sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Chacina de Vigário Geral

CHACINA DE VIGÁRIO GERAL
Mártires inocentes 
RIO DE JANEIRO * 29/08/1993  

A Chacina de Vigário Geral foi um massacre ocorrido na favela de Vigário Geral, localizada na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Ocorreu na madrugada do dia 29 de agosto de 1993, quando a favela foi invadida por um grupo de extermínio formado por de mais de cinqüenta homens encapuzados e armados, que arrombaram casas e executaram vinte e um moradores, sendo 13 homens, 6 mulheres e 2 adolescentes. Nenhuma das vítimas possuísse envolvimento com o tráfico de drogas. A chacina de Vigário Geral foi uma das maiores a já ocorrer no Estado do Rio de Janeiro. 

Foram assassinados o estudante Fábio Pinheiro Lau, 17 anos, o metalúrgico Hélio de Souza Santos, 38 anos, Joacir Medeiros, 69 anos, o enfermeiro Guaracy Rodrigues, 33 anos, o serralheiro José dos Santos,47, Paulo Roberto Ferreira, 44, motorista, o ferroviário Adalberto de Souza, 40, o metalúrgico Cláudio Feliciano, 28, Paulo César Soares,35, o gráfico Cléber Alves, 23, Clodoaldo Pereira, 21, Amarildo Baiense,31, o mecânico Edmilson Costa,23 , o vigia Gilberto Cardoso dos Santos, 61, o casal Luciano e Lucinéia, 24 e 23. Em seguida executaram Dona Jane, 58, sua nora, Rúbia, 18, o marido e a filha Lúcia, 33. Lá, morreram também, Luciene, prestes a completar 16 anos e Lucinete, 27. As crianças, com idades entre 9 e 5 anos, conseguiram fugir, pulando para a rua de uma altura de dois metros. Uma delas saltou com uma criança de seis meses no colo.

Segundo relatos, a chacina teve sua origem na morte de quatro Policiais Militares no dia 28 de agosto de 1993 na Praça Catolé do Rocha, no bairro de Vigário Geral. No dia anterior, policiais que haviam matado o irmão de Flávio Pires da Silva, 23, conhecido como "Flávio Negão" — chefe do tráfico na favela — foram até o principal ponto de venda de drogas da comunidade para pegar o dinheiro da propina, paga para aliviar a repressão. Chegando à Praça Catolé da Rocha, a viatura foi surpreendida por um cerco de Flávio Negão e seus comparsas, que executaram os quatro PMs que estavam nela. Como vingança, no dia seguinte aconteceu a chacina.


Foi a maior chacina registrada na história da polícia fluminense. Dos 52 PMs denunciados pelo Ministério Público, apenas sete foram condenados, e dentre eles somente Paulo Roberto Alvarenga e José Fernandes Neto foram levados a júri popular. Em 27 de abril de 1997, Alvarenga foi condenado a 449 anos e oito meses, mas teve a sua pena reduzida para 57 anos pelo Supremo Tribunal Federal. Como a pena foi superior a 20 anos, ele protestou por novo júri. Em 20 de setembro de 2000, José Fernandes Neto foi condenado a 45 anos e, como Alvarenga, recorreu da sentença. A Chacina do Vigário Geral alcançou repercussão internacional. 



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Pe. Jean-Marie Vicent

Pe. JEAN-MARIE VICENT
Missionário Profeta do Povo Haitiano 
HAITI * 28/08/1994  

"Janboul”, como era conhecido, sacerdote monfortiano “sedento de justiça”, amigo colaborador de Aristide, desempenhou um papel importante nos últimos anos do Povo e da Igreja haitianos: na formação das primeiras comunidades de base, ao lado dos camponeses, em campanhas de alfabetização, nas lutas contra a ditadura de Duvalier e suas  sequelas, como diretor de Caritas, no desenvolvimento do setor informal da economia, como fundador ou co-fundador de entidades sociais populares, entre elas o Movimento “Têtes Ensemble” (cabeças juntas). Sempre conjugando a atividade especificamente pastoral com os múltiplos aspectos da promoção humana, obistionado evangelicamente por devolver aos pobres sua dignidade e liberdade de filhos de Deus.

https://www.youtube.com/watch?v=uGWT80vbH9A

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Pe. Alessandro Dordi Negroni

