quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Galeria dos Mártires - Júlio Rocca

JÚLIO ROCCA
Mártir da Solidariedade
PERU * 01/10/1992

Júlio Rocca nascido em Isolaccia (Itália) em 30 de março de 1962.
Missionário leigo da organização jovem “Operação Mato Grosso”, que começa seu trabalho de solidariedade no Brasil, se estendendo para o Equador, Bolívia e Peru.

"Julito" como eles o chamam na comunidade, foi assassinado pelo grupo Sendero Luminoso no dia 01 de outubro de 1992, na paróquia de Jangas (Ancash - Peru), durante a realização suas atividades de evangelização junto aos pobres região.

Na noite anterior ao assassinato um grupo de terrorista armado do Sendero Luminoso chegou na região da paróquia, e começou a aterrorizar os moradores.

Vendo apenas as mulheres, os terroristas tornaram-se muito irritado e começou a roubar tudo o que podiam encontrar.

Neste momento Júlio veio com outro voluntário. Ele estava convencido de que "poderia parar com essa loucura do terrorismo. Ele estava muito convencido do caminho oposto: a caridade, a bondade, a conversão pessoal, o caminho de Jesus, a verdadeira revolução em favor do povo, todos os povos", conta Michele, voluntária italiana que também trabalhou na paróquia juntamente com o marido.

Após uma troca de palavras, eles levaram Júlio apesar de sua resistência. Ele foi encontrado às três horas da manhã, com um tiro, abandonado na estrada.

Júlio tinha escrito dois dias antes ao bispo comunicando sua decisão de se tornar um sacerdote na diocese de Huaraz.

Monsenhor José Ramon Gurruchaga, Bispo de Huaraz, na Eucaristia disse depois de sua morte: "Seu objetivo final era responder a Jesus que o chamava insistentemente. Já havia preparado um cargo para ele na diocese, mas ... O posto está vazio. Que seu gesto. Seu coração. Vive ressuscitado em Deus Amor”. "Nossa dor pela morte de Julio é grande, porque ele era um colaborador da Igreja e do povo de Huaraz, trabalhou a serviço dos pobres..."

O nome de Júlio, amante da paz, do Deus da Vida e do povo peruano, já está escrito no livro dos mártires estrangeiros que deram suas vidas na América Latina.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de pesquisa na internet.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Galeria dos Mártires - Lázaro Condo

LÁZARO CONDO
Liderança Indígena
EQUADOR * 26/09/1974

Indígena camponês, cristão fiel e líder de sua comunidade, viveu as lutas e as esperanças de uma possível reforma agrária, concretamente em sua região de Riobamba. Os grandes proprietários de terra, apoiados pelo exército e polícia, impedem essa reforma. 

Atacam os dirigentes camponeses indígenas e a Igreja do grande bispo da Causa Indígena, Leônidas Proaño, tão solidária com seu povo. 

São assaltados, os templos e as casas paroquiais, mulheres e anciãos são golpeados e Lázaro, que tenta defendê-los, é fuzilado. 

No domingo seguinte recebe a homenagem da multidão indígena descida da montanha e, na homilia, seu bispo Dom Proaño lança o grito profético do Evangelho: “Lázaro, levanta-te e anda!”.

Fazemos memória dos 41 anos de seu martírio.

Texto retirado da Galeria dos Mártires, no Santuário de Ribeirão Cascalheira, MT

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Galeria dos Mártires - Marlene Kegler

MARLENE KEGLER
Mártir da Fé e do Serviço entre os Universitários de La Plata
ARGENTINA * 24/09/1976

Marlene Katherine Krug Kegler, estudante e operária, mártir da fé e do serviço entre os universitários de La Plata, Argentina. Cristã e política, universitária de 23 anos, sequestrada e desaparecida em La Plata. 

Marlene pertence a uma grande família do Paraguai, de onde ela aprendeu sua fé e solidariedade. Morava na Argentina, enquanto estudava obstetrícia. Era uma moça espontânea, estava sempre pronta ao serviço, e tinha uma alegria contagiante de viver. Simples e humilde, apesar de sua vasta cultura. Carinhoso com sua família, ela não aceita que eles paguem todas as suas despesas e vai trabalhar como empregada doméstica. 

