano da Silva foi ameaçado de morte. “Ele estava sob a mira das armas e depois de muito implorar, foi liberado pelos acusados”, detalhou o promotor de Justiça que acompanha há dez anos o caso, Aldenor de Medeiros Batista. 

Os acusados trabalhavam como capangas da Fazenda Taipú, área reivindicada pelos trabalhadores e trabalhadoras acampados na época – e onde hoje está localizado o assentamento Novo Taipú, conquistado pelos trabalhadores em 1998 -. O ex-proprietário da fazenda, Alcides Vieira, considerado pelos trabalhadores como mandante do crime, é conhecido pelo envolvimento em outros conflitos agrários na região, como o caso emblemático de violência contra os posseiros da Fazenda Quirino.

Abaixo, poema do livro: Raízes, memória dos Mártires da Terra, de Jelson Oliveira.

Manoel Luís da Silva

Tomba teu olhar como um relâmpago
- esse da chuva que não choveu mas foi sonhada,
e à terra entregou sua torrente.

Cinge-te o bálsamo e a folhagem,
secos sobre o vento, impetuoso e puro,
que amadurece a lentidão dos cajueiros
E o sossego de maio espanta
No azul sem fim da simplicidade...

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Galeria dos Mártires - Héctor Gutiérrez e Zelmar Michelini

HÉCTOR GUTIÉRREZ
E ZELMAR MICHELINI
Militantes Cristãos e Políticos
URUGUAI * 18/05/1976

Héctor Gutiérrez e Zelmar Michelini, destacados políticos uruguaios e militantes cristãos, foram sequestrados em Buenos Aires, Argentina, por efetivos da polícia e do exército uruguaios. Seus cadáveres apareceram, no dia 22, com sinais de selvagens torturas e mutilações. 

Héctor era pai de cinco filhos, dirigente do Partido Nacional, várias vezes deputado e presidente da Câmara de Deputados. 

Zelmar tinha nove filhos e duas filhas suas foram sequestradas também. Dirigente universitário e líder sindical bancário, chegou a ser ministro da Cultura e ministro de Indústria e Comércio. 

Ambos, exilados em Buenos Aires por causa da repressão em seu país, denunciaram, integérrimos, até à morte, a violação dos Direitos Humanos, assim como lutaram toda sua vida pela justiça e liberdade de seu povo.

Galeria dos Mártires da Caminhada, Prelazia de São Félix do Araguaia.

Galeria dos Mártires - Tupac Amaru II

TUPAC AMARU II
Guerreiro Indígena
PERU * 18/05/1781

É decapitado José Gabriel Condorcanqui, "Tupac Amaru II", militante dos direitos dos índios do Peru e da Bolívia. Depois de ter presenciado o enforcamento de sua mulher e dos mais próximos familiares e seguidores, foi amarrado pelos pés e pelas mãos a cavalos que dispararam em várias direções.

Túpac Amaru II, um descendente dos imperadores incas, liderou a maior rebelião indígena da história das Américas dos tempos coloniais. A sua insurreição contra o domínio espanhol colocou o seu nome entre os que tentaram, ao exemplo bem sucedido dos colonos norte-americanos, libertar as Américas da metrópole européia.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Galeria dos Mártires - Pe. Carlos Gálvez Galindo

Pe. CARLOS GÁLVEZ GALINDO
Mártir da Fé
GUATEMALA * 14/05/1981

A quinta-feira foi dia de mercado em Tecpán, Chimaltenango, na Guatemala, e de intenso trabalho para o Padre Carlos. 

Os camponeses aproveitaram para batizar seus filhos, se encontrar com o sacerdote, o qual, naquele mesmo dia, ao voltar para a casa de seus pais encontrou tudo em completa desordem. As portas e janelas arrombadas.

Ameaçaram-no, novamente, de morte se não saísse daquela aldeia. “Vou cumprir minha missão”, declarou ele dirigindo-se à Igreja onde ia realizar um batismo.

No meio do caminho gritaram-lhe: “Padre!” e, ao voltar-se, dispararam-lhe três tiros. Carlos caiu de bruços, ferido de morte, em meio aos camponeses que o cercaram chorando e rezando.

Depois, com seus trajes típicos, participaram da missa que sessenta sacerdotes e três bispos celebraram por Carlos, sacerdote guatemalteco de 51 anos, profundo conhecedor de seu povo — cujo idioma falava correntemente — comprometidos com ele até à morte para com ele ressuscitar.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada, a partir do Livro: Sangue Pelo Povo.