Pe. ALESSANDRO DORDI NEGRONI
Mártir da Promoção Humana
PERU * 25/08/1991

Alessandro Dordi Negrini, conhecido como Padre Sandro Dordi, era o segundo de treze filhos. Nasceu em San Marino Gromo-Bergamo (Itália), 23 de janeiro de 1931. Estudou no Seminário Diocesano de Cluson, onde foi ordenado sacerdote quando tinha apenas 23 anos de idade. Em 1980, aceitou o convite do arcebispo Luis Bambarén, então Bispo de Chimbote, para assumir a paróquia Senhor Crucificado de Serra, Peru.

Padre Sandro Dordi sempre sonhou em ir para a África como missionário, mas as circunstâncias o levaram a visitar a América Latina, onde ele acabou ficando apaixonado pelo Peru, eu sempre soube que, após o atentado contra os padres franciscanos em Pariacoto, ele poderia ser o próximo.

"Foi um homem bom, sincero e corajoso, um verdadeiro missionário. Ele foi quem nos chamou para servir aqui, uma terra em que ele manteve-se completamente apaixonado, se sentindo sempre mais um peruano" conta Virginia Piu, irmã da Congregação das Irmãs de Jesus Bom Pastor, com uma voz soluçante e olhando melancolicamente uma foto antiga do Padre Sandro.

O Arcebispo Luis Bambarén sabendo das ameaças que o Pe. Sandro estava sofrendo, pediu para ele viajar para Lima, até mesmo para a Itália por sua segurança, porém ele nunca demonstrou medo. "Um dia ele disse: Eu não posso deixar o meu povo ...". contou irmã Piu, interrompendo a oração com um silêncio que lhe permitiu romper em lágrimas, somente se atreveu a olhar para a foto.

Durante os 11 anos em que viveu em Santa, sempre quis viver como um a mais entre o povo. Foi um homem que defendeu a igualdade de gênero e que, em uma época tão machista sempre enfatizou a importância do papel da mulher na sociedade e, especialmente, dentro do casamento. Marco Sing então governador do distrito de Santa conheceu Pe. Sandro Dordi quando ele foi procura-ló para criar o Centro de Promoção da Mulher. "Ele me perguntou o que era mais importante para mim, e eu respondi, minha família". A partir deste dia fui trabalhar com ele na catequese familiar. Marco Sing, conta que Pe. Dordi mudou desde que se viu ameaçado. "Sim, eles tinham um motivo para ameaçar o padre Dordi, o motivo foi ele ter impulsionado a unidade familiar que era o seu melhor combate aos ideais terroristas". Marco inicialmente iria acompanhar Padre Dordi na missa em Vinzos, mas teve que participar de um evento da catequese familiar na encosta norte. Hoje, sem alcançar a compreensão olha pela janela, ele lembra que teve que ajudar a remover o corpo do padre.

Antes das seis da tarde daquele 25 de Agosto de 1991, a caminhonete 4x4 cabine dupla cor amarela, que em muitos povoados o tinha acompanhado para as celebrações e encontros, teve que parar sua rota de Vinzos à Santa, porque um grupo de homens mascarados cercaram o veículo, os dois jovens companheiros de viagem na parte de trás do carro tiveram que abaixar a cabeça com as ameaça que diziam: "saiam, saiam, não é com você". Enquanto o motorista foi levado de volta para o caminhão, de onde se ouviram o som de três tiros disparados contra o padre.

Padre Sandro Dordi foi assassinado com três tiros por ser um defensor da promoção humana no Peru.


Sua memória segue viva.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Pe. Maurício Lefèvre

Pe. MAURÍCIO LEFÈBVRE
Mártir da Justiça e da Paz
BOLIVIA * 21/08/1971

Padre Maurício Lefèbvre, missionário oblato, nascido em Montreal, Canadá, em 6 de Agosto de 1922. Em 1953 foi em missão para a Bolívia. Sua primeira atividade foi desenvolvida como pároco em Llallagua. Deixou sua terra e adotou como seu povo os mineiros bolivianos.

No ano de 1971, em La Paz, o Coronel Hugo Banzer Suarez efetiva um golpe de Estado contra o governo de Juan José Torres. A Bolívia se estremeceu pelas incontáveis vitimas, em muitos lugares houve enfrentamento, mortos e feridos.