Sensível às injustiças sofridas pelos estudantes antes do encerramento da universidade e, fundamentalmente sensível ao sofrimento dos pobres, decide militar em um grupo ligado à Frente Anti-imperialista pelo Socialismo, FAS.

Sua paixão pela justiça e solidariedade é alimentada pelo Evangelho. Porém neste período acontecia a atuação impuni da Aliança Anti-comunista Argentina, AAA, caçadora feroz daqueles que buscavam uma sociedade mais justa. Tal como aconteceu com os secretários acadêmicos Achem e Miguel, resultando em um protesto gigante, violentamente reprimidas pela polícia e no qual participa Marlene. 

Um dia, enquanto espera o ônibus na frente da faculdade, parou um carro com quatro homens, três dos quatros homens aproximaram-se de Marlene tentando a força colocá-la no carro, ela resistiu, agarrando-se a uma coluna de iluminação pública e proferindo gritos de socorro, mas não conseguiu evitar ser arrastado para o carro. Tudo isso em meio a espancamentos, insultos e tiros para o ar, para evitar que aqueles que testemunharam o sequestro, não pudessem ajudar a vítima.

Por fim, o carro fugiu a toda velocidade. Testemunhas disseram mais tarde que um dos sequestradores deixou cair um emblema da polícia, que foi dado aos soldados do Exército que chegaram ao local quase imediatamente, para inspecionar a área em busca dos sequestradores. E disseram que a operação não foi bem sucedida.

Além disso, o decano de Medicina, Manuel García Mutto, aproximou-se da cena e disse, sem mais, que Marlene não era estudante da faculdade.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

PABLO NERUDA

Filho de um operário ferroviário e de uma professora primária, nasceu em 12 de julho de 1904, na cidade de Parral (Chile). Seu verdadeiro nome era Neftalí Ricardo Reyes Basoalto. Perdeu a mãe no momento do nascimento.

Em 1906, a família muda-se para a cidade de Temuco. Começa a estudar por volta dos sete anos no Liceu para Meninos da cidade. Ainda em fase escolar, publica seus primeiros poemas no jornal “La Manãna”. No ano de 1920, começa a contribuir com a revista literária “Selva Austral”, já utilizando o pseudônimo de Pablo Neruda (homenagem ao poeta tcheco Jan Neruda e ao francês Paul Verlaine).

Em 1921, passa morar na cidade de Santiago do Chile e estuda pedagogia no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile. Em 1923 publica “Crepusculário” e no ano seguinte “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”, já com uma forte marca do modernismo.

No ano de 1927, começa sua carreira diplomática, após ser nomeado cônsul em Rangonon, na capital da Índia britânica, colônia de Burma. Em seguida passa a exercer a função no Sri Lanka, Java, Singapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri. Nesta viagens, conhece diversas pessoas importantes do mundo cultural. Em Buenos Aires, conheceu Garcia Lorca, e em Barcelona Rafael Alberti.

Em Java, no ano de 1930 conheceu e se casou com sua primeira esposa, uma funcionária do banco holandês, chamada Maryka Antonieta Hagenaar Vogelzang. Divorciando-se em 1936. Logo após começou a viver com Delia de Carril, com quem se casou em 1946, até o divórcio em 1955. Em 1966, casou-se novamente, agora com Matilde Urrutia.

Em 1936, explode a Guerra Civil Espanhola. Comovido com a guerra e com o assassinato do amigo Garcia Lorca, compromete-se com o movimento republicano. Na França, em 1937, escreve “Espanha no coração”. Retorna neste ano para o Chile e começa a produzir textos com temáticas políticas e sociais.

No ano de 1939, é designado cônsul para a imigração espanhola em Paris e pouco tempo depois cônsul Geral do México. Neste país escreve “Canto Geral do Chile”, que é considerado um poema épico sobre as belezas naturais e sociais do continente americano.

Em 1943, é eleito senador da República. Comovido com o tratamento repressivo que era dado aos trabalhadores das minas, começa a fazer vários discursos, criticando o presidente González Videla. Passa a ser perseguido pelo governo e se exila na Europa. 

