quinta-feira, 28 de maio de 2015

Galeria dos Mártires - Raimundo Ferreira Lima, "Gringo"


RAIMUNDO FERREIRA LIMA, “GRINGO”
Mártir da Reforma Agrária
CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA – PA * 29/05/1980

Raimundo, familiarmente apelidado de “Gringo”, 43 anos e pai de seis filhos, juntou a simpatia com a combatividade, uma fé cada vez mais consciente e consequente com a luta tenaz e organizada.

Agente de pastoral da diocese de Conceição do Araguaia e líder do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Foi sequestrado, com implicação da polícia e a mando do latifúndio, foi levado de madrugada aos arredores de Araguaína, torturado e morto à bala. Seu corpo apresentava sinais de golpes na cabeça e um braço fraturado.

A história de “Gringo” nada mais é que a própria história de seu povo, cujos direitos defendeu, como cristão e como sindicalista autêntico. Muitas vezes ameaçado de morte, jamais cedeu diante dessas ameaças. Verdadeiro líder, “sua combatividade e sua coragem eram nossa força, que crescerá com seu martírio”, afirma um de seus companheiros sindicalistas.

Mais de 3.000 pessoas assistiram aos funerais de “Gringo”, presididos pelo bispo, e celebrados na praça da catedral de Araguaia. Famílias inteiras chegaram de barco, navegando pelo rio, trezentos quilômetros, e outras caminharam, durante três dias, para acompanharem seus restos mortais, e rezar por aquele que havia sido sua autêntica voz.

Seu testemunho ficou como uma luz, sobretudo na região do Araguaia.

Abaixo, poema do livro: Raízes, memória dos Mártires da Terra, de Jelson Oliveira.

A nuvem feita no azul
Estancou-se no ninho das horas
Sangrando junto ao vazio.
Choraram as mães, prontas como sombra,
Ditando ao outono, no teu nome,
A designação plural dos cajueiros.
Choraram os meninos ao longo do fogo
Parecidos no ocaso e no destino – que ignoram
Cuidando do esquecimento.
Choraram os lavradores no meio do escuro
Fundindo nas trevas o grito derradeiro
Que habita toda garganta sufocada.

Onde a manhã amadurece as mãos para a paz
Plantaram tuas raízes.
A umidade pôs orvalho nas argilas
E a água extenuou o som, fio a fio,
Florescendo a ternura volumosa pelos campos.

Aí, Raimundo, estás disperso como semente,
Como palavra para um poema que nasce
Como extensões de jardins na paisagem.
Aí, Raimundo, teu nome é sempre uma festa,
Uma notícia exalada de perfume,
Um motivo a mais para esperar a aurora...

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada

Galeria dos Mártires - Massacre Coletivo de Panzós

MASSACRE COLETIVO DE PANZÓS
Mártires Indígenas Quichés
GUATEMALA * 29/05/1978:

A partir de 1976, diante da reorganização do Movimento Popular na Guatemala (América Central), o exército partiu para a ocupação militar sistemática de diferentes áreas do país. A repressão, que começara sendo seletiva, contra os lideres ou animadores, se generalizou, com caráter de verdadeiro genocídio, em sequestro, assassinatos, bombardeios, queimadas de roças e aldeias. E no dia 29 de maio de 1978 culminou com o MASSACRE COLETIVO DE PANZÓS.

Panzós é um povoado de índios Kekchi, fundamentalmente, no vale do rio Polochic, departamento ou estado de Alta Verapaz, a uns 200 quilômetros ao norte da capital guatemalteca.

Mais de 600 camponeses indígenas se reuniram, naquele 29 de maio, na praça de Panzós, respondendo a um chamado  do prefeito local e para reivindicarem as terras que lhes pertenciam, de tempos imemoriais, subitamente passadas às mãos dos latifundiário e militantes, por meio de todo tipo de manobras e violências.

Os indígenas, que foram à praça “com a paz no coração”, tentaram falar, mas não foram ouvidos e a resposta foi brutal: latifúndios, soldados e policiais abriram fogo indiscriminadamente contra a multidão indefesa, que encontrou a morte na praça, nas ruas, no campo e até no rio, onde alguns se jogaram, fugindo do ataque.

Duas caminhonetes de cadáveres – mais de 119, crianças e mulheres também – foram sepultados numa vala comum.

PANZÓS foi o primeiro massacre coletivo de toda uma série de massacres, que vêm dizimando o povo mártir da Guatemala. Pela crueldade e da injustiça de um exército e de uns governos a serviço dos grandes do país e da política dos Estados Unidos. Hoje a Guatemala tem um Governo democrata-cristão, porém “em matéria de direitos humanos não somente não se deram os progressos almejados, mas a situação se agravou”, segundo o informe do Comitê Pró-Justiça e Paz da Guatemala, apresentado, no mês de março de 1988, à comissão de Direitos Humanos da ONU.

“Panzós continua hoje”

No décimo aniversário de Panzós foi proclamado DIA INTERNACIONAL DE SOLIDARIEDADE COM A GUATEMALA. Para que o povo da Guatemala viva na liberdade, na justiça e na paz. Para que a terra da Guatemala seja do povo guatemalteco. Para que os indígenas guatemaltecos possam viver, livres e unidos, sendo eles, em sua terra, a antiga terra do povo Maia.

Texto elaborado pelo bispo Pedro Casaldáliga para o Jornal Alvorada em 1988.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Galeria dos Mártires - Adelino Ramos

ADELINO RAMOS
Mártir da Terra Livre
PORTO VELHO-RO * 27/05/2011

Adelino Ramos, 56 anos, dirigente camponês, agricultor, que participou da invasão da fazenda Santa Elina, palco do massacre de Corumbiara (RO), em agosto de 1995, foi assassinado na manhã de 27 de maio de 2011, no distrito de Vista Alegre do Abunã, em Porto Velho (RO), enquanto vendia verduras produzidas no acampamento onde vivia. Adelino estava acompanhado da esposa e duas filhas quando foi abordado e atingido com cinco tiros.

O homem atirou cinco vezes e continuou andando e se escondeu na mata quando a mulher de Adelino, identificada como Eliana, começou a gritar. Ela está sob proteção policial porque viu o assassino.

Em junho de 2010, durante reunião em Manaus (AM), Dinho chegou a denunciar ao ouvidor agrário nacional, Gercino Silva, sobre as ameaças de morte que sofria.

Era perseguido por latifundiários como um dos líderes do MCC. Ele morava no Assentamento Agroflorestal Curuquetê, em Lábrea, no Amazonas, e denunciava a ação de madeireiros.

Segundo a CPT, Dinho e um grupo de trabalhadores reivindicavam uma área na região para a criação de um assentamento. No início deste mês de maio, o Ibama iniciou uma operação no local, onde apreendeu madeira e cabeças de gado que estavam em áreas de preservação. A CPT na região acredita que esse foi o motivo da morte do camponês.

O assassinato de Adelino Ramos é o terceiro na Amazônia Legal em menos de uma semana. Na terça-feira 24 de maio, José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foram mortos a tiros numa estrada vicinal em Nova Ipixuna, sudeste do Pará.

A CPT denuncia que madeireiros estão ameaçando  de morte a agricultura Nilcilene Miguel de Lima, de Lábrea, presidente da Associação “Deus Proverá”, no sul do Amazonas. Assentada na região há sete anos, Nilcilene desenvolve atividades de cultivo familiar ligadas à conservação do meio ambiente, da floresta e ao ativismo social.

A rica e exuberante região de Lábrea, na divisa dos estados do Acre, Rondônia e Amazonas, tem sido palco de muitos conflitos nas últimas décadas por causa da luta pela posse terra, principalmente para pecuária e exploração madeireira.

Os então ministros Gilberto Carvalho  (Secretaria-Geral da Presidência da República) e Maria do Rosário Nunes (Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República) divulgaram uma nota sobre o assassinato do líder camponês Adelino Ramos. Eles manifestam “total repúdio e indignação”.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Galeria dos Mártires - Pe. Antônio Henrique Pereira da Silva Neto

PE. ANTONIO HENRIQUE PEREIRA DA SILVA NETO
Mártir da Juventude
RECIFE – PE * 26/05/1969

Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, nascido no Recife em 28 de outubro de 1940, primeiro dos doze filhos de José Henrique Pereira da Silva Neto e Isaíras Pereira da Silva, ordenou-se sacerdote na Matriz Nossa Senhora do Rosário da Torre, por Dom Helder Câmara, aos 25 anos de idade.

Sociólogo e professor, trabalhou nos colégios Marista, Nóbrega e Vera Cruz, na Escola Técnica do Derby e na Faculdade de Ciências Sociais, além de ensinar no Juvenato Dom Vital e na Cúria Metropolitana do Recife.

Na vida religiosa se dedicava aos jovens. Tratava de assuntos que interessavam à juventude, como o conflito de gerações e as drogas, procurando despertar uma visão mais humana e consciente da sociedade. Como coordenador da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Olinda e do Recife participou de encontros juvenis em âmbito diocesano, regional, nacional e internacional.

No seu trabalho com jovens também mantinha contato com estudantes cassados e destacava-se por ser um grande opositor aos métodos de repressão utilizados pelo Regime Militar, o que lhe rendeu várias ameaças vindas do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Como não se rendia, padre Henrique pagou com sua vida.

Na noite de 26 de maio de 1969, depois de participar de uma reunião com grupo de jovens católicos, no bairro de Parnamirim, foi sequestrado numa rural verde escura. Seu corpo foi encontrado, na manhã do dia seguinte, num matagal na Cidade Universitária, com marcas de espancamento, queimaduras, cortes profundos por todo o corpo e ferimentos produzidos por arma de fogo.

O assassinato causou grande revolta e comoção. O enterro reuniu milhares de pessoas em um cortejo que saiu da Igreja do Espinheiro para o Cemitério da Várzea. A caminhada foi interrompida duas vezes pela polícia devido a faixas de protesto que os estudantes levavam. Uma delas, conduzidas por Umberto Câmara Neto, líder estudantil, dizia: "A Ditadura Militar matou o Padre Henrique". Retiradas as faixas, a multidão fez todo o percurso cantando o hino "Prova de amor maior não há que doar a vida pelo Irmão".

O assassinato do Pe. Henrique foi parte de uma série premeditada de ameaças e avisos. O Palácio de Manguinhos (sede dos movimentos pastorais da Arquidiocese) foi pichado várias vezes. A residencia do arcebispo, uma sacristia, também foi alvo de tiros e pichações. Vieram depois ameaças telefônicas, com aviso de que as próximas vitimas já haviam sido escolhias.

Alguns dias depois do assassinato foi criada uma Comissão Judiciária de Inquérito, que seguiu várias linhas de investigação, crime passional, por drogas, político. A mãe do Padre Henrique, Dona Isaíras, passou 20 anos lutando para a finalização desse inquérito, acusando agentes da Secretaria de Segurança Pública.

Mesmo com a luta por justiça o inquérito foi arquivado e mantido como segredo de Justiça. Ninguém foi condenado, apesar das testemunhas e das provas apresentadas.


O assassinato do Padre Henrique foi um dos grandes pilares para a deteriorização da relação entre Igreja e militares, já desgastada pelas constantes críticas de Dom Helder ao regime militar. A morte de um membro eclesiástico tão próximo a Dom Helder sugere a possibilidade de uma ação retaliadora para "calar" as denuncias do arcebispo.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Galeria dos Mártires - José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva

JOSÉ CLÁUDIO RIBEIRO DA SILVA e MARIA DO ESPÍRITO SANTO DA SILVA
Mártires e Heróis da Floresta

NOVA IPIXUNA-PA * 24/05/2011

O casal de lideres extrativistas José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva foi executado na manhã de 24 de Maio de 2011 na cidade de Nova Ipixuna, no sudeste do Pará, cidade a 390 quilômetros de Belém.

A suspeita de Organizações Não Governamentais (ONG’s) e da família de Ribeiro é que eles tenham sidos executados por madeireiros da região. Silva era considerado sucessor de Chico Mendes, em referência ao líder dos seringueiros do Acre que foi morto em 1988 por sua defesa da Amazônia.

O casal saiu do Projeto de Assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira, localizado a cerca de 50 quilômetros da sede do município de Nova Ipixuna, quando foi  cercado em uma ponte por pistoleiros. Ali, eles foram executados a tiros.

José Claudio da Silva vinha recebendo ameaças de madeireiros da região desde 2008. Segundo informações do CNS, desconhecidos costumavam rondar a residência do casal disparando vários tiros para tentar intimidá-los. José Cláudio da Silva era um dos principais defensores da preservação das floresta amazônica após a morte de Chico Mendes e constantemente fazia denúncias sobre o avanço ilegal na área de de preservação onde trabalhava por madeireiros para extração de espécies como castanheira, angelim e jatobá.

Em 2010, durante evento que discutiu a preservação da floresta amazônica, José Cláudio da Silva classificou como “assassinato” a derrubada de árvores da região e disse que “vivia com a bala na cabeça” por causa das constantes denúncias contra madeireiros. “Vivo da floresta, protejo ela de todo jeito. Por isso, eu vivo com a bala na cabeça a qualquer hora, porque eu vou pra cima, eu denuncio os madeireiros, eu denuncio os carvoeiros e por isso eles acham que eu não posso existir”, disse.

Ele ainda declarou. “A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes querem fazer comigo. A mesma coisa que fizeram com a Irmã Dorothy querem fazer comigo. Eu estou aqui conversando com vocês, daqui um mês vocês podem saber a notícia que eu desapareci. Me perguntam: tenho medo? Tenho, sou ser humano, mas o meu medo não me cala. Enquanto eu tiver força pra andar eu estarei denunciando aquele que prejudica a floresta”, afirmou.

"Queremos um mundo em que o homem aprecie a natureza, viva cercado por ela e admire a castanheira, viva, na floresta, não como uma bela tábua em sua casa"

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=78ViguhyTwQ
https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=rsj9WqxdmSA

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Galeria dos Mártires - Irmã Irene Mc'Cormack, rsj

IRMÃ IRENE MC'CORMACK e Companheiros
Mártires pela causa da Paz
PERU * 21/05/1991

Irene Mc'Cormack afirmava ser uma menina vibrante, determinada e divertida. Foi educada pelas Irmãs de São José, em um colégio interno, em Santa Maria College, em Attadale Austrália Ocidental, onde ela disse ter desenvolvido seus dois grandes amores: servir a Deus e educar os jovens. Com a idade de 15, decidiu que queria ser freira. Ela se juntou às Irmãs de São José do Sagrado Coração em 1956 e passou alguns anos ensinando em áreas rurais da Austrália Ocidental

Após 30 anos de ensino em escolas australianas irmã Irene tomou a decisão de que queria servir os mais pobres e marginalizados, e seguiu em missão para o Peru em 1987 para uma obra missionária. O primeiro trabalho de Irene foi em El Pacifico, um subúrbio de baixa renda, em San Juan de Miraflores, Lima e Santa de Perola no Distrito de San Martín de Porres. Em 26 de junho de 1989, Irene continuou seu serviço missionário em Huasahuasi, na Cordilheira dos Andes a cerca de 200 km de Lima, junto com sua companheira, a irmã Dorothy Stevenson, assumindo a supervisão e distribuição de bens de emergência da Caritas Peru.

Irene organizou bibliotecas para as crianças pobres, que não tinham chance de obter livros para auxiliar na sua lição de casa. Ela também treinou ministros extraordinários da Sagrada Comunhão, e incentivava que fizessem visitas aos paroquianos em bairros periféricos.

Em 17 de dezembro de 1989, os sacerdotes de Huasahuasi foram avisados ​​de que eles estavam correndo perigo, sendo ameaçados pelo grupo guerrilheiro de Sendero Luminoso, e que eles e as duas irmãs deixassem a aldeia, que fossem para Lima. Irene, no entanto, sentiu que a igreja não podia abandonar os moradores naquele momento e voltou para a região em 14 de janeiro de 1990. Durante esse tempo, sem sacerdote residente, as irmãs Irene e Dorothy Stevenson continuaram servindo ao povo, na vida espiritual, com os serviços litúrgicos e catequéticos bem como na educação e alimentação.

Na noite de 21 de maio de 1991, um grupo de guerrilheiros de Sendero Luminoso entraram na aldeia, ameaçaram os moradores e saquearam casas, aterrorizando o povo. Quatro homens foram retirados de suas casas e levados para a praça central da cidade. Eram eles: o professor da Faculdade de Agricultura da Comunidade, Ruban Palacios Blancas, 54; o ex-vice-prefeito, Alfredo Morales Torres, de 56 anos; um membro do comitê da cidade vigilante, Pedro Pando Llanos e o delegado para a comissão Agustin Bento Morales, 50.
Os guerrilheiros também foram para o convento onde a irmã Irene estava sozinho, pois a irmã Dorothy estava em Lima para um tratamento médico. Eles ameaçaram explodir a porta do convento se ela não saísse, estando fora do convento ela foi levada para juntos dos quatro homens na praça central.

Durante uma hora as cinco vítimas foram interrogadas, julgadas e condenadas à morte. A população local intercedeu por suas vidas, dizendo que estas eram boas pessoas, não malfeitores. Mas Sendero Luminoso respondeu que não tinha vindo para um "diálogo", mas sim para "realizar uma sentença".

Os crimes cometidos pela irmã Irene e companheiros, eram por ela estar alimentando os pobres e educando as crianças locais. Foi acusada de distribuir "comida americana" (oferecida pela Caritas) e espalhando "ideias americanas" por fornecer livros escolares.
O povo insistia em dizer que irmã Irene era australiana, não americana, porém a guerrilha rejeitou isso como irrelevante. 

Durante a noite, um grupo de jovens da aldeia se reuniram em torno Irene na escuridão e conseguiu levá-la de volta para a multidão. Mas os guerrilheiros logo percebeu sua ausência e voltou-a para o banco na praça central. Os cinco presos foram obrigados a se deitarem de bruços sobre o chão da praça. Irmã Irene foi a primeira a ser executada, com um tiro na parte de trás da cabeça por uma menina-soldado, cerca de seis metros da porta da igreja, em seguida os quatro homens.

Uma vez que os corpos não puderam ser removidos da praça até que as autoridades dessem permissão, os paroquianos mantiveram-se em vigília à luz de velas e rezando. Em seguida, um grupo de mulheres a deitou fora na sacristia e fez por ela o que suas famílias fizeram para os homens mortos com ela. Em 23 de Maio de 1991, uma missa fúnebre foi realizada e Irene foi enterrada no cemitério Huasahuasi, em um nicho doado por um paroquiano.

Após mais 24 anos desde a sua morte, o nome de irmã Irene Mc'Cormack tem sido homenageada em muitas obras em favor da vida. A cada ano as irmãs de São José fazem memória do seu martírio, realizando uma semana de direitos humanos.

Superiora de sua congregação, irmã Anne Derwin, em vista a aldeia onde as freiras continuam seu trabalho missionário a exemplo da irmã Irene, disse que o esforço para que a santidade de Irmã Irene seja reconhecida, seria encaminhada pelo Bispo de Tarma, no Peru.

Disse o Bispo que as pessoas precisam de novos modelos de santidades e que o povo já declarou a santidade de irmã Irene. “Eles a chamam de santa Irene. Tem foto dela em cima do muro da cidade. E até hoje, as pessoas colocam flores em seu túmulo todos os dias”.

O irmão de Irene, John Mc'Cormack, está ciente do longo processo para a canonização de sua irmã e disse que ele ficaria orgulhoso se sua irmã torna-se uma santa.

“Seria muito significativa para a família. Mas, em certo sentido, nós já a consideramos santa, assim como o povo também a considera, mas esperamos que ela seja reconhecida oficialmente pela Igreja e tenha um lugar reservado em seus altares”.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Galeria dos Mártires - Chicão Xucuru

CHICÃO XUCURU
Mártir da Terra Indígena
PESQUEIRA - PE * 20/05/1998

Chicão Xucuru (Francisco de Assis Araújo) foi vitima de uma emboscada de três pistoleiros do latifúndio, na manhã do dia 20 de maio de 1998.  Já escapara de várias tocaias, de ataques planejados pelos fazendeiros.

Em 1995, a mando de fazendeiros, foi assassinado o advogado da Funai, Geraldo Rolim da Mota Filho, que prestava apoio jurídico ao povo Xucuru. Homem altivo e sereno, amável e inteligente, líder natural que sabia ouvir e orientar, Chicão tinha o poder que manava do reconhecimento e admiração do seu povo Xucuru. 

Grande líder da retomada das terras, sua perspectiva era recuperar a terra Xucuru invadida por 181 fazendas, cujos donos em boa parte são compadres e amigos do vice-presidente da república, Marco Maciel.

Zenilda, a esposa de Chicão, seus filhos, seu povo, vêm retomando a herança, regada com sangue pelo destemido Chicão, e afirmando a identidade e os direitos do povo Xucuru.

“Para nós, a gente tem a Terra como nossa Mãe. Então, se ela é nossa Mãe, é ela quem nos dá o fruto de sobrevivência, ela deve ser zelada e preservada a partir das pedras, das águas e das matas.

Os latifundiários, principalmente fazendeiros, madeireiros e garimpeiros, vêem a Terra como objeto de especulação, pra vender e ganhar dinheiro, cercar a Terra e criar gado, sugar o suor dos pobres, mas deixar o pobre morrer de fome, não só o índio como outras pessoas...”.

Poema: A mata Escura de Chico Farias/Daniel Macedo

A mata escura guarda um grito
na serra do ororubá.
A mata escura guarda um grito
na serra do Ororubá.

Grito, lamento infinito
espíritos de índios a vagar,
sementes que brotam de um sentimento
que nos levam a cantar a cantar...
Inconformados ancestrais
que inocentes nos "defenderam"
na Guerra do Paraguai.

E os carés tem que aprender
a verdadeira lição
Ororubá é Xucuru
Ta lá na confirmação quem da fé
é o pai tupã no ritual do toré

Grito, lamento infinito
espíritos de índios a vagar,
sementes que brotam de um sentimento
que nos levam a cantar a cantar...

Vídeo: O Outro Mundo De Chicão Xucuru - Mundo Livre S/A


Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Manoel Luís da Silva

MANOEL LUÍS DA SILVA
Mártir da Terra
SÃO MIGUEL DE TAIPU, PB * 19/05/1997

Manoel Luís da Silva, sem terra, assassinado por capangas a mando dos grande latifundiário.

O crime aconteceu em 19 de maio de 1997, quando alguns trabalhadores sem terra, ao voltarem de uma mercearia, nas proximidades do acampamento instalado na Fazenda Engenho Itaipu, sofreram uma emboscada preparada pelos acusados. 

Manoel Luiz da Silva foi assassinado com tiros de espingarda calibre 12 e o sem terra João Maximiniano da Silva foi ameaçado de morte. “Ele estava sob a mira das armas e depois de muito implorar, foi liberado pelos acusados”, detalhou o promotor de Justiça que acompanha há dez anos o caso, Aldenor de Medeiros Batista. 

Os acusados trabalhavam como capangas da Fazenda Taipú, área reivindicada pelos trabalhadores e trabalhadoras acampados na época – e onde hoje está localizado o assentamento Novo Taipú, conquistado pelos trabalhadores em 1998 -. O ex-proprietário da fazenda, Alcides Vieira, considerado pelos trabalhadores como mandante do crime, é conhecido pelo envolvimento em outros conflitos agrários na região, como o caso emblemático de violência contra os posseiros da Fazenda Quirino.

Abaixo, poema do livro: Raízes, memória dos Mártires da Terra, de Jelson Oliveira.

Manoel Luís da Silva

Tomba teu olhar como um relâmpago
- esse da chuva que não choveu mas foi sonhada,
e à terra entregou sua torrente.

Cinge-te o bálsamo e a folhagem,
secos sobre o vento, impetuoso e puro,
que amadurece a lentidão dos cajueiros
E o sossego de maio espanta
No azul sem fim da simplicidade...

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Galeria dos Mártires - Porfírio Suny Quispe

PORFÍRIO SUNY QUISPE
Mártir da Justiça e Solidariedade
PERU * 14/05/1991

Porfírio Suny Quispe, ativista e educador, mártir da justiça e da solidariedade no Peru. Professor camponês, deputado regional, casado e pai de sete filhas, incansável lutador social. Assassinado pelo Sendero Luminoso em Juliaca, Puno.

Professor das crianças mais pobres da cordilheria. Como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Comissão de Pacificação da região, “José Carlos Mariátegui” participa na criação de grupos de auto-defesa contra SL em Carabaya. Apesar de sua oposição pública à guerrilha em 1988 ele foi acusado pelo exército de senderista, portanto, preso e torturado. Ante tal injustiça, a Anistia Internacional considera-o um prisioneiro de consciência. Liberado, Porfírio não renunciar à defesa da verdade e da justiça, apontando todos os tipos de corrupção.

Como filho da terra indígena andina reivindica sua origem e sua cultura milenar, que ajuda a revalorizar entre seus irmãos. Educado em Escola Normal dos Padres Salesianos de Salcedo, Porfírio foi um homem de fé, encarnando o Evangelho até as últimas consequências.

Na Missa funeral, diante dos concelebrantes, as autoridades, a sua família enlutada e ao povo, Dom Jesús Mateo Calderon disse: “Porfírio nos deixa um testamento de sacrifício pela comunidade, de dedicação ao seu povo indígena pela preservação da sua cultura... Ele buscou a paz, a solidariedade, o pluralismo... É por isso que aperto a mão de Porfirio... porque ele foi um promotor da unidade”.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Mártires de Cayara

MÁRTIRES DE CAYARA
Mártires Pela Paz
PERU * 14/05/1988

Muitos estão em seus campos, colhendo milho. Outros voltam da procissão da Virgen del Carmen que aconteceu no dia anterior. De repente, como se brotando da terra, com os rostos pintados ou cobertos, a pé, a cavalo, em helicópteros, os soldados invadiram Cayara, Ayacucho. Eles vêm para vingar a morte de vários militares e soldados que no dia anterior caíram em uma emboscada do Sendero Luminoso.

Ao chegar, assassinam a Esteban Asto Batista. Dando tiros e insultando, eles fizeram entrar no templo cinco homens. Eles amarraram as mãos destes homens com correias. As mulheres foram lançadas para fora com ameaças de morte. Elas escutam gritos de dor. Outras patrulhas chutam as portas, roubavam, queimavam, destruíam tudo. Levam presos para o quartel vizinho várias pessoas. Levaram também a enfermeira, que estava vacinando as crianças. Os homens que retornavam do campo foram forçados a tirarem as camisas e se deitarem no chão. Os saldados colocaram cactos em cima dos homens e pisam sobre eles, para que os espinhos dos cactos enterrassem na carne deles.

E começam a matá-los um por um. Não desperdice balas: usaram facas, machados, martelos. São vinte e dois camponeses assassinados. Da mesma forma assassinam o diretor do colégio, Zósimo Taquiri Yankee. Todas as mortes foram executadas em frente de suas esposas. Os soldados pedem inutilmente as armas com as quais eles haviam “matado o capitão”. Porém os camponeses não sabiam o que aconteceu no dia anterior entre o exército e os guerrilheiros. Quando uma mulher tenta ajudar um dos feridos, um soldado os assassinam. Os condenados à morte sofrem torturas indescritíveis. Os sobreviventes tiveram que jurar silêncio absoluto.

Dois dias depois, chega o general Valdivia, chefe político militar de Ayacucho e prendeu vinte pessoas. Liberou dezesseis, os outros estão desaparecidos. As denuncias chegam até o Parlamento e a opinião pública. Deve-se esperar o relatório do Ministro da Defesa, mas a Comissão de Direitos Humanos da Câmara e o promotor Carlos Escobar, decidem investigar imediatamente. O exército os impedem de entrar em Cayara. No entanto, eles recebem os primeiros testemunhos. A versão oficial nega o massacre, enfocando a “emboscada sofrida pelo exército, em que dezoito rebeldes foram mortos, cujos corpos foram enterrados pelos soldados”.

Treze dias depois, a Comissão, o promotor e alguns jornalistas conseguem entrar em Cayara. Não encontram os cadáveres. Mas há vestígios e cheiro de morte ao longo do caminho. A comissão parlamentar presidida por Carlos Melgar, o partido no poder, visitar o lugar e chega a um acordo com o comando político-militar de Ayacucho. Nem se quer se reunir com o promotor Carlos Escobar.

O país inteiro se comoveu diante dos fatos. Os universitários de San Marcos saem pelas ruas e são brutalmente reprimidas pela polícia. Javier Arrasco morre com um tiro na cabeça e mais de mil estudantes foram detidos sob a acusação de terrorismo. Um grupo armado entra Cayara em 30 de junho e distribui folhetos do Sendero Luminoso que dizia: “Assim morem os informantes”. Sequestram quatro homens e duas mulheres. Alguns vizinhos reconhecem vários soldados entre os alegados senderistas. Os sequestrados estão desaparecidos. Coincidentemente são as testemunhas da matança. Só em 10 de agosto, o promotor e o juiz de Cangallo descobriram uma vala comum no monte Pucutuccasa. Eles exumam e identificam os corpos. A lista de novos mártires de Ayacucho está completa.

Seus nomes podem não aparecer no mármore dos heróis, porém, seu sangue se soma com as lágrimas de seu povo, que um dia terão terra, pão e justiça. 

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Massacre do Rio Sumpul

MASSACRE DO RIO SUMPUL
600 pessoas assassinadas
EL SALVADOR * 14/05/1980

Na aldeia salvadorenha de “La Arada”, e em seus arredores, mas amanhecia quando soldados da Guarda Nacional e da organização paramilitar ORDEN, apoiados por helicópteros, começaram a disparar, com uma violência ainda desconhecida de seus habitantes.

Mulheres foram torturadas, antes do tiro de misericórdia. Crianças de peito foram jogadas para o alto, para serem fuzilados. Os sobreviventes fugiram rumo à fronteira de Honduras. Tentaram alcançar a outra margem do rio Sumpul. Mas nenhum detalhe tinha sido esquecido. O massacre fora cuidadosamente preparado. O exercito hondurenho, que permanecera a postos, em frente ao rio, desde o dia anterior, fez voltar ao território salvadorenho todos aqueles que tentavam atravessá-lo.

Muitos morreram afogados. Especialmente as crianças. As águas do Sumpul tingiram de sangue e encheram-se de cadáveres. O genocídio terminou ao entardecer e ali jaziam 600 mortos, pasto par cães e aves de rapina.

Ninguém pode aproximar-se para recolhê-los ou enterrá-los. Poucos foram os que restaram para contar o horror daquele dia de sangue e pranto. Os governos de ambos os países negaram a matança, assim como os observadores da OEA. A primeira e corajosa denuncia veio da diocese hondurenha de Santa Rosa de Copán.

EL SOMBRERO AZUL

El Pueblo salvadoreño
tiene el cielo por sombrero
tan alta es su dignidade
en la búsqueda del tempo
en que florezca la tierra
por los que han ido cayendo
y que venga la alegría
a lavar el sufrimiento
y que venga la alegría
a lavar el sufrimiento.

Dále que la marcha es lenta
pero sigue siendo marcha
dale que empujando al sol
se acerca la madrugada
dale que la lucha tuya
es pura como una muchacha
cuando se entrega al amor
con el alma liberada.
Dale salvadoreño
que no hay pájaro pequeno
que después de alzar el vuelo
se detenga en su volar.

Al verde que yo le canto
es el color de tus maizales
no al verde de las boinas
de matanzas tropicales
las que fueron al Vietnam
 a quemar los arrozales
y andan por estas tierras
como andar por sus corrales.

Dale salvadoreño...

Hermano salvadoreño
viva tu sombrero azul
dale que tu limpia sangre
germinará sobre el mar
y será una enorme rosa
de amor por la humanidad
hermano salvadoreño
viva tu sombrero azul.

Tendrán que llenar el mundo
con del Sumpul
para quitarte las ganas
del amor que tienes tú

Dale salvadoreño...
Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Beatriz Carbonell Perez Weiss e seu esposo Horacio Perez Weiss, Maria Marta Ocampo de Vasquez Lugones e o marido, Monica Maria Candelaria Mignone, Maria Ester Loruso e Monica Quinteiro.


Beatriz Carbonell Perez Weiss e seu esposo Horacio Perez Weiss, Maria Marta Ocampo de Vasquez Lugones e o marido, Monica Maria Candelaria Mignone, Maria Ester Loruso e Monica Quinteiro.
Mártires da Paz e Da Solidariedade
ARGENTINA * 14/05/1976

Preso em suas casas Beatriz Carbonell Perez Weiss e seu marido, Horacio Perez Weiss, Maria Marta Ocampo de Vasquez Lugones e seu marido Cesar Amadeo Lugones; Monica Maria Candelaria Mignone. Maria Esther Lorusso Lammle, Monica Quinteiro (ex-religiosa das Irmãs de Misericórdia).

Eles realizavam trabalhos de promoção humana, social, religiosa e política na “villa miséria”  Flores (Buenos Aires) na Paróquia Maria Mãe do Povo. Sequestrado em 14 de maio de 1976, juntamente com os sacerdotes Orlando Yorio e Francisco Jalics, que em seguida foram liberados. Ao questionar o que havia ocorrido padre Orlando Yorio relata que eles foram transferidos para a Escola de Mecânica Naval, onde depois de serem torturados foram levados nos “voos da morte”.

Há profissionais, servindo aos irmãos pobres da villa miséria de Belém, capital da Argentina, é agora a expressão concreta do amor e do sentimento de justiça que beberam no Evangelho. Com sacerdotes que vivem ou trabalham naquela vila fazem jornadas de oração, catequese e apoio escolar, constroem um jardim de infância e alegram a oração com músicas e guitarras.

Las gestiones de Emilio Mignone, padre de Mónica, tan ligado a la jerarquía eclesiástica, y las del padre de María Marta, diplomático, son inútiles. Ellos nunca aparecen, pero su fe, su entrega y su alegría siguen animando a millares de jóvenes de Latinoamérica.

Naquela noite todos são retirados de suas casas. Também Monica Quinteiro, anteriormente religiosa e até pouco tempo catequista em Belém. Poucos dias depois de ser sequestrado na mesma cidade a padres jesuítas Orlando Yorio e Francisco Jalics e levados para a Escola de Mecânica Naval de ficar ausente por seis meses em condições subumanas. Se supõe que é o mesmo grupo que está envolvido em ambos os eventos e que Monica e seus companheiros foram torturados no mesmo lugar e, em seguida, morto.


Os esforços de Emilio Mignone, o pai de Monica, tão ligada à hierarquia eclesiástica, e do pai de Maria Marta, diplomata, são inúteis. Eles nunca aparecem, porém sua fé, sua entrega, e sua alegria seguem animando milhares de jovens na América Latina.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.