terça-feira, 25 de agosto de 2015

CONFERÊNCIA DE MEDELLÍN

CONFERÊNCIA DE MEDELLÍN - 26/08/1968

A II Conferencia Geral do Episcopado Latino Americano (CGELA) foi convocada em 1968, em Medellín, na Colômbia, por isso ficou conhecida como “Conferencia de Medellín”. Esta teve como objetivo fazer uma releitura dos documentos do Concílio Vaticano II, com o pensamento voltado para a realidade da América Latina, como nos mostra Dom Paulo Evaristo Arns “Medellín era como o Vaticano II traduzido para a América Latina”.

A Conferência de Medellín foi uma releitura dos documentos finais do Concílio Vaticano II, à luz da realidade em que vivia a população latino-americana. Segundo Alfredo César da Veiga: Medellín é fruto da liberdade que o Concílio concedeu aos episcopados nacionais de aplicar e adaptar as suas conclusões aos contextos de cada país. No entanto essa liberdade resultou em uma aplicação mais radical do que aquelas sugeridas nos documentos conciliares.

 Esta Conferência causou no continente latino-americano um impacto, talvez até maior que o impacto causado pelo Vaticano II, no mínimo. As formas com as quais se fazia a concepção de Deus, por exemplo, eram as mais variadas, fazendo alusão a um Deus que estava presente na pessoa do homem sofrido e marginalizado da sociedade, como nos mostra Gustavo Gutiérrez: O encontro de Medellín causou, para a América Latina, um impacto semelhante aquele do Concílio para o mundo, sobretudo no que diz respeito a uma concepção de Deus pouco baseada nos dogmas e tradições e mais na experiência que flui a partir do contato com os vencidos da história, “como os indígenas, os quais Las Casas denominava de Cristos açoitados da América.

Na Conferencia de Medellín, os bispos não partiram de um pré-suposto para a elaboração dos documentos finais, mais segundo Lucelmo Lacerda de Brito “Ao invés de partir da dogmática para fazer um documento abstrato, doutrinário, optou-se pelo método da Ação Católica, o Ver-Julgar-Agir, que partia da realidade para julgá-la aos olhos da fé e atuar nela a partir deste julgamento”.

A Conferência de Medellín nos remete a criação de uma teologia católica latino americana, a Teologia da Libertação, a questão mais importante de tal conferência e que vai mudar os caminhos da Igreja Católica na América Latina.

O termo libertação foi criado a partir da realidade cultural, social, econômica e política sob a qual se encontrava a América Latina, a partir das décadas de 60 e 70 do último século. Os teólogos desse período, católicos e protestantes, assumiram a libertação como paradigma de todo fazer teológico. A Teologia da Libertação é uma corrente teológica que engloba diversas teologias cristãs desenvolvidas no terceiro mundo que, a partir dos anos 1970, baseadas na opção preferencial pelos pobres, contra a pobreza e pela sua libertação. Desenvolveu-se inicialmente na América Latina.

Segundo Battista Mondin “A teologia da libertação é um movimento teológico que quer mostrar aos cristãos que a fé deve ser vivida numa práxis libertadora e que ela pode contribuir para tornar esta práxis mais autenticamente libertadora”.

No Brasil, temos como grande expoente da Teologia da Libertação o teólogo, Leonardo Boff, agente norteador do discurso teológico latino-americano. Segundo ele, “O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador do conceito de libertação. A libertação, então, é toda ‘ação que visa criar espaço para a liberdade’”.

Nesse sentido, a Teologia da Libertação é um caminho para a paz entre os conflitos gerados pelo preconceito e o egoísmo humanos, podendo ser um fator orientador de novo começo para uma sociedade igualitária onde a desigualdade e a pobreza possam fazer parte apenas de um passado esquecido. 

Contudo, podemos observar que são várias as manifestações e modificações que ocorreram na Igreja antes, durante e depois do Concilio Vaticano II, para uma transformação na atuação da Igreja e uma aproximação com os pobres. Como nos diz Veiga um esboço do que hoje chamamos de CEBs, mas, segundo Adelina Baldissera, é na Conferência de Medellín que realmente as CEBs vão se tornar realidade, não só no Brasil, mas em toda América Latina: A comunidade eclesial de base, como opção do episcopado brasileiro em 1966 tornou-se decisão do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) em 1968, na sua I Conferência em Medellín. A grande afirmação do Documento de Medellín, é que se deve levar a Igreja para viver em comunidades menores, cuja modalidade ninguém afirmou como deveria ser. O documento de Medellín é o primeiro ponto de referência mais sistematizado da igreja sobre as CEBs.

Com o advento das CEBs, aconteceram várias mudanças e releituras sobre a liturgia, o evangelho e, com isso, uma grande aproximação do povo com Deus veio à tona, pois, segundo Veiga, um dos grandes feitos das CEBs foi o rompimento com a figura do Deus barbudo criado por Michelangelo e cultivado pela Igreja no imaginário popular. Portanto podemos dizer que a Conferência de Medellín foi de extrema importância para o amadurecimento da fé e do compromisso social da população católica latino americana.

- ARNS, 2011. pag 237. APUD: BRITO, Lucelmo Lacerda de. Medellín e Puebla: Epicentro do confronto entre progressistas e conservadores na América Latina. Revista Espaço Acadêmico N111 Agosto de 2010 p 82.
-VEIGA, Alfredo César da. Teologia da Libertação: Nascimento, expansão, recuo e sobrevivência da imagem do excluído dos anos 1970 à época atual. São Paulo, SP, 2009. Tese de Doutorado s/p.
- GUTIÉRREZ, Gustavo. A força histórica dos pobres. Petrópolis: Vozes, 1981,.pág 35.
- BRITO, Lucelmo Lacerda de. Medellín e Puebla: Epicentro do confronto entre progressistas e conservadores na América Latina. Revista Espaço Acadêmico N111 Agosto de 2010.p. 83.
- MONDIN, B. Os teólogos da libertação. São Paulo: Paulinas, 1980.
- BOFF, Leonardo. Teologia do cativeiro e da libertação. Petrópolis – RJ : Editora Vozes, 1980.
- BALDISSERA, Adelina . CEBS poder, nova sociedade. São Paulo-SP. Editora Paulinas 1987. p. 56.

Luiz Ricardo Prado, Professor Mestre em História, pela Universidade Federal da
Grande Dourados e substituto do curso de História da
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul


no Campus de Aquidauana – MS

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