Como membro da cruz vermelha recebeu uma chamada, uma jovem havia sido ferida pelos militares, ele foi ao encontro da jovem. Ao descer a rua foi reconhecido pelos militares que começaram a atirar. Mais de 32 marcas de bala foram encontradas em seu carro. O povo emudecido e aflito testemunha os últimos suspiros daquele que ao entardecer do dia 21 de Agosto de 1971 foi atingido por estilhaços de bala. O povo impedidos pelos militares de retirar o corpo do padre, precisaram esperar a noite para contarem a eletricidade e retirar o corpo.

Mataram o Padre Maurício, mas o ideal imposto por Jesus tornou-se realidade e seu sangue germinou no coração de milhares de bolivianos que, sedentos de paz e justiça, lutaram para derrubar o império da morte configurado no regime militar.

Testemunha fiel que se entregou por amor para socorrer à jovem, não por vitimismo, mas por compaixão da pessoa ferida e de seu povo dilacerado. “Não existe maior amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,12-13)

Padre Maurício, missionário fiel seguidor de Jesus, enfrentando as estruturas de morte e opressão na busca da edificação do Reino, por Ele inaugurado (Lc 4,14-22), na certeza da vitória dos povos na América Latina. Viveu coerente sua opção à igreja dos pobres, impulsionada pelo Concílio Vaticano II. Deu testemunho do Evangelho.

Ele deixa para a Igreja o legado do testemunho de que abraçar a Cruz em Jesus Cristo é viver o projeto de Reino de Paz e Justiça, (Mt 25,31-46).

Texto adaptado da Revista Nossas Noticias, Edição 148 JUL-AGO 2013, missionários Oblatos de Maria Imaculada.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Irmão Roger de Taizé

Ir. ROGER SCHUTZ
Mártir do Ecumenismo
FRANÇA * 16/08/2005

Roger Schutz suíço religioso fundador da comunidade ecumênica de Taizé nasceu em 12 de maio de 1915 em Jura (Suíça). Filho de um pastor protestante. Muito pequeno, foi morar com sua avó, de confissão evangélica e atormentado pela Primeira Guerra Mundial. Recém ordenado pastor, fez uma viagem a moto para a França de 1940 pensando em como ajudar as vítimas da guerra. Uma noite, ele chegou a uma aldeia em Borgoña ao lado da linha que divide a França de Vichy ocupada por Hitler.  A aldeia se chamava Taizé.

Ali fundou uma comunidade aberta aos membros de todas as igrejas cristãs. Ele nunca fez distinção entre os jovens de diferentes religiões. Luteranos, calvinistas, evangélicos, ortodoxos ou católicos se reuniam com ele.

Roger foi morar com sua irmã em uma casa abandonada até que a guerra foi chegando aos judeus, refugiados políticos e desertores nazistas. Todos eram bem-vindos naquela casa em ruínas e sem água corrente, independente do seu credo ou nacionalidade.

Roger costumava ir a um bosque para orar para os refugiados judeus e agnósticos. Nos anos 50, Roger começou a enviar irmãos da comunidade para viver em áreas particularmente afetadas pela pobreza e violência, a fim de estar ao lado das pessoas que sofrem e ser testemunhas da paz. 

Taizé acolhe todos os anos milhares de pessoas de todas as religiões que procuram uma experiência mística e uma espiritualidade sem fronteiras. Quando perguntado sobre as origens de Taizé, Roger sempre se lembrou de sua avó, uma mulher protestante nos dias mais sombrios da Primeira Guerra Mundial, que ia todas as noites rezar em uma igreja católica como um símbolo da unidade em uma Europa dividida pela guerra. 

Conhecido como Irmão Roger de Taizé, morreu aos 90 em 16 de Agosto de 2005, esfaqueado durante o ofício onde se encontravam mais de 2.500 jovens de vários lugares e países. A mulher que matou um romeno chamado Luminita, tentou em vão conseguir uma entrevista com ele por meses, deu três facadas no pescoço e o religioso morreu poucos minutos depois.