Galeria dos Mártires - Porfírio Suny Quispe

PORFÍRIO SUNY QUISPE
Mártir da Justiça e Solidariedade
PERU * 14/05/1991

Porfírio Suny Quispe, ativista e educador, mártir da justiça e da solidariedade no Peru. Professor camponês, deputado regional, casado e pai de sete filhas, incansável lutador social. Assassinado pelo Sendero Luminoso em Juliaca, Puno.

Professor das crianças mais pobres da cordilheira. Como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Comissão de Pacificação da região “José Carlos Mariátegui” participa na criação de grupos de auto-defesa contra o Sendero Luminoso em Carabaya. Apesar de sua oposição pública à guerrilha em 1988 ele foi acusado pelo exército de senderista, portanto, preso e torturado. Ante tal injustiça, a Anistia Internacional considera-o um prisioneiro de consciência. Liberado, Porfírio não renuncia à defesa da verdade e da justiça, apontando todos os tipos de corrupção.

Como filho da terra indígena andina reivindica sua origem e sua cultura milenar, que ajuda a revalorização entre seus irmãos. Educado em Escola Normal dos Padres Salesianos de Salcedo, Porfírio foi um homem de fé, encarnando o Evangelho até as últimas consequências.

Na Missa funeral, diante dos concelebrantes, as autoridades, a sua família enlutada e ao povo, Dom Jesús Mateo Calderon disse: “Porfírio nos deixa um testamento de sacrifício pela comunidade, de dedicação ao seu povo indígena pela preservação da sua cultura... Ele buscou a paz, a solidariedade, o pluralismo... É por isso que aperto a mão de Porfirio... porque ele foi um promotor da unidade”.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada, a partir da página do servicio koinonia.

Galeria dos Mártires - Mártires de Cayara

MÁRTIRES DE CAYARA
Mártires Pela Paz
PERU * 14/05/1988

Muitos estavam em seus campos, colhendo milho. Outros voltavam da procissão da Virgen del Carmen que aconteceu no dia anterior. De repente, como se brotando da terra, com os rostos pintados ou cobertos, a pé, a cavalo, em helicópteros, os soldados invadiram Cayara, Ayacucho. Eles vieram para vingar a morte de vários militares e soldados que no dia anterior caíram em uma emboscada do Sendero Luminoso.

Ao chegarem, assassinam a Esteban Asto Batista. Dando tiros e insultando, eles fizeram entrar na igreja cinco homens e amarraram suas mãos com correias. As mulheres foram lançadas para fora com ameaças de morte. Elas escutavam os gritos de dor. Outros oficiais chutavam as portas, roubavam, queimavam, destruíam tudo. Levaram presos para o quartel vizinho várias pessoas. Levaram também a enfermeira, que estava vacinando as crianças. Os homens que retornavam do campo foram forçados a tirarem as camisas e se deitarem no chão. Os saldados colocaram cactos em cima dos homens e pisavam sobre eles, para que os espinhos dos cactos enterrassem na carne deles.

E começam a matá-los um por um. Não desperdice balas: usaram facas, machados, martelos. Foram vinte e dois camponeses assassinados. Da mesma forma assassinaram o diretor do colégio, Zósimo Taquiri Yankee. Todas as mortes foram executadas em frente de suas esposas. Os soldados pedem inutilmente as armas com as quais eles haviam “matado o capitão”. Porém os camponeses não sabiam o que aconteceu no dia anterior entre o exército e os guerrilheiros. Quando uma mulher tenta ajudar um dos feridos, um soldado os assassinam. Os condenados à morte sofreram torturas indescritíveis. Os sobreviventes tiveram que jurar silêncio absoluto.

Dois dias depois, chegou o general Valdivia, chefe político militar de Ayacucho e prendeu vinte pessoas. Liberou dezesseis, os outros continuam desaparecidos. As denuncias chegaram até o Parlamento e a opinião pública. Deveriam esperar o relatório do Ministro da Defesa, mas a Comissão de Direitos Humanos da Câmara e o promotor Carlos Escobar, decidem investigar imediatamente. O exército os impedem de entrar em Cayara. No entanto, eles recebem os primeiros testemunhos. A versão oficial nega o massacre, enfocando a “emboscada sofrida pelo exército, em que dezoito rebeldes foram mortos, cujos corpos foram enterrados pelos soldados”.