Em 1952, publica “Os versos do capitão” e dois anos depois “As uvas e o vento”. Recebe o prêmio Stalin da Paz em 1953. Em 1965, recebe o título honoris causa da Universidade de Oxford (Inglaterra). Em outubro de 1971, recebe o Prêmio Nobel de Literatura.

Durante o governo do socialista Salvador Allende, é designado embaixador na França. Doente, retorna para o Chile em 1972. Em 23 de setembro do ano seguinte, morre de câncer de próstata na Clínica Santa Maria de Santiago (Chile).

Obras de Pablo Neruda

Crepusculario. 
Veinte poemas de amor y una canción desesperada. 
Tentativa del hombre infinito.
El habitante y su esperanza. Novela. 
Residencia en la tierra (1925-1931). 
España en el corazón. Himno a las glorias del pueblo en la guerra: (1936- 1937). 
Tercera residencia (1935-1945). 
Canto general. 
Todo el amor. 
Las uvas y el viento. 
Odas elementales. 
Nuevas odas elementales. 
Tercer libro de las odas. 
Estravagario. 
Cien sonetos de amor (Cem Sonetos de Amor). 
Navegaciones y regresos. 
Poesías: Las piedras de Chile. 
Cantos ceremoniales. 
Memorial de Isla Negra. 
Arte de pájaros. 
La Barcaola. 
Las manos del día. 
Fin del mundo. 
Maremoto. 
La espada encendida. 
Invitación al Nixonicidio y alabanza de la revolución chilena. 
Libro de las preguntas. 
Jardín de invierno. 
Confieso que he vivido. Memorias. 
Para nacer he nacido. 
El río invisible. Poesía y prosa de juventud.
Obras completas. 3a. ed. aum.   

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É Proibido

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos

Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Morre Lentamente

Quem morre?

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

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Abaixo uma página para consulta e deleite:
http://www.neruda.uchile.cl/

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Galeria dos Mártires - Eugênio Lyra

EUGÊNIO LYRA
Advogado dos Trabalhadores Rurais, Mártir da Justiça
SANTA MARIA DA VITÓRIA – BA * 22/09/1977

Eugênio Lyra nasceu no dia 08 de janeiro de 1947. Começou a frequentar uma escola particular com apenas cinco anos e aos sete, ingressou numa escola pública. Gostava muito de ler e lia tudo o que via.

Não gostava de brincar, não sabia jogar gude, nem bola e nem outros brinquedos que as crianças gostam.

Sempre foi muito estudioso, esperto, prestativo, principalmente com as pessoas mais humildes e velhas. Era muito preocupado comigo, com os irmãos e com as pessoas do seu relacionamento. Isto desde pequeno.

Aos onze anos, ingressou no Colégio Marista. Sempre foi um aluno muito esforçado e de ótimo comportamento. Aos quinze, concluiu a 4º série do ginásio e mudou-se para Salvador, onde deu continuidade aos estudos. Morava em uma pensão, no quarto dos fundos, local em que passou horas amargas e grandes sacrifícios para alcançar o que ele mais desejava.

Fez o científico no Colégio Central, onde conheceu Lúcia, sua colega e amiga. Juntos fizeram o vestibular, passaram e continuaram os estudos na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Desta amizade nasceu o amor. 

Ainda estudante, aos dezoito anos, lançou seu primeiro livro, intitulado Fogos Fátuos. Em 1968, aos vinte e um anos, lançou Abismos, livro, assim como o primeiro, de poesias.

Em 1969, quando estava estagiando, a primeira causa foi de uma humilde senhora que estava para perder a casa. Eugênio fez todo o possível para que ela permanecesse no imóvel.

Formou-se em 1970, no dia 08 de dezembro. Um ano depois, casou-se com Lúcia e juntos, na mesma profissão, instalaram um escritório na Rua Chile, em Salvador, onde atenderam por algum tempo.

Sendo chamado para trabalhar em diversos sindicatos, viajava para atender em várias cidades do interior baiano tais como: Feira de Santana, Riachão do Jacuípe, Cachoeira, Santo Antônio de Jesus, dentre outras. 