Galeria dos Mártires - Mártires Indígenas Ianomâmis

MÁRTIRES INDÍGENAS IANOMÂMIS
RORAIMA - RR * 16/08/1993

Os Ianomâmis são índios que habitam o Brasil e a Venezuela. No Brasil somam 15 mil pessoas distribuídas em 255 aldeias relacionadas entre si em maior ou menor grau. A noroeste de Roraima estão situadas 197 aldeias que somam 9.506 pessoas e a norte do Amazonas estão situadas 58 aldeias que somam 6.510 pessoas
A palavra ianomâmi significa ser humano, enquanto que napë é a designação geral para o estrangeiro, o não ianomâmi.


Uma intensa onda de invasão das terras ianomâmis por garimpeiros ocorreu de 1987 a 1992. O sangue deste povo manchou para sempre o sagrado território destes índios, atingido por um verdadeiro massacre, no qual se consumiu a vida de pelo menos 1500 integrantes desta nação. Em agosto de 1993 houve um ato de desagravo na Catedral da Sé, a qual ficou repleta de membros da sociedade civil e de representantes indígenas, reunidos em um apelo incisivo contra essas mortes; mais que isso, contra esta situação de abandono das aldeias indígenas no geral.

 Texto copiado de: http://www.ihu.unisinos.br/martires-latino-americanos/512422-18-de-agosto

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Margarida Maria Alves

MARGARIDA MARIA ALVES

Mártir da Luta pela Terra

ALAGOA GRANDE – PB * 12/08/1983


Mulher forte, camponesa de cerne, de fé profunda, líder no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, PB, Margarida entrou de cheio no compromisso social na defesa das terras e da dignidade do povo, mesmo frente a todas as ameaças e consciente do alto risco. “Até na hora que se acordava, na cama, relata seu marido Severino, era conversando sobre sindicato, os direitos dos trabalhadores, dos pobres”. “Da luta não fujo”, repetia ela. 

- “Não sei quando irão me matar, não sei onde, sei que vão me matar, mas enquanto eu estiver viva, eu lutarei pelos direitos dos trabalhadores”.          

- “Os poderosos estão nos perseguindo. Nós não tememos, e vamos à luta até o fim. Porque é melhor morrer na luta, do que morrer de fome. Fiquem certos, os trabalhadores, de que não fugimos da luta. É mais fácil vocês saberem que nós tombamos, do que saberem que corremos. Os poderosos estão dizendo que estamos invadindo as suas propriedades; invadindo estão eles, invadindo os nossos direitos, invadindo o salário justo. Eles estão negando água e pão, estão fazendo opressão à diretoria e aos trabalhadores. A prepotência nos massacra demais: mas uma certeza eu tenho: que isso não faz a gente esmorecer. Nós não queremos o que é de ninguém: nós queremos o que é nosso. Precisamos nos unir cada vez mais. Sabemos que somente com nossa união e a nossa organização a gente vai conseguir os nossos direitos”.

- “Companheiros, eu quero pedir a vocês, quando voltarem para casa, que se lembrem e rezem por aqueles que estão lutando, enfrentando ameaças, por aqueles que estão lutando, enfrentando o revolver. Nós não podemos calar diante desta multidão”. 

Seu testemunho tem feito florescer muitas “margaridas” de consciência e de coragem, sobretudo entre as mulheres lavradoras.

domingo, 10 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Jesus Alberto Páez Vargas

JESUS ALBERTO PÁEZ VARGAS
Sequestrado e desaparecido
PERU * 10/08/1977

Jesus Alberto Paez, nasceu em 05 de dezembro de 1947 em El Agustino - Lima, filho de Jesus e Edulia Vargas Páez; desde tenra idade se viu obrigado a trabalhar como entregador de jornal, e várias outras atividades que lhe permitia ganhar algum dinheiro para ajudar a sustentar a casa e os estudos.

Aluno de destaque terminou os estudos técnico secundário, interessando-se em mecânica; Ele também se destacou como um líder estudantil e num quadro de avisos da seção, sempre continha escritos de sua inspiração.

Completou o ensino secundário para trabalhar como operário entra na fábrica têxtil Bellota, em seguida, como trabalhador na construção civil; em 1970, na Fábrica Têxtil Nuevo Mundo, trabalhando como mecânico de manutenção, entrou no sindicato e se destacou como um ativista, também na PJ Gambeta Baja e no Comité de Coordenação e Unificação Sindical  Clasista, CCUSC.