Treze dias depois, a Comissão, o promotor e alguns jornalistas conseguem entrar em Cayara. Não encontram os cadáveres. Mas havia vestígios e cheiro de morte ao longo do caminho. A comissão parlamentar presidida por Carlos Melgar, o partido no poder, visitam o lugar e chegam a um acordo com o comando político-militar de Ayacucho. Nem se quer se reunem com o promotor Carlos Escobar.

O país inteiro se comoveu diante dos fatos. Os universitários de San Marcos saem pelas ruas e são brutalmente reprimidos pela polícia. Javier Arrasco morre com um tiro na cabeça e mais de mil estudantes foram detidos sob a acusação de terrorismo. Um grupo armado entram em Cayara em 30 de junho e distribuem folhetos do Sendero Luminoso que dizia: “Assim morem os informantes”. Sequestram quatro homens e duas mulheres. Alguns vizinhos reconhecem vários soldados entre os alegados senderistas. Os sequestrados continuam desaparecidos. Coincidentemente são as testemunhas da matança. Só em 10 de agosto, o promotor e o juiz de Cangallo descobriram uma vala comum no monte Pucutuccasa. Eles exumam e identificam os corpos. A lista de novos mártires de Ayacucho está completa.

Seus nomes podem não aparecer no mármore dos heróis, porém, seus sangue se soma m com as lágrimas de seu povo, que um dia terão terra, pão e justiça. 

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada, a partir da página do servicio koinonia.

Galeria dos Mártires - Massacre do Rio Sumpul

MASSACRE DO RIO SUMPUL
600 pessoas assassinadas
EL SALVADOR * 14/05/1980

Na aldeia salvadorenha de “La Arada”, e em seus arredores, amanhecia quando soldados da Guarda Nacional e da organização paramilitar ORDEN, apoiados por helicópteros, começaram a disparar, com uma violência ainda desconhecida de seus habitantes.

Mulheres foram torturadas, antes do tiro de misericórdia. Crianças de peito foram jogadas para o alto, para serem fuzilados. Os sobreviventes fugiram rumo à fronteira de Honduras. Tentaram alcançar a outra margem do rio Sumpul. Mas nenhum detalhe tinha sido esquecido. O massacre fora cuidadosamente preparado. O exercito hondurenho, que permanecera a postos, em frente ao rio, desde o dia anterior, fez voltar ao território salvadorenho todos aqueles que tentavam atravessá-lo.

Muitos morreram afogados. Especialmente as crianças. As águas do Sumpul tingiram de sangue e encheram-se de cadáveres. O genocídio terminou ao entardecer e ali jaziam 600 mortos, alimento para cães e aves de rapina.

Ninguém pode aproximar-se para recolhê-los ou enterrá-los. Poucos foram os que restaram para contar o horror daquele dia de sangue e pranto. Os governos de ambos os países negaram a matança, assim como os observadores da OEA. A primeira e corajosa denuncia veio da diocese hondurenha de Santa Rosa de Copán.

EL SOMBRERO AZUL

El Pueblo salvadoreño
tiene el cielo por sombrero
tan alta es su dignidade
en la búsqueda del tempo
en que florezca la tierra
por los que han ido cayendo
y que venga la alegría
a lavar el sufrimiento
y que venga la alegría
a lavar el sufrimiento.

Dále que la marcha es lenta
pero sigue siendo marcha
dale que empujando al sol
se acerca la madrugada
dale que la lucha tuya
es pura como una muchacha
cuando se entrega al amor
con el alma liberada.
Dale salvadoreño
que no hay pájaro pequeno
que después de alzar el vuelo
se detenga en su volar.

Al verde que yo le canto
es el color de tus maizales
no al verde de las boinas
de matanzas tropicales
las que fueron al Vietnam
 a quemar los arrozales
y andan por estas tierras
como andar por sus corrales.

Dale salvadoreño...

Hermano salvadoreño
viva tu sombrero azul
dale que tu limpia sangre
germinará sobre el mar
y será una enorme rosa
de amor por la humanidad
hermano salvadoreño
viva tu sombrero azul.

Tendrán que llenar el mundo
con del Sumpul
para quitarte las ganas
del amor que tienes tú

Dale salvadoreño...
Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.