terça-feira, 30 de setembro de 2014

Galeria dos Mártires - Pe. Aldo Marchiol, Pe. Ottorino Maule e Catina Gubert

Pe. ALDO MARCHIOL, Pe. OTTORINO MAULE e CATINA GUBERT
Os três mártires de Buyengero, Burundi 
ÁFRICA CENTRAL * 30/09/1995


Pe. Aldo Marchiol (65 anos), Pe. Ottorino Maule (53), missionários Xaveriano e Catina Gubert (75), leiga missionária, os três de origem italiana, trabalharam muitos anos na diocese de Bururi, no Burundi. 

Tiveram a casa paroquial invadida por soldados burundienses, foram obrigados a ajoelhar-se e, em seguida, foram executados, cada um com um tiro na cabeça. Esses missionários receberam ameaças muitas vezes pelo exército do governo.

Pe. Aldo Marchiol











        Pe. Ottorino Maule          
                                                              

          
Catina Gubert




        




sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Galeria dos Mártires - Lázaro Condo

LÁZARO CONDO
Liderança Indígena
EQUADOR * 26/09/1974


Indígena camponês, cristão fiel e líder de sua comunidade, viveu as lutas e as esperanças de uma possível reforma agrária, concretamente em sua região de Riobamba. Os grandes proprietários de terra, apoiados pelo exército e polícia, impedem essa reforma. Atacam os dirigentes camponeses indígenas e a Igreja do grande bispo da Causa Indígena, Leônidas Proaño, tão solidária com seu povo. São assaltados, os templos e as casas paroquiais, mulheres e anciãos são golpeados e Lázaro, que tenta defendê-los, é fuzilado. No domingo seguinte recebe a homenagem da multidão indígena descida da montanha e, na homilia, seu bispo Dom Proaño lança o grito profético do Evangelho: “Lázaro, levanta-te e anda!”.

Fazemos memória dos 40 anos de seu martírio.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Galeria dos Mártires - Marlene Kegler

MARLENE KEGLER
Mártir da fé e do serviço entre os universitários de La Plata
ARGENTINA * 24/09/1976

Marlene Katherine Krug Kegler, estudante e operaria, mártir da fé e do serviço entre os universitários de La Plata, Argentina. Cristã e política, universitária de 23 anos, sequestrada e desaparecida em La Plata. 

Marlene pertence a uma grande família do Paraguai, de onde ela aprendeu sua fé e solidariedade. Morava na Argentina, enquanto estudava obstetrícia. Era uma moça espontânea, estava sempre pronta ao serviço, e tinha uma alegria contagiante de viver. Simples e humilde, apesar de sua vasta cultura. Carinhoso com sua família, ela não aceita que eles paguem todas as suas despesas e vai trabalhar como empregada doméstica. 

Sensível às injustiças sofridas pelos estudantes antes do encerramento da universidade e, fundamentalmente sensível ao sofrimento dos pobres, decide militar em um grupo ligado à Frente Anti-imperialista pelo Socialismo, FAS.

Sua paixão pela justiça e solidariedade é alimentada pelo Evangelho. Porém neste período acontecia a atuação impuni da Aliança Anti-comunista Argentina, AAA, caçadora feroz daqueles que buscavam uma sociedade mais justa. Tal como aconteceu com os secretários acadêmicos Achem e Miguel, resultando em um protesto gigante, violentamente reprimidas pela polícia e no qual participa Marlene. 

Um dia, enquanto espera o ônibus na frente da faculdade, parou um carro com quatro homens, três dos quatros homens aproximaram-se de Marlene tentando a força colocá-la no carro, ela resistiu, agarrando-se a uma coluna de iluminação pública e proferindo gritos de socorro, mas não conseguiu evitar ser arrastado para o carro. Tudo isso em meio a espancamentos, insultos e tiros para o ar, para evitar que aqueles que testemunharam o sequestro, não pudessem ajudar a vítima.

Por fim, o carro fugiu a toda velocidade. Testemunhas disseram mais tarde que um dos sequestradores deixou cair um emblema da polícia, que foi dado aos soldados do Exército que chegaram ao local quase imediatamente, para inspecionar a área em busca dos sequestradores. E disseram que a operação não foi bem sucedida.

Além disso, o decano de Medicina, Manuel García Mutto, aproximou-se da cena e disse, sem mais, que Marlene não era estudante da faculdade.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Galeria dos Mártires - Eugênio Lyra

EUGÊNIO LYRA
Advogado dos Trabalhadores Rurais, Mártir da Justiça
SANTA MARIA DA VITÓRIA – BA * 22/09/1977

Eugênio Lyra nasceu no dia 08 de janeiro de 1947. Começou a frequentar uma escola particular com apenas cinco anos e aos sete, ingressou numa escola pública. Gostava muito de ler e lia tudo o que via.

Não gostava de brincar, não sabia jogar gude, nem bola e nem outros brinquedos que as crianças gostam.

Sempre foi muito estudioso, esperto, prestativo, principalmente com as pessoas mais humildes e velhas. Era muito preocupado comigo, com os irmãos e com as pessoas do seu relacionamento. Isto desde pequeno.

Aos onze anos, ingressou no Colégio Marista. Sempre foi um aluno muito esforçado e de ótimo comportamento. Aos quinze, concluiu a 4º série do ginásio e mudou-se para Salvador, onde deu continuidade aos estudos. Morava em uma pensão, no quarto dos fundos, local em que passou horas amargas e grandes sacrifícios para alcançar o que ele mais desejava.

Fez o científico no Colégio Central, onde conheceu Lúcia, sua colega e amiga. Juntos fizeram o vestibular, passaram e continuaram os estudos na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Desta amizade nasceu o amor. 

Ainda estudante, aos dezoito anos, lançou seu primeiro livro, intitulado Fogos Fátuos. Em 1968, aos vinte e um anos, lançou Abismos, livro, assim como o primeiro, de poesias.

Em 1969, quando estava estagiando, a primeira causa foi de uma humilde senhora que estava para perder a casa. Eugênio fez todo o possível para que ela permanecesse no imóvel.

Formou-se em 1970, no dia 08 de dezembro. Um ano depois, casou-se com Lúcia e juntos, na mesma profissão, instalaram um escritório na Rua Chile, em Salvador, onde atenderam por algum tempo.

Sendo chamado para trabalhar em diversos sindicatos, viajava para atender em várias cidades do interior baiano tais como: Feira de Santana, Riachão do Jacuípe, Cachoeira, Santo Antônio de Jesus, dentre outras. 

Em 1976, no dia 05 de abril, foi transferido para Santa Maria da Vitória, onde fixou residência, atendendo aos trabalhadores e lutando pela devolução das terras dos camponeses que tinham sido tomadas pelos grileiros. Ele se sentia bem em lidar com aquela gente sofredora, que precisava de alguém humano que fizesse algo por eles: recebia a todos que o procuravam e atendia com carinho e atenção aquela gente humilde. Buscando sempre ajudá-los, sentia-se feliz ao lado deles. 

Um dia foi convidado por um grileiro que lhe ofereceu uma boa quantia para que ficasse ao lado dele, contra os lavradores. Ele agradeceu dizendo que ficaria com os lavradores, que precisavam dele. Deste dia em diante, começaram as ameaças e perseguições. Mesmo assim, ele não acreditava que alguém tivesse coragem de lhe fazer o mal. 

Ele e Lúcia já estavam casados há seis anos. Ela estava esperando um filho e estavam felizes. Mas a felicidade durou pouco... 

Eugênio vinha a Salvador para depor na CPI da grilagem. Viria na sexta-feira, não sabendo que as autoridades de lá (como o delegado de polícia e o regional, que era na época Eymar Portugal Sena Gomes) estavam aliadas aos malditos grileiros e haviam contratado o pistoleiro Wilson Gusmão por Cr$ 40.000,00 (quarenta mil cruzeiros) para executar o bárbaro crime, antes da vinda dele para Salvador. 

Nesta época, Lúcia estava no quinto mês de gestação e como vivia assustada não deixava que ele saísse sozinho. Andavam sempre juntos. E foi então que na quinta-feira, 22 de setembro de 1977, na porta da barbearia de Santa Maria da Vitória, aconteceu a triste tragédia: Eugênio, aos 30 anos, fora vitimado, fatalmente, com uma bala na testa, caindo aos pés de Lúcia, que ainda correu atrás do pistoleiro. 

E assim fizeram parar a vida do jovem advogado que lutou e deu seu sangue pelos lavradores, deixando, além da família, uma criança inocente, a maior vítima deste bárbaro crime: a pequenina Mariana. 

Aqui termina, com um trágico fim, a história de uma criança boa, inteligente e jovem; que não teve infância, nem juventude: seu mundo foi os livros, sua família e a luta ao lado dos trabalhadores.

É com muita amargura e com o coração traspassado que narrei à vida do meu inesquecível filho EUGÊNIO LYRA
Dona Maria Lyra, 1981

Abaixo um poema escrito por Eugênio Lyra para sua esposa:

“Plantemos novas sementes,
colhamos frutos maduros,
rompamos todas as frentes
e obstáculos futuros.
Sejamos mais conscientes
e, juntos, onipotentes,
prostremos todos os muros.”

Do teu, para sempre,
Eugênio – 14/04/71

Galeria dos Mártires - Antônio Conselheiro

ANTÔNIO CONSELHEIRO
Patriarca do Povo Sertanejo
CANUDOS – BA * 22/09/1897

Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro por antonomásia, nasceu no sertão do Ceará em 1829, na cidade de Quixeramobim. Desde a juventude sentiu e percebeu as injustiças praticadas contra o povo pobre do sertão e se acendeu nele a paixão pela libertação desse povo. 

Tornou-se educador e missionário leigo, e em suas peregrinações pelo sertão por mais de 20 anos, foi deixando por onde passava, marcas de sua fé e de seu compromisso social, construindo, em mutirão, barragens, açudes, capelas, cemitérios. Conquistando com sua palavra e seu testemunho o povo do sertão, que na época “vivia abandonado pela Igreja, acorrentado pelos coronéis, perseguido pelo Estado”.

Depois dos 20 anos de peregrinação pelo Nordeste, amado do povo e incompreendido ou perseguido pelas várias autoridades, Conselheiro sentiu de perto o atraso sistemático e o descontentamento das massas populares e resolveu, por volta de 1893,  colocar em prática seu objetivo de formar, com nordestinos retirantes, uma comunidade igualitária:  Belo Monte (Canudos), na região do Raso da Catarina, cortada pelo rio Vasa-Barris.

Rapidamente a comunidade cresceu e em poucos anos tornou-se uma das maiores cidades do Nordeste, com 25.000 habitantes. Ordeira, religiosa, produtiva, comunitária.

A reação dos coronéis, dos políticos e de setores da Igreja não se fez esperar e começou a guerra de Canudos, a maior guerra camponesa do século XIX. As três primeiras expedições militares foram derrotadas pelos sertanejos. A quarta expedição da polícia e do exército, munida de milhares de homens e de potentes canhões conseguiu destruir, à 5 de outubro de 1897, a grande cidade comunitária do Brasil.

Até o último sobrevivente foi degolado, incluindo as crianças.  Canudos virou cinzas, mas virou também, por seu sonho e resistência, bandeira de luta e de esperança do outro Brasil que almejamos.

Canudos vive e vive Antônio Conselheiro, patriarca do povo do sertão.

Texto retirado da Galeria dos Mártires, no Santuário de Ribeirão Cascalheira, MT

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Galeria dos Mártires - Pe. Joan Alsina Hurtos

PE. JOAN ALSINA HURTOS
Testemunho da Fé na América Latina
CHILE * 19/09/1973

Jovem sacerdote catalão, chegou ao Chile por meio da OCSHA (Obra de Cooperação Sacerdotal Hispano-Amaricana) em 1958. Jovial, destemido, generoso, com um claro carisma pela Pastoral Operária, viveu coerentemente seu sacerdócio e seu compromisso social, ao serviço do povo, de quem foi sempre um companheiro. Foi assessor de vários grupos cristãos.

Trabalhou no Hospital San Juan de Dios, viveu como operário num bairro de Santiago e foi, sobretudo, profeta da Palavra. Nos finais de semana celebrava a missa em um bairro operário ou ajudava nas paróquias vizinhas. Foi capelão dos grupos de Ação Católicas.

Depois do golpe militar chileno de 11 de setembro de 1973 de derrubou o presidente Allende, continuou indo ao trabalho no hospital dizendo que lá estaria mais seguro, além disso, no hospital havia muita gente em reais dificuldades que necessitava dele. No dia 19 daquele mês foi levado pelos militares. Seus amigos passaram vários dias procurando por ele. Em 26 de setembro, o cônsul espanhol avisou que seu corpo estava no necrotério (fora encontrado no dia 20). 

Na missa fúnebre foi concelebrada por mais de quarenta sacerdotes. Segundo o médico que efetuou a autópsia a pedido do cônsul, ele tinha no corpo mais de 10 perfurações de bala, todas disparadas pelas costas. Havia chegado a necrotério às 10:30h da manhã do dia 20, em um caminhão juntamente com outros cadáveres achados debaixo da ponte Bulnes no rio Mapocho.

Nas horas antes do seu martírio deixou-nos um dos mais belos textos martiriais desse nosso século latino-americano: seu “Testamento”. O próprio soldado que o fuzilou dá testemunho da serenidade cristã com que Joan deu a vida: Ele me disse: ”por favor, não me vendes os olhos, mata-me de frente porque quero ver-te para te dar o perdão”... Levantou o olhar para o céu,... pôs as mãos sobre o peito... e disse: “Pai perdoa-os!”.

Segue abaixo carta-oração escrita por Joan Alsina:

Por quê?
Queríamos colocar vinho novo em odres velhos e acabamos ficando sem odre e sem vinho... no momento.
Concluímos o caminho, abrimos uma trilha e agora estamos nas pedras. Os que ainda continuarão andando... Até quando? Pode ser que encontremos algumas árvores para nos guarnecer das balas.
- Nenhum dos que molharam o pão nas panelas do Egito, verá a Terra Prometida, sem passar antes pela experiência da morte.
- Já não há profetas entre nós, apenas o bezerro de ouro. Não falta nada por dois dias.
E como não podemos falar, engolimos a saliva. Temos saudades do pão seco compartilhado, comido entre risos e sorrisos.
Nós não tínhamos entendido as palavras de São Paulo: "Nós todos vamos ser testado pelo fogo". E quanta palha queimada! Onde estão agora os que queriam chegar às últimas consequências?
- Permitiram-nos fazer um jogo tão nojento, com possibilidades tão limitadas, que nós mesmos nos saturamos. "Santa Democracia, rogai por nós!"
É fácil resignar-se - tão fácil pregar a resignação - com a perda. Porque perder significa deixar de ter e começar a ser. E aqueles que mais tinham e continuam a possuir, são os que menos eram; eram menos, mas tinham o poder e força.
“E Verbo se fazia carne”. E isto não toleramos. É o escândalo da cruz. Nunca Suportamos.
Respeitaremos todas as ideologias... enquanto não tentem tornar-se carne e realidade. Se ousarem, fá-la-emos sangue e carne massacrada.

E agora?
São muitos pessoas que foram identificadas e purificadas. Setenta e dois disseram. Quarenta mil estavam no êxodo. E aqui também, de um lado e outro.
Que importa?
O povo é tropa, evidentemente; "Faremos uma país novo, livre e independente". Outras Vozes, outros âmbitos. Não, as vozes são as mesmas, e a dialética também. Falta de conexão interna. Não sabem quem sou, de onde eu venho e para onde vou. Chegarei a casa. Este me olha. Aquele pode me prender. Esconder-te.  Depender de uma senha, de uma instituição, de uma confissão arrancada. Suor, frio, calor. Uma cela pequena, solitária, fria. Quem está do outro lado do telefone? Quem chama à porta a esta hora? Não sei o que vou fazer somente o que me farão. E o mais doloroso: por quê? Agora entendo quando me falam da luta contra o medo. E ainda continuam os disparos. Principalmente a noite. Isto é a insegurança e a consciência da insegurança, o medo.
Quem contra quem? Pessoas, pessoas, pessoas. De um lado e do outro. Eles estão mortos; ou em fuga; ou estão lá em cima. Estratégias, decretos, declarações! E o povo dormindo ou morto. É a impotência. O sangue ferve. As palavras não saem. E pensar que - palavras e ações estão fadadas ao pó e a carne esmagada e massacrada.
E a nossa Mãe? (Igreja)
Não se pode improvisar.
O equilíbrio serve somente para os tempos de 'paz'.

Esperanças
Se o grão de trigo não morrer, nunca dará frutos. É terrível um monte incendiado, mas é preciso ter esperança de que, da cinza molhada, negra e pegajosa, volte a germinar vida.
Descobrimos a vida em cada dia, em cada minuto. Descobrimos os valores dos pequenos gestos de cada momento. O riso na rua triste; a voz amiga em código no telefone; a preocupação pelos caídos; a mão estendida; a fase que ousa dizer uma piada.
Lembro-me de uma passagem de Saint Exupéry, em Vôo Noturno. Ele estava voando não sei sobre qual país, quando só então captou o sentido da casa , da montanha solitária, da luz, das ovelhas, do pastor. Para entender o sentido das coisas é necessário que nos distanciemos delas ou que delas nos distanciem.
Agora eu entendo as palavras de São Paulo: "A caridade não se inchar". (I Coríntios, 13). A verdade está escondida, porque é a Palavra feita carne. Somos como ovelhas levadas ao matadouro. Em tuas mãos entrego o meu espírito. Isto não é literatura. Nos momentos cruciais temos que empregar símbolos. Caso contrário, nós não poderíamos expressar.
Esperamos vossa solidariedade. Entendes agora o que significa o corpo de Cristo? Se nos afundamos, é algo da esperança que se afunda. Se com as cinzas brotar nova vida, é algo que nasce de novo dentro de vós.

Adeus a todos. Ele sempre nos acompanha onde quer que estejamos.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Galeria dos Mártires - Miguel Ángel Quiroga Gaona

MIGUEL ÁNGEL QUIROGA GOANA
Religioso e Mártir
COLÔMBIA * 18/09/1998

Miguel Ángel Quiroga Gaona, nasceu em Facatativá, Colômbia, a 01 de outubro de 1972, filho de Susana e Gustavo Quiroga Gaona. Ele começou o pré-noviciado em Bogotá, em 1990, na comunidade do Perpétuo Socorro. Entrou para o noviciado em 1991, em San Clemente (Risaralda). Fez os primeiros votos em Bogotá, em 12 de dezembro de 1992.

Trabalhou em Lloró um ano e logo depois foi para a casa de estudos para fazer a faculdade. Graduou-se em Ciências Sociais na Universidade Pedagógica em dezembro 1997. Enquanto fazia universidade, foi professor no College Interparroquial no sul de Bogotá.

Desde janeiro de 1998, ele trabalhou na paróquia de Lloró, (Chocó).

Sua Morte

Aconteceu em 18 de setembro de 1998, na selvas de Chocó. No Rio Atrato, perto da cidade Lloró, um grupo de cerca de 20 paramilitares fortemente armados pararam os dois barcos que viajavam Michel, junco com pároco José Maria Gutierrez, SM, e um grupo de cerca de 40 agricultores da região. Eles estavam indo para uma aldeia para celebrar as festividades.

Os paramilitares exigida a identificação de todos. Michel e José Maria disseram que eles não tinha autoridade para fazer isso, que era ilegal. O líder paramilitar então se aproximou do grupo e sem uma palavra, atirou para o coração do religioso, que morreu na hora.

Sua Ressurreição

"Ali com sua querida população negra, pobre entre os pobres da Colômbia, desenvolvia sua missão, cheio de entusiasmo, criatividade e alegria, as características que marcaram sua vida"(Cecilio Lora)

"Bem-aventurados os perseguidos como você, Michel, para a prática de justiça, defendendo aos pobres e reclamar os direitos da pessoa humana"(Homilia no Funeral)

Suas palavras

"Se não mudarmos as posituras do coração, que não podemos mudar o nosso país".

"Eu descobri que Deus me chama a unir minha vida a Jesus, trabalhando com generosidade para com os pobres". (Junho de 1990)

"Agradeço a Deus por todo esse tempo de graça, durante este ano de experiência pastoral no meio do povo chocoano... Viver este contexto de sofrimento e alegria, opressão e de esperança, morte e vida... enriqueceram minha vida Marianista"(Setembro 1993)

"Tenho do desejo de me entregar totalmente no serviço, por aqueles que nada tem. Para mim este entrega é o seguimento de Jesus na vida Marianista". (Outubro de 1997)

Sua oração

Fez esta oração todos os dias depois da comunhão:

Senhor Jesus, una tua vida com a minha vida,
una minha vida com a sua vida,
una nossas vidas com a vida dos demais,
para que eu saiba compartilhar e ser irmão,
e ir construindo neste mundo,
o Reino de Deus, nosso Pai ,
na justiça, vida e libertação
para os pobres e oprimidos,
desde nossa caminhar Marianista
tu trazes pegadas de ressuscitado.
Amém.

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abaixo musica feita pelo Michel
 http://www.marianistas.org/pastoral/michel/folleto.htm





Galeria dos Mártires - Pe. Miguel Woodward Iribarry

Pe. MIGUEL WOODWARD IRIBARRY
Mártir do povo chileno
CHILE * 18/09/1973

Miguel Woodward Iribarry nasceu em Valparaiso, Chile dia 15 de dezembro de 1930, filho de pai Inglês e mãe chilena. Fez estudos secundários na Inglaterra em um colégio interno dirigido por monges beneditinos. Aos 18 anos começou a estudar engenharia, graduando-se em Engenharia Civil em 1950 no King College Universidade de Londres, e logo depois voltou para o Chile e entrou para o seminário. Foi ordenado padre diocesano na Catedral de Valparaiso em 1961 pelo  Bispo Raúl Silva Henríquez.

Como muitos sacerdotes daquela época, imbuído pelo vento transformador do Concílio Vaticano II, quis ser um padre operário, e passou a trabalhar como torneiro em um estaleiro do porto de Valparaíso e foi também professor de CESCLA (Centro de Estudos e Capacitação para o Trabalho) da Universidade Católica de Valparaíso. Suas opções evangélicas foram cada vez mais radicais em sua caminhada ao lado do povo explorado.

Em 1969, ele renunciou a Paróquia Penablanca e juntou-se ao exercício religioso público: Ele construiu uma casa em no vilarejo de Progreso, em Cerro Pleasures de Valparaíso, onde liderou uma comunidade religiosa. Fazia parte do Movimento Cristão para o Socialismo e simpatizava com o governo de Salvador Allende. Entrou para o partido MAPU (Movimento de Ação Popular Unitária) e era um líder local dos Conselhos de Abastecimento e Preços (JAP) lideradas pelo general Alberto Bachelet. Em seguida, ele entrou em conflito com as autoridades eclesiásticas de Valparaiso, por isso foi removido das práticas sacerdotais pelo Bispo Tagle Emilio Covarrubias.

Pe. Miguel Woodward foi preso por membros da Inteligência Naval em 16 setembro de 1973, em sua casa em Cerro Placeres, Poblacion Heróis del Mar, no rescaldo do golpe militar. Ele foi levado para um quartel e, em seguida, para o navio Lebu, onde começaram as torturas, após a tortura quase fatal, Woodward foi transferido para o Esmeralda - um navio utilizado ​​pela Marinha do Chile como centro de detenção e tortura dos prisioneiros políticos após o golpe militar de 11 de setembro de 1973.

Conforme o testemunho do segundo no comando do Esmeralda, Eduardo Barison, Pe. Miguel Woodward morreu a bordo do navio por excessiva tortura  infligida. O certificado oficial de mortos indica a parada cardíaca como a causa da morte, enquanto a promotoria argumenta que Woodward morreu em consequência de hemorragia interna causada pela tortura.

Depois de sua morte, foi enviado para a família na Inglaterra, uma certidão de óbito, em que dava como causa da morte parada cardíaca. No entanto, a Marinha escondeu o corpo e falsificou a sua certidão de óbito, enterrando-o presumivelmente, no Cemitério de Playa Ancha, 25 de setembro, em uma vala comum.

O Tribunal de Apelações de Valparaíso, investigando o desaparecimento do sacerdote chileno-britânico e ativista MAPU Miguel Woodward Iriberry, determinou que os agentes envolvidos não vai servir a qualquer pena de prisão. José Manuel García Reyes e Héctor Fernando Palomino López foram condenados a três anos e um dia na prisão, mas concedeu o benefício da liberdade condicional. Atilio Manuel Leiva Valdivieso foi absolvido em razão da demência. Os agentes restantes, Carlos Alberto Miño Muñoz, Marcos Cristián Silva Bravo, Guillermo Carlos Inostroza Opazo, Luis Fernando Pinda Figueroa e Bertalino Segundo Castillo Soto foram absolvidos por falta de provas da participação.

O caso de Miguel Woodward faz parte das relações complexas e confusas, que viveu no Chile, a Igreja e o Estado, nos anos de 1970 e 1980.

A Universidade King College, para demonstrar que sua memória é mantida viva, estabeleceu um premio chamado “Miguel Woodward”, para o estudante que se destacasse não só pelo estudo, mas especialmente por suas qualidades humanas.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Galeria dos Mártires - Pe. Guadalupe Carney

Pe. GUADALUPE CARNEY
Revolucionária e Mártir do Povo Hondurenho
HONDURAS * 16/09/1983

Pe. Guadalupe Carney nasceu em 1924 em Chicago, Estados Unidos. Seu nome original é James Francis Carney, de família de classe média trabalhadora, e desde cedo percebeu a vida burguês em que vivia. Serviu como soldado na França e na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial; e por mais estranho que pareça, ele pensou que era preferível deixar-se matar ao invés de matar um soldado inimigo.

Além disso, sua obstinada resistência à autoridade o colocou em apuros às vezes, em uma ocasião passou um tempo na prisão porque se recusou a parar de conversar com prisioneiros alemães. Ele tinha o sentimento e a consciência de que todas as pessoas deveriam ser tratadas com dignidade e respeito.

Sua fé era profundamente importante para ele. No entanto, ele ficou surpreso com o quão pouco a religião parecia importar para muitos cristãos, tanto em seus anos de Exército e, mais tarde, nos estudos universitários. Ele também foi profundamente tocado pela extrema pobreza dos norte-africanos muçulmanos que tinha visto em França, e se perguntava indignado; por que o ser humano tem que viver em tais dificuldades.

Todas estas experiências despertou um desejo de tentar mudar a maneira como as pessoas vivem no mundo. Em 1948, entrou na Companhia de Jesus, para responder o chamado, tornando-se um missionário jesuíta em Honduras. Comunistas e cristão mesmo antes de sua formação no seminário, em seus anos de faculdade, ele trabalhou na fábrica da Ford em Detroit. Lá, ele percebeu e foi incomodado por um estranho fenômeno: ele manteve encontro com os comunistas ateus que procurava lutar e a trabalhar para uma sociedade justa e um mundo melhor, enquanto muitos cristãos dava mais atenção ao ficar à frente e à busca da riqueza e do prazer.

Ele se convenceu de que o sistema capitalista era intrinsecamente mau, promovendo uma atitude egoísta, individualista e competitiva. Mas ele também rejeitou os sistemas marxistas da Rússia e da China, que parecia perder o valor da pessoa humana na coletividade do estado. Ele continuou em busca de outro caminho, uma forma de socialismo onde as pessoas compartilham o que têm, como os primeiros cristãos descritas nos Atos dos Apóstolos.

Chegou a Honduras em 1962, já como sacerdote jesuíta, animado pelo ideal do Concílio Vaticano II, do serviço radial aos pobres, e pela convivência com as comunidades campesinas e com os pobres, e participando de suas lutas, se transformou como ele mesmo disse em suas memórias, “de um gringo burguês em um lutador revolucionário”.

 Neste país pobre da América Central, Carney argumentou que, tal como o Filho de Deus tornou-se plenamente humano como um de nós, então ele teve que realmente tornar-se um com o hondurenho campesino. Como Saul tornou-se Paulo para significar a sua nova vida em Cristo, Carney tornou-se Guadalupe para simbolizar sua total identificação com o povo hondurenho. Por fim, e depois de anos de trabalho neste país, ele se tornou um cidadão de Honduras e renunciou ao seu direito de cidadão americano.

Em seu livro “ser um revolucionário”, ele elaborou suas ideias sobre a formação espiritual. Estudos teológicos tradicionais, ele acreditava, pareciam formar sacerdotes no serviço do status quo, a classe média confortável vive em sua maioria dentro do sistema capitalista e escondido nos ideais imperialistas dos Estados Unidos.

Pe. Guadalupe afirmou que foram os pobres camponeses de Honduras que realmente lhe ensinou o Evangelho, a Boa Nova que Jesus trouxe, e que a classe burguesa não pode realmente entender o que significa "levar a Boa Nova aos pobres".

A história de sua vida tem o direito de ser reconhecida como uma história de um revolucionário, porque o Pe. Guadalupe acreditava firmemente que como cristão, tinha que ser um revolucionário, e viver a radicalidade do evangelho, para se ter uma vida cristã plena. O Evangelho é revolucionário. Guadalupe viu e compreendeu os problemas dos pobres. Ele viu como as empresas de frutas americanas haviam tomado as melhores terras e plantações. Eles e alguns hondurenhos ricos controlava cerca de 95% da riqueza do país. O resto das pessoas vivia em extrema pobreza.

As tentativas de organizar sindicatos muitas vezes levaram às mortes e desaparecimentos de seus líderes. Em um vídeo raro ele diz: "a forma como os camponeses são tratados é totalmente inaceitável por Deus e isto deve ser mudado”.

Em uma história datada de 20 julho de 1966 no National Catholic Reporter, Pe. Guadalupe é defendido por seu superior jesuíta Padre Fred Schuller. Este, sem reservas, descreveu o trabalho de Guadalupe como "o da igreja". Chamado de comunista pela rica família Borgan, Guadalupe foi acusado de "agitar os camponeses e pregando a subversão contra o governo de Honduras". Schuller afirmou que essa falsa acusação era típico", era o que estavam sujeitos aqueles que defendem os pobres, serem insultados e tido como subversivos.

A igreja não podia ficar em silêncio enquanto seus filhos pobres estavam sendo explorados e muitas vezes martirizados por tentarem lutar por seus direitos elementares. Eventualmente Pe. Guadalupe escolheu viver sozinho em suas pequenas igrejas de missão onde dividiu completamente a vida e a pobreza de seu povo. Por sua identificação com o povo Ele ensinou os caminhos da teologia da libertação: Cristo veio para libertar as pessoas e estabelecer um reino da justiça e da paz. E estes ensinamentos tornou-se parte significativa da luta do povo para tornar isso uma realidade.

Houve momentos em que o governo de Honduras teria aprovar leis que dão grandes extensões de terra para os camponeses pobres, de modo que eles teriam uma melhor chance de sobreviver; em seguida, as empresas e os ricos proprietários de terras influenciariam novos governos para tirar os direitos do povo de ter suas próprias terras.

Foi muitas vezes que fizeram ameaças como: "padre comunista, será morto se não parar de se intrometer em assuntos políticos”. Em seu trabalho paroquial Pe. Guadalupe foi de aldeia em aldeia fazendo seus deveres religiosos, mas também falando contra as injustiças feitas aos pobres; e ele ajudou a organizar os sindicatos hondurenho. Mais ameaças foram feitas contra a sua vida. Em 1979, o Padre Carney foi preso, teve sua cidadania hondurenha ilegalmente revogada e foi expulso do país.

Ele escreveu sobre sua vida e seus ideais, enquanto vivia na Nicarágua. Eventualmente, ele voltou para Honduras para ser capelão das forças revolucionárias. Em 1983, aos 58 anos de idade, "Padre Guadalupe", agora uma lenda entre os pobres de Honduras, tornou-se um capelão para uma coluna armada revolucionária, que mais tarde foi capturado pelo exército, que afirmou que "Pe. Carney tinha desaparecido". Mais tarde, as autoridades apresentaram a estola e cálice aos seus parentes, o que sugere que ele tinha "provavelmente morrido de fome nas montanhas". Esta forma de ocultar a verdade sobre a morte do Pe. Guadalupe não foi aceita por seus familiares, já que ele tinha habilidades para sobreviver na selva. Isto cheirava como uma maneira de encobrimento da verdade por parte da justiça hondurenha e seu irmãos, irmã e um amigo jesuíta ficaram por cerca de 20 anos em busca de informações sobre a sua morte junto ao governo de Honduras.

O governo de Honduras veio com cerca de seis histórias diferentes. Depois de tentarem de toda forma de ocultar a verdade, em 19 de agosto de 1985, um memorando revelava oficial em que sustentava que ele havia morrido de fome, surge uma testemunha para desmentir, Senhor Cabelleros, um refugiado hondurenho e um ex-membro dos esquadrões da morte hondurenhos. Ele confirmou o envolvimento da CIA e disse que tinha ouvido de outras pessoas que Padre Guadalupe tinha sido assassinado e fora jogado de um avião na selva.

A vida de Guadalupe é tanto um testemunho eloquente do sacerdócio e do chamado cristão para o discipulado. Em uma época de ufanismo onde o evangelho radical de Jesus é frequentemente subvertido pela corrosão sedutor do nacionalismo, Carney lembra a todos os batizados, onde o nosso compromisso deve se centrar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Galeria dos Mártires - Arturo Hillerns

ARTURO HILLERNS
Médico Cristão, Mártir do Serviço aos Pobres
CHILE * 15/09/1973


“Para Arturo a fé cristã não era uma fórmula, nem um rito, mas um compromisso de serviço ao próximo, sem limitações”, testemunha uma companheira de trabalho desse médico de vinte e nove anos, casado, com um filhinho, sequestrado na madrugada por vinte policiais de Temuco e desaparecido... Fora presidente da Associação Universitária Católica e, já médico, se entrega com todo carinho e disposição á atenção dos mais pobres, sendo nomeado diretor zonal do Serviço Nacional de Saúde, por sua capacidade organizativa. “Seu projeto de vida estava ligado à libertação de seu povo, e não a ganhar dinheiro ou fazer carreira como médico”, disse dele um sacerdote amigo. 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Galeria dos Mártires - Steve Biko

STEVE BIKO
Mártir da Liberdade e do Direito do Povo Negro
ÁFRICA DO SUL * 12/09/1977


Steve Bantu Biko, mais conhecido por Biko, nasceu em King William na África do Sul, a 18 de Dezembro de 1946. Quando ainda adolescente foi expulso da escola Lovedale, em King William’s Town, com a alegação por parte da direção da escola de que ele tinha “comportamento subversivo”. Foi transferido para outra instituição na região litorânea de Natal. Terminando o ensino médio, ingressou na Escola de Medicina da Universidade de Natal, na seção destinada aos negros. Era a década de 60 do século passado, e o país estava em plena Apartheid.

Tornou-se um ativista estudantil. Em 1968, com outros companheiros de luta fundou a SASO (South African Students' Organisation - Organização dos Estudantes Sul Africanos) rompendo com a NUSAS (National Union of South African Students - União Nacional dos Estudantes Sul Africanos), defendendo uma intervenção mais radical e criticando o predomínio e orientação dos liberais brancos na NUSAS. Biko, que foi o primeiro presidente da SASO, pretendia com esta organização desenvolver a participação dos negros, elevar o seu orgulho e atuar independentemente dos brancos. Para a SASO escreveu diversos documentos com o pseudónimo de Frank Talk.

Biko foi um dos fundadores do Movimento de Consciência Negra, defendendo que o principal na luta contra o apartheid era a luta dos negros, a sua organização e mobilização, combatendo a dependência dos negros em relação aos liberais brancos. Em 1972 fundou a Convenção do Povo Negro (Black People's Convention) e foi eleito seu presidente honorário. Também em 72 foi expulso da Universidade e passou a trabalhar em programas para a comunidade negra (Black Community Programs - BCP), participando na construção de clínicas, creches e no apoio aos trabalhadores negros. 

Em Março de 1973 foi "banido" e proibido de sair da cidade de King William. "Banido" significava que não podia comunicar com mais de uma pessoa de cada vez, desde que não fosse da sua família, e não podia publicar nada, tal como os seus escritos anteriores não podiam ser divulgados ou citados. Apesar disso, dirigiu uma secção do BCP na sua cidade, mas posteriormente foi também proibido de ter quaisquer ligações com os programas da comunidade negra.

Não obstante a repressão de que era vítima, Biko criou em 1975 um fundo de apoio aos presos políticos e às suas famílias. As organizações que criou e apoiou, nomeadamente as organizações estudantis, tiveram um papel decisivo nos levantamentos do Soweto, em 1976. Biko foi perseguido e preso por diversas vezes.

Em 18 de Agosto de 1977 foi preso juntamente com o seu companheiro Peter Cyril Jones, acusados de desobedecerem às leis do apartheid. Biko foi barbaramente agredido e torturado numa prisão em Port Elizabeth por cinco policiais o que lhe provocou uma hemorragia cerebral. Em 11 de setembro, em consequência das torturas ele já estava em um estado contínuo de semiconsciência. O médico da prisão aconselhou que Steve fosse levado a um hospital. Jogado nu e sem qualquer proteção na traseira de um Land Rover, Biko foi levado numa viagem de 1,2 mil quilômetros rumo a Pretória, aos solavancos. No dia seguinte, chegava ao Presídio Central da cidade, foi jogado no chão de uma cela fria do jeito que estava, despido e quase inconsciente, onde viria a falecer no dia 12 de Setembro de 1977 com apenas 30 anos de idade, por não resistir aos graves ferimentos causados pelo espancamento policial.

O funeral do ativista atraiu às ruas centenas de milhares de sul-africanos, num protesto que entrou para a vergonhosa história mundial da segregação racial. 

O governo do apartheid primeiro afirmou que ele tinha morrido devido a uma greve de fome, posteriormente perante a gravidade visível das lesões na cabeça, afirmaram que tentou se suicidar, batendo com a cabeça.

A Comissão de Verdade e Reconciliação criada após o fim do apartheid, não perdoou aos seus assassinos. Mas, em Outubro de 2003, o Ministério Público da África do Sul anunciou que os cinco polícias acusados do crime não seriam processados por falta de provas, alegando que faltavam testemunhas que provassem a acusação e considerando ainda que a possibilidade de acusação pelo crime de lesões corporais já tinha caducado.

A morte de Biko agitou o planeta, e logo ele foi alçado a "mártir", inspirando outros a lutarem pela igualdade dos direitos entre negros e brancos, ampliando e elevando o combate ao regime do apartheid na África do Sul.  Mas o governo da África do Sul apertou o cerco, e baniu organizações (principalmente as em que Biko trabalhou) e pessoas que se manifestassem contra seu abuso de poder.

Nelson Mandela em 1997, no elogio a Steve Biko, afirmou: "Um dos grandes legados da luta que Biko travou - e pela qual morreu - foi a explosão do orgulho entre as vítimas do apartheid".
  
Em 1980, Peter Gabriel editou um álbum que incluía a canção "Biko", que se tornou um hino mundial contra o apartheid e que foi posteriormente cantada por outros artistas, como por exemplo Joan Baez. Em 1987, Richard Attenborough realizou o filme Cry Freedom (Grito de Liberdade) sobre a vida de Biko e no qual a música de Peter Gabriel foi incluída na trilha sonora. Em 1997, no vigésimo aniversário da sua morte, Nelson Mandela fez o sua homenagem a ele e inaugurou uma estátua em sua memória. 

Atualmente existe na África do Sul a Fundação Steve Biko (http://www.sbf.org.za/) que é presidida pelo seu filho Nkosinati Biko.

Segue abaixo letra traduzida do Petel Gabriel

«BIKO» 

Setembro de 1977,
Clima agradável no Porto Elizabeth...
A rotina era a mesma
Na sala policial 619.

Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Yihla Moja, Yihla Moja - O homem está morto.

Quando tento dormir à noite
Meus sonhos são vermelhos...
Lá fora o mundo é negro e branco
Com apenas uma cor morta.

Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Yihla Moja, Yihla Moja - O homem está morto.

Tu podes assoprar uma chama,
Mas não podes fazê-lo com uma fogueira...
Uma vez que as fagulhas incendeiam algo,
O vento as tornará maiores.

Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Oh, Biko, Biko, Por que Biko?
Yihla Moja, Yihla Moja - O homem está morto.

E os olhos do mundo agora estão vigilantes.

https://www.youtube.com/watch?v=y7Oo1QSyxUc

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Galeria dos Mártires - Myrna Mack Chang

MYURNA MACK CHANG
Mártir dos Direitos Humanos
GUATEMALA * 11/09/1990

Myrna Mack Chang nasceu em 24 de outubro de 1949, em Retalhuleu, Guatemala. Formou-se como professora primária do Monte Mary College, em 1967, mais tarde frequentou a Escola de Serviço Social do Instituto Guatemalteco de Segurança Social em que fechou em 1971. Estudou antropologia social da Universidade de Manchester, na Inglaterra; tendo obtido o grau de mestre na Universidade de Durham, no mesmo país. Em 1982, depois de ter apresentado a sua tese de conclusão do curso universitário "Da organização popular para a mobilização em massa na Nicarágua: o caso de Estelí", voltou à Guatemala e juntou-se a equipe Inforpress Central, onde atuou por vários anos como jornalista, analista e escritora sobre desenvolvimentos econômicos e políticos da região.

É assim que ela encontra um grupo de pessoas com quem partilhou a preocupação de criar um centro de pesquisa para resolver os problemas urgentes da sociedade guatemalteca. A iniciativa foi uma resposta à observação de uma lacuna de conhecimento existente sobre as questões da realidade social da Guatemala, especialmente decorrentes da violência contra setores intelectuais na primeira metade da década de 80. 

Nasceu, então, a Associação para o Avanço da Ciências Sociais na Guatemala - AVANCSO-, organização em que Myrna implementa seu conhecimento da antropologia social e sua forte vocação para o compromisso social e humano que cresceu a partir de sua juventude. 

Durante a década dos anos oitenta a Guatemala sofreu o período mais intenso da guerra interna. O estado desenvolveu neste período, uma implacável repressão política com uma concepção ampla e indiscriminada de "inimigo interno" que afetou os diferentes setores da sociedade civil, estivesse ou não envolvidos com os movimentos insurgentes. A população mais afetadas por essa política de estado era os camponês, particularmente indígena. Homens e mulheres, crianças e idosos foram, sem distinção alguma, vítimas de atrocidades nunca antes vistas na América Latina desde a conquista. 

Como resultado desta campanha de terror, a população sobrevivente foi forçado a mudar para áreas florestais ou montanhosas. O mudança foi uma continuação do martírio, a fome e a perseguição que sofriam tiveram como consequência novos confrontos e até morte. Isso tudo representou uma enorme carga emocional que foi adicionado ao abandono em que suas comunidades e famílias estavam vivendo e por vezes, morrendo em extremo sofrimento, bem como a incerteza sobre o destino dos que ficaram vivos. 

Foi a consciência deste drama humano e do contato com setores da Igreja Católica próxima a esta população desprezada, o que motivou a AVANCSO e particularmente a Myrna, a envolver-se em pesquisas que permitiria desvendar esta realidade. Foi a revelação destas condições sofrida em que a população viviam o fator determinante que causaram a fuga e impediram o seu regresso. O objetivo final foi o de promover uma política de reinserção com segurança e dignidade. 

Por seus compromissos com a população, foi assassinada por dois indivíduos no dia 11 de setembro de 1990, caiu morta por cerca de 27 golpes de faca. O assassinato de Myrna Mack Chang, está intimamente relacionado com o seu pioneiro trabalho de pesquisa acadêmica sobre as populações refugiadas durante o conflito armado interno guatemalteco, e representa não apenas a violação dos mais básicos dos direitos humanos, o direito à vida, mas também é símbolo de uma era de impunidade e repressão em que certas atividades e pontos de vista foram considerados pelos órgãos de segurança Estado como atentados contra a segurança nacional.

Tanto sua vida e seu trabalho profissional, bem como o contexto sócio-político em que ambos se desenvolveram, explica perfeitamente a falta de sentido deste um crime. A luta para investigar, processar e punir todos os responsáveis ​​por este brutal assassinato - tanto físico como intelectual -  se tornou uma luta nacional, um paradigma dos principais problemas apresentados nos processos criminais por violações de direitos humanos na administração da justiça da Guatemala.