Jesus Alberto Vargas Páez, homem humilde, filho do povo e exemplar militante comunista, foi sequestrado e desaparecido há 37 anos, nos tempos da ditadura militar, em 10 de agosto de 1977, vinte dias após a contundente greve nacional 19 de julho. Dirigente Sindical da fábrica têxtil Nuevo Mundo e Secretário Geral da Pueblo Joven Néstor Gambeta del Callao.

Casada com Eulalia Escalante, com quem teve quatro filhos: Jose Enrique, Irma Cecilia, Graciela Lupe e Jesus Alberto, nascidas no ano do seu sequestro e desaparecimento.

Jacinto Irala disse: "Jesus Alberto Paez (Mauritius) se destacou em atividades públicas e estava sempre focado nos principais problemas a ser resolvido, quando se dirigia as bases. Ele era um camarada que irradiava autoridade e respeito. Por suas responsabilidades de trabalho pessoais, profissionais, política ele não perdeu tempo, era digno de respeito a forma como organizava sua agenda,  ganhando um espaço cada vez maior, sem recorrer a questões secundárias."

As lutas dos comunistas é sempre marcada pela entrega e sacrifício consciente, lutas que buscam incansavelmente o bem-estar, igualdade e amor pela humanidade. Nesta trajetória, teremos militantes comunistas que à custa de sua própria felicidade e comodidade pessoal e familiar se entregaram totalmente pelas causas que acreditaram, compromisso este que custou a própria vida. Deles podemos e devemos dizer que são Mártires do Povo.

sábado, 9 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Frei Tito de Alencar Lima

FREI TITO DE ALENCAR LIMA
Mártir da Tortura
FRANÇA * 10/08/1974

Religioso dominicano, perseguido e preso por seu compromisso com o povo oprimido, viveu as mais bárbaras torturas, físicas e psicológicas, sobretudo na Operação Bandeirantes – centro de torturas do exército, em São Paulo. 

É um dos casos mais dramáticos da perseguição à Igreja e ao povo nesses anos das ditaduras militares de Nossa América. Tito interiorizou toda as acusações, as solidões todas, tentou evitar de todo jeito comprometer seus companheiros, carregou como uma sombra de pecado a imagem do delegado torturador Fleury, no exílio do Chile e da França e, finalmente, num gesto de expiação extrema se enforcou numa árvore, aos 28 anos, na capina francesa. 

Mártir da tortura é considerado mundialmente, vítima dos poderes de repressão. Num poema histórico, que escreveu, na França, reproduz com sua agonia a agonia de Jesus: “Pediste a teu Pai tua paz, o sentido de tua paixão e de teu amor. / Meu Pai, meu país: por que me abandonaste?”.

“É preferível morrer do que perder a vida”.

“... Quiseram deixar-me dependurado toda a noite no pau-de-arara. Mas o capitão Albernaz objetou: “Não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá  o preço de sua valentia...
        Na cela, eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros religiosos sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria agüentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me. Na cela cheia de lixo encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento...
        Tomei a gilete, enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa.
        Revestidos de paramentos litúrgicos, os policiais me fizeram abrir a boca “para receber a hóstia sagrada”. Introduziram um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito.
        No sábado, teve início a tortura psicológica. “A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista”, diziam eles. “A Igreja vai expulsá-lo”. Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse”.
(No exílio, na França, sempre subsistindo à seqüelas da tortura, Frei Tito escreveu esta poesia:)

Quando Secar o Rio de Minha Infância

        Quando secar o rio de minha infância
        secará toda dor.
        Quando os regatos límpidos de meu ser secarem
        Minha alma perderá sua força.
        Buscarei, então, pastagens distantes
        - lá onde o ódio não tem teto para repousar.
        Ali erguerei uma tenda junto aos bosques.
        Todas as tardes me deitarei na relva
        e nos dias silenciosos farei minha oração.
        Meu eterno canto de amor:
        expressão pura de minha mais profunda angústia.
        Nos dias primaveris, colherei flores
        para meu jardim da saudade.
        Assim, exterminarei a lembrança de um passado sombrio.

Terra de Santa Cruz - Adélia Prado

Poetisa e escritora. O poema em homenagem a Frei Tito está no livro Terra de Santa Cruz, de 1986, publicado pela Editora Guanabara.
Nas minhas bodas de ouro, esganada como os netos,
vou comer os doces.
Não terei a serenidade dos retratos
de mulheres que pouco falaram ou comeram.
Porque o frade se matou
no pequeno bosque fora de seu convento.
De outras vezes já disse: não haverá consolo. E houve:
música, poema, passeatas.
O amor tem ritmos que não são de tristeza:
forma de ondas, ímpeto, água corrente.
E agora? Que digo ao homem, ao trem, ao menino que me espera,
à jabuticabeira em flores, temporã?
Contemplar o impossível enlouquece.
Sou uma tênia no epigastro de Deus:
E agora? E agora? E agora?
Onde estavam o guardião, o ecônomo, o porteiro,
a fraternidade onde estava quando saíste,
o desgraçado moço da minha pátria,
ao encontro desta árvore?
Meu inimigo sou eu. Os torturadores todos enlouquecem ao fim,
comem excrementos, odeiam seus próprios gestos obscenos,
os regimes iníquos apodrecem.
Quando andavas em círculos, a alma dividida,
o que fazia, santa e pecadora, a nossa Mãe Igreja?
Promovia tômbolas, é certo, benzia edifícios novos,
mas também te gerava, quem ousará negar, a ti
e a outros santos que deixam as bíblias marcadas:
"Na verdade carregamos em nós mesmos nossa sentença de morte".
"Amai vossos inimigos".
O que disse: "Quem crer viverá para sempre", este também
balouçou do madeiro como fruto de escárnio.
Nada, nada que é humano é grandioso.
Me interrompe da porta a mocinha boçal. Quer mudas de trepadeira.
Meus cabelos levantam. Como um torturador eu piso e arranco
a muda, os olhos, as entranhas da intrusa
e não sendo melhor que Jó choro meus desatinos.
Sempre há quem pergunte a Judas qual a melhor árvore:
os loucos lúcidos, os santos loucos,
aqueles a quem mais foi dado, os quase sublimes.
Minha maior grandeza é perguntar: haverá consolo?
Num dedal cabem minha fé, minha vida e
meu medo maior que é viajar de ônibus.
A tentação me tenta e eu fico quase alegre.
É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos,
ao nosso Deus que é uma galinha grande.
Nos põe debaixo da asa e nos esquenta.
Antes, nos deixa desvalidos na chuva,
pra que aprendamos a ter confiança n'Ele
e não em nós.

Galeria dos Mártires - Massacre de Corumbiara


MASSACRE DE CORUMBIARA
Mártires da luta pela Terra

CORUMBIARA, RO * 09/08/1995

Na madrugada do dia 09/08 o acampamento da Santa Elina foi cercado por todos os lados e começou o que foi o massacre de Corumbiara, onde foram assassinados 10 trabalhadores sem-terra..

Os posseiros foram pegos de surpresa, pois era noite escura e eles estavam desmobilizados.

Os posseiros foram acordados com bombas de gás lacrimogênio que a todos sufocavam, tiroteio por longas horas com armas muito pesadas, mulheres foram usadas como escudo humano pelos policiais e por jagunços. 

Segundo relatos um grande número de jagunços, alguns vestidos como policiais entraram infiltrados no meio das tropas e muitos homens estavam encapuzados. O acampamento foi totalmente destruído e depois incendiado. Não sobrou nada do que os camponeses haviam levado para começar o que seria uma vida nova. Tudo se transformou em pesadelo.

O que aconteceu naquela noite e naquela manhã, não foi testemunhado pela imprensa, mas as marcas estão presentes naqueles corpos e naquelas almas que sofreram torturas indescritíveis mas os que sobreviveram puderam contar o que aconteceu ali, embora suas vozes tenham sido sufocadas, desqualificadas, ou simplesmente ignoradas durante as apurações processuais e durante o júri.

Os homens que não morreram ou não conseguiram fugir pela mata foram presos e obrigados a se deitarem no chão com o rosto na lama e policiais e jagunços pisavam sobre eles e os espancavam com chutes em todas as partes do corpo e davam pauladas em qualquer um que ousasse levantar a cabeça. 

Depois foram amarrados com cordas e arrastados até o QG da PM, no campo de futebol do PA Adriana, como mostra a foto abaixo. 



Os homens ficaram por longas horas, sem água, sem comida, apanhando e sofrendo todo tipo de humilhações. 

As mulheres e as crianças também ficaram presas em cima de caminhões por longas horas sob um sol escaldante passando fome e sede. Os posseiros foram presos, mortos e torturados e o acampamento foi completamente destruído.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Pe Miguel Tomaszek e Pe. Zbigniew Strzalkowski

Pe. MIGUEL TOMASZEK e Pe. ZBIGNIEW STRZALKOWSKI
Mártires da Paz e da Justiça

PERU * 08/08/1991


Miguel Tomaszek nasceu em 23 de setembro de 1960, em Lekawica (Polónia). Depois da escola primária em sua cidade natal, cursou o ensino médio no Seminário Menor dos Franciscanos Conventuais. Ele fez a sua profissão religiosa em 01 de setembro de 1981 em Legnica. Iniciou seus estudos de Filosofia e Teologia de Cracóvia. Foi ordenado sacerdote em 23 de maio de 1987 exerce a sua primeira missão sacerdotal Pierigle, o convento franciscano de Cracóvia. 


Zbigniew Strzalkowski nasceu em 03 de julho de 1958 em Tarnow. Fez seu curso primário e seus estudos técnicos em Tarnow. Ele ingressou na ordem franciscana Conventual em 1979 e estudou filosofia e teologia em 1980, foi um dos iniciadores do movimento ambientalista no seminário de Cracóvia. Foi ordenado sacerdote em 07 de junho de 1986 sua primeira missão pastoral estava no seminário Menor Legnica .

Em missão vão paraa o Peru para abrir a primeira comunidade franciscana, foram trabalhar em Moro e Pariacoto. Os dois missionários, juntamente com o Padre Yarek foram os fundadores do Convento Pariacoto a 30 de agosto de 1989, com a missão pastoral em quatro comunidades rurais na Cordilheira Negra: Pariacoto, Yaután, Cochabamba e grandes Pampas.


MARTÍRIO

Na sexta-feira 9 de Agosto de 1991, na casa religiosa Pariacoto padre Zbigniew estava sozinho com os três candidatos. O superior estava fora, e Padre Miguel estava voltando com a caminhonete de missão, acompanhado de um grupo de catequistas de Huaraz, onde participaram de uma atividade formativa.
Um grupo de homens armados, com os rostos cobertos, invadiram a Casa Paroquial.  Padre Michael recebeu dois tiros no pescoço e padre Zbigniew, um tiro perto da orelha e um na parte central da coluna vertebral. Junto com os corpos encontraram duas notas em pedaço de papelão escrito nervosamente pelos assassinos: "bem morrer, que falam de paz e lambendo o imperialismo." 

ENTERRO

O povo participou do enterro como uma demostração do valor que os padres tinham para eles. Muito sofrido o povo, expressou bravamente e abertamente o protesto contra a morta cruel e brutal dos padres. Várias amostras desses sentimentos acompanhou os mártires nos eventos seguindo, o heroico  sacrifício e entrega deles em favor do povo.
Nos muitos cartazes que acompanhavam a procissão fúnebre, se viu um que dizia: "Os padres não morreram".

Os jovens sacerdotes Michal Tomaszek e Zbigniew Strzalkowski, 31 e 33, poderiam estar em Czestochowa em agosto de 1991 para o Dia Mundial da Juventude. E de fato eles estavam, pois foram pessoalmente nomeados por João Paulo II no dia 13 de: "Há novos mártires no Peru" proclamou o Papa.

PROCESSO DE BEATIFICAÇÃO

Depois de quatro anos do martírio, em 05 de junho de 1995, o bispo local (Chimbote), Dom Luis Armando Bambarén Gastelumendi, SJ, e com o apoio da Conferência Episcopal Peruana, da Congregação vaticana para as Causas dos Santos autorizou a abertura do processo de beatificação de mártires da fé. 

Esteve em Cracóvia, a fim de encontrar provas e documentação sobre a infância, formação e os primeiros anos desses servos de Deus poloneses. atualmente está dirigindo o diocesano ao fim, diz a assessoria de comunicação da Ordem dos Frades Menores Conventuais. 

ORAÇÃO PELA BEATIFICAÇÃO

Señor:
Tú que ungiste con el don del Sacerdocio
a tus hijos
Miguel, Zbigniew y Sandro,
los enviaste como mensajeros
de la Buena Nueva
y los coronaste con la palma del Martirio
glorifícalos también
con la corona  de los Santos.

Por su sangre derramada por ti:
danos fidelidad en la fe,
guarda nuestras vidas
y concédenos el don de la paz.

A las víctimas inocentes de la violencia
recíbelas en tu Reino
y concédeles el premio eterno.
Amén.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Dom Enrique Angelelli

Dom ENRIQUE ANGELELLI
Profeta e Bispo dos Pobres
ARGENTINA * 04/08/1976

Um autêntico pastor, segundo o Evangelho dos Pobres, em La Rioja Argentina, “Terra Adentro”. Solidário com seu povo, foi perseguido, intimado e viu martirizados seus colaboradores mais íntimos. 

Sentiu a solidão episcopal. Mas continuou fiel. “É preciso seguir andando”, repetia. “Como um ouvido ao Evangelho e outro ao Povo”. “Não precisa ter medo de se meter no barro”

Odiado pelos latifundiários e pela ditadura militar, caiu no meio do caminho, com os braços abertos em cruz, num acidente fingido. A opinião pública nacional e internacional e até a declaração de alguns carrascos desvendaram a verdade. Agora, se completando os trinta e oito anos de seu martírio, o testemunho deste bispo, profeta e amigo do povo, cresce como uma das mais autênticas glórias da Igreja Latino-americana. O papa Paulo VI tinha por ele particular estima e o apoiou nas horas difíceis.  

Galeria dos Mártires - Pe. Alírio Napoleón Macías

Pe. ALÍRIO NAPOLEÓN MACÍAS
Mártir El Salvador

EL SALVADOR * 04/08/1979

Alírio nascido em 10 de novembro 1941, anos mais tarde entrou para o Seminário Pio XII e San Jose de la Montana, de onde posteriormente tornou-se reitor. Ele foi ordenado sacerdote em 21 de março de 1965. Pertencia à geração de sacerdotes desde o final dos anos sessenta, inspirados pela teologia da libertação e sua opção preferencial pelos pobres, se destacaram pelo trabalho pastoral de conscientização e organização Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

Em 4 de agosto de 1979, como um bom sacerdote estava limpando a igreja; se deu conta que havia pessoas do lado de fora da igreja, e de acordo com os depoimentos das testemunhas eram policiais. Eles dispararam as armas contra o padre Alírio, e ele caiu crivado de bala entre a sacristia e o altar. Sua querida mãe, com a angústia dessa situação, correu e disse que ela ainda o viu abrir os olhos. Morreu logo em seguida.

"Padre Alírio foi um homem dedicado à causa do seu povo e também um homem de oração, como o Bom Pastor realizou visitas as aldeias e vilas em toda a paróquia", lembra Esperanza Carrillo. Também realizados retiros, onde não apenas temas religiosos foram abordados, mas discutia sobre as necessidades das comunidades que vivem em extrema pobreza. Como forma de amenizar a pobreza nas comunidades, criou projetos de saúde, agricultura, alfabetização, água e luz.

O assassinato do padre Alírio, como tantos outros cometidos antes e durante a ditadura, nunca foi cuidadosamente investigados, e a impunidade continua até hoje.

São 35 anos após seu martírio a sua presença continua a viver nas comunidades de bases, não só lembrar, mas a viver como comunidades, e reencarnar de alguma forma o testemunho profético deixado pelo Padre Alírio Napoleão P. Macias.



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Galeria dos Mártires - Pe. Carlos Pérez Alonso

Pe. CARLOS PÉREZ ALONSO
Mártir da misericórdia e da justiça

GUATEMALA * 02/08/1981

Sacerdote jesuíta espanhol, com muitos anos de trabalho pastoral na Guatemala. Apóstolo dos enfermeiros, dos presos, dos soldados e estudantes e mártir da misericórdia e da justiça. Sequestrado e desaparecido.
Carlos, apesar de sua pouca saúde, foi um incansável capelão de hospitais, cárceres, colégios e movimentos seculares. E em todos esses lugares foi extremamente querido, consultado, ouvido.

Em Carlos, "a misericórdia se fez carne", assim testemunhou um sacerdote, companheiro seu. 
"E