Em 1976, no dia 05 de abril, foi transferido para Santa Maria da Vitória, onde fixou residência, atendendo aos trabalhadores e lutando pela devolução das terras dos camponeses que tinham sido tomadas pelos grileiros. Ele se sentia bem em lidar com aquela gente sofredora, que precisava de alguém humano que fizesse algo por eles: recebia a todos que o procuravam e atendia com carinho e atenção aquela gente humilde. Buscando sempre ajudá-los, sentia-se feliz ao lado deles. 

Um dia foi convidado por um grileiro que lhe ofereceu uma boa quantia para que ficasse ao lado dele, contra os lavradores. Ele agradeceu dizendo que ficaria com os lavradores, que precisavam dele. Deste dia em diante, começaram as ameaças e perseguições. Mesmo assim, ele não acreditava que alguém tivesse coragem de lhe fazer o mal. 

Ele e Lúcia já estavam casados há seis anos. Ela estava esperando um filho e estavam felizes. Mas a felicidade durou pouco... 

Eugênio vinha a Salvador para depor na CPI da grilagem. Viria na sexta-feira, não sabendo que as autoridades de lá (como o delegado de polícia e o regional, que era na época Eymar Portugal Sena Gomes) estavam aliadas aos malditos grileiros e haviam contratado o pistoleiro Wilson Gusmão por Cr$ 40.000,00 (quarenta mil cruzeiros) para executar o bárbaro crime, antes da vinda dele para Salvador. 

Nesta época, Lúcia estava no quinto mês de gestação e como vivia assustada não deixava que ele saísse sozinho. Andavam sempre juntos. E foi então que na quinta-feira, 22 de setembro de 1977, na porta da barbearia de Santa Maria da Vitória, aconteceu a triste tragédia: Eugênio, aos 30 anos, fora vitimado, fatalmente, com uma bala na testa, caindo aos pés de Lúcia, que ainda correu atrás do pistoleiro. 

E assim fizeram parar a vida do jovem advogado que lutou e deu seu sangue pelos lavradores, deixando, além da família, uma criança inocente, a maior vítima deste bárbaro crime: a pequenina Mariana. 

Aqui termina, com um trágico fim, a história de uma criança boa, inteligente e jovem; que não teve infância, nem juventude: seu mundo foi os livros, sua família e a luta ao lado dos trabalhadores.

É com muita amargura e com o coração traspassado que narrei à vida do meu inesquecível filho EUGÊNIO LYRA
Dona Maria Lyra, 1981

Abaixo um poema escrito por Eugênio Lyra para sua esposa:

“Plantemos novas sementes,
colhamos frutos maduros,
rompamos todas as frentes
e obstáculos futuros.
Sejamos mais conscientes
e, juntos, onipotentes,
prostremos todos os muros.”

Do teu, para sempre,
Eugênio – 14/04/71

Galeria dos Mártires - Antônio Conselheiro

ANTÔNIO CONSELHEIRO
Patriarca do Povo Sertanejo
CANUDOS – BA * 22/09/1897

Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro por antonomásia, nasceu no sertão do Ceará em 1829, na cidade de Quixeramobim. Desde a juventude sentiu e percebeu as injustiças praticadas contra o povo pobre do sertão e se acendeu nele a paixão pela libertação desse povo. 

Tornou-se educador e missionário leigo, e em suas peregrinações pelo sertão por mais de 20 anos, foi deixando por onde passava, marcas de sua fé e de seu compromisso social, construindo, em mutirão, barragens, açudes, capelas, cemitérios. Conquistando com sua palavra e seu testemunho o povo do sertão, que na época “vivia abandonado pela Igreja, acorrentado pelos coronéis, perseguido pelo Estado”.

Depois dos 20 anos de peregrinação pelo Nordeste, amado do povo e incompreendido ou perseguido pelas várias autoridades, Conselheiro sentiu de perto o atraso sistemático e o descontentamento das massas populares e resolveu, por volta de 1893, colocar em prática seu objetivo de formar, com nordestinos retirantes, uma comunidade igualitária: Belo Monte (Canudos), na região do Raso da Catarina, cortada pelo rio Vasa-Barris.

Rapidamente a comunidade cresceu e em poucos anos tornou-se uma das maiores cidades do Nordeste, com 25.000 habitantes. Ordeira, religiosa, produtiva, comunitária.

A reação dos coronéis, dos políticos e de setores da Igreja não se fez esperar e começou a guerra de Canudos, a maior guerra camponesa do século XIX. As três primeiras expedições militares foram derrotadas pelos sertanejos. A quarta expedição da polícia e do exército, munida de milhares de homens e de potentes canhões conseguiu destruir, à 5 de outubro de 1897, a grande cidade comunitária do Brasil.

Até o último sobrevivente foi degolado, incluindo as crianças. Canudos virou cinzas, mas virou também, por seu sonho e resistência, bandeira de luta e de esperança do outro Brasil que almejamos.

Vítima de ferimentos causados pela explosão de uma granada, Antonio Conselheiro morre em 22 de setembro de 1.897.

Canudos vive e vive Antônio Conselheiro, patriarca do povo do sertão.

Texto retirado da Galeria dos Mártires, no Santuário de Ribeirão Cascalheira, MT

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Galeria dos Mártires - Ir. Yolanda Cerón Delgado

Ir. YOLANDA CERÓN DELGADO
Mártir dos Direitos Humanos
COLÔMBIA * 19/09/2001

Yolanda Cerón Delgado, religiosa da Congregação da Companhia de Maria, realizava por vários anos um trabalho de denuncia permanente sobre a grave situação dos direitos humanos na região, fazendo chamados urgentes para as autoridades locais, nacionais e internacionais para que se investigassem os casos e se criminalizassem os responsáveis destes crimes contra a comunidade nariñense, de acordo com informações da Agência Nizkor. 

Trabalhou por oito anos no apoio as comunidades indígenas e afro-colombianos.

No dia 19 de setembro de 2001, ao meio-dia, na porta da Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia, localizado no Parque Nariño, município de Tumaco (no departamento de Nariño, no sudoeste da Colômbia) Irmã Yolanda Cerón foi vítima de alguns bandidos que dispararam oito tiros, que há deixou gravemente ferida, sendo transferida para o hospital local, onde morreu momentos depois.. "Vemos claramente que este assassinato - de acordo com o comunicado oficial do Bispo de Tumaco - é uma resposta às ações que a Diocese tem empreendida pela defesa dos direitos humanos e as denuncias pelas ações de violência e corrupção que diariamente ocorrem em nosso solo".

Nos dias anteriores, de acordo com a mesma fonte, a religiosa tinha relatado a permanente vigilância que vinham fazendo aos escritórios da Pastoral Social, assim como a perseguição que foram submetidos por homens não identificados. Além disso, foi relatado que recentemente tinha sido convocada pelo Escritório de Tumaco para ratificar as queixas sobre a violação dos direitos humanos que ela havia feito meses anteriores.

A vida de Yolanda foi caracterizada pelo seu empenho e defesa da vida; desde sua opção por defender os mais pobres de seus país, denunciando as situações de desrespeito aos direitos humanos em sua região, mostrando profeticamente o que hoje é chamado de "terrorismo de Estado", cuja manifestação se expressa, entre outros, pelos paramilitares.

Yolanda era uma mulher de muito valor, corajosa e comprometida, que sempre lutou pela Paz. Seu compromisso incansável pela vida ao lado dos pobres, ameaçados e das pessoas afetadas por esta guerra absurda é um grande testemunho e exemplo, e também um chamado para nos comprometermos pela Causa da Paz e da Justiça na Colômbia, em nossas Cidades, no Mundo.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir da página: http://servicioskoinonia.org/martirologio/

Galeria dos Mártires - Charlot Jacqueline e Camponheiros

CHARLOT JACQUELINE e COMPANHEIROS
Mártires da Educação Libertadora
HAITI * 19/09/1986

Charlot Jacqueline e companheiros, militantes e educadores, mártires da educação libertadora para seu povo haitiano. 

Militantes cristãos e alfabetizadores da Missão ALPA. Sequestrados e desaparecidos. Charlot vivia em Cité Soleil, subúrbio de Porto Príncipe. Participava das organizações de bairros e acompanhava seus irmãos em todas as suas reivindicações. Era monitora da Missão ALFA, uma campanha de alfabetização nascida em 1984, por iniciativa da Igreja em solidariedade com os problemas das povo. 

O projeto da Missão ALFA abriu possibilidade de conscientização, uma vez que tinha como objetivo ensinar a leitura e a escrita para três milhões de analfabetos em cinco anos.

As pessoas descobriram, através da alfabetização, a importância de se expressar, do acesso à informação, para libertar a riqueza de seu espírito, e de sua cultura. Vislumbravam horizontes da democracia. 

Isso se tornou perigoso para as ditaduras no poder e a mesma hierarquia eclesiástica decidiu suspender o programa em um comunicado, referindo-se a politização de seus diretores e monitores. 

Na noite de 19 de setembro de 1986, Charlot e companheiros foram retirados de suas casas por homens uniformizados e civis, espancados com brutalidade e tratados como comunistas. Eles nunca mais apareceram. Parentes e amigos da Missão ALFA começaram a procurá-los. O país inteiro se mobilizou. 

Seus nomes e seus compromissos transcendem as fronteiras e as organizações internacionais cobram do governo haitiano o aparecimento destes militantes da educação. Uma manifestação de sessenta mil pessoas saem as ruas exigindo o aparecimento de Charlot e o fim da repressão contra os monitores do ALFA. 

O povo toma consciência do seu papel, e em memória de Charlot e de seus companheiros, ocupam seus lugares na vanguarda de suas lutas.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir da página: http://servicioskoinonia.org/martirologio/

Galeria dos Mártires - Pe. Joan Alsina Hurtos

Pe. JOAN ALSINA HURTOS
Testemunho da Fé na América Latina
CHILE * 19/09/1973

Joan Alsina Hurtos, jovem sacerdote catalão, chegou ao Chile por meio da OCSHA (Obra de Cooperação Sacerdotal Hispano-Amaricana) em 1958. Jovial, destemido, generoso, com um claro carisma pela Pastoral Operária, viveu coerentemente seu sacerdócio e seu compromisso social, ao serviço do povo, de quem foi sempre um companheiro. Foi assessor de vários grupos cristãos.

Trabalhou no Hospital San Juan de Dios, viveu como operário num bairro de Santiago e foi, sobretudo, profeta da Palavra. Nos finais de semana celebrava a missa em um bairro operário ou ajudava nas paróquias vizinhas. Foi capelão dos grupos de Ação Católicas.

Depois do golpe militar chileno de 11 de setembro de 1973 de derrubou o presidente Allende, continuou indo ao trabalho no hospital dizendo que lá estaria mais seguro, além disso, no hospital havia muita gente em reais dificuldades que necessitava dele. No dia 19 daquele mês foi levado pelos militares. Seus amigos passaram vários dias procurando por ele. Em 26 de setembro, o cônsul espanhol avisou que seu corpo estava no necrotério (fora encontrado no dia 20). 

Na missa fúnebre foi concelebrada por mais de quarenta sacerdotes. Segundo o médico que efetuou a autópsia a pedido do cônsul, ele tinha no corpo mais de 10 perfurações de bala, todas disparadas pelas costas. Havia chegado ao necrotério às 10:30h da manhã do dia 20, em um caminhão juntamente com outros cadáveres achados debaixo da ponte Bulnes no rio Mapocho.

Nas horas antes do seu martírio deixou-nos um dos mais belos textos martiriais desse nosso século latino-americano: seu “Testamento”. O próprio soldado que o fuzilou dá testemunho da serenidade cristã com que Joan deu a vida: Ele me disse: ”por favor, não me vendes os olhos, mata-me de frente porque quero ver-te para te dar o perdão”... Levantou o olhar para o céu,... pôs as mãos sobre o peito... e disse: “Pai perdoa-os!”.

Segue abaixo carta-oração, testemunho espiritual escrita por Joan Alsina:

Por quê?
Queríamos colocar vinho novo em odres velhos e acabamos ficando sem odre e sem vinho... no momento.
Chegamos ao fim caminho, abrimos uma trilha e agora estamos nas pedras. Até quando continuaremos andando... Até quando? Pode ser que encontremos algumas árvores para nos proteger das balas.
- Nenhum dos que molharam o pão nas panelas do Egito, verá a Terra Prometida, sem passar antes pela experiência da morte.
- Já não há profetas entre nós, apenas o bezerro de ouro. (Ex. 32,1-16). Nada restou de dois dias para cá.
E como não podemos falar, ruminamos. Temos saudades do pão seco compartilhado, comido entre risos e sorrisos.
Nós não tínhamos entendido as palavras de São Paulo: "Nós todos vamos ser testado pelo fogo". E quanta palha queimada! Onde estão agora os que queriam chegar às últimas consequências?
- Permitiram-nos fazer um jogo tão nojento, com possibilidades tão limitadas, que nós mesmos nos saturamos. "Santa Democracia, rogai por nós!"
É fácil resignar-se - tão fácil pregar a resignação - com a perda. Porque perder significa deixar de ter e começar a ser. E aqueles que mais tinham e continuam a possuir, são os que menos eram; eram menos, mas tinham o poder e força.
“E Verbo se fazia carne”. E isto não toleramos. É o escândalo da cruz. Nunca Suportamos.
Respeitaremos todas as ideologias... enquanto não tentem tornar-se carne e realidade. Se ousarem, fá-la-emos sangue e carne massacrada.

E agora?
São muitas pessoas que foram identificadas e purificadas. Setenta e dois disseram. Quarenta mil estavam no êxodo. E aqui também, de um lado e outro.
Que importa?
O povo é tropa, evidentemente; "Faremos uma país novo, livre e independente". Outras Vozes, outros âmbitos. Não, as vozes são as mesmas, e a dialética também. Falta de conexão interna. Não sabem quem sou, de onde eu venho e para onde vou. Chegarei a casa. Este me olha. Aquele pode me prender. Esconder-te. Depender de uma senha, de uma instituição, de uma confissão arrancada. Suor, frio, calor. Uma cela pequena, solitária, fria. Quem está do outro lado do telefone? Quem chama à porta a esta hora? Não sei o que vou fazer, somente o que me farão. E o mais doloroso: por quê? Agora entendo quando me falam da luta contra o medo. E ainda continuam os disparos. Principalmente a noite. Isto é a insegurança e a consciência da insegurança, o medo.
Quem contra quem? Pessoas, pessoas, pessoas. De um lado e do outro. Eles estão mortos; ou em fuga; ou estão lá em cima. Estratégias, decretos, declarações! E o povo dormindo ou morto. É a impotência. O sangue ferve. As palavras não saem. E pensar que - palavras e ações estão fadadas ao pó e a carne esmagada e massacrada.
E a nossa Mãe? (Igreja)
Não se pode improvisar.
O equilíbrio serve somente para os tempos de 'paz'.

Esperanças
Se o grão de trigo não morrer, nunca dará frutos. É terrível um monte incendiado, mas é preciso ter esperança de que, da cinza molhada, negra e pegajosa, volte a germinar vida.
Descobrimos a vida em cada dia, em cada minuto. Descobrimos os valores dos pequenos gestos de cada momento. O riso na rua triste; a voz amiga em código no telefone; a preocupação pelos caídos; a mão estendida; a fase que ousa dizer uma piada.
Lembro-me de uma passagem de Saint Exupéry, em Vôo Noturno. Ele estava voando não sei sobre qual país, quando só então captou o sentido da casa, da montanha solitária, da luz, das ovelhas, do pastor. Para entender o sentido das coisas é necessário que nos distanciemos delas ou que delas nos distanciem.
Agora eu entendo as palavras de São Paulo: "A caridade não se incha de orgulho". (I Coríntios, 13,4). A verdade está escondida, porque é a Palavra feita carne. Somos como ovelhas levadas ao matadouro. Em tuas mãos entrego o meu espírito. Isto não é literatura. Nos momentos cruciais temos que empregar símbolos. De outra forma não poderíamos expressar.
Esperamos vossa solidariedade. Entendeis agora o que significa o Corpo de Cristo? Se nos afundamos, é algo da esperança que se afunda. Se com as cinzas brotar nova vida, é algo que nasce de novo dentro de vós.

Adeus a todos. Ele sempre nos acompanha onde quer que estejamos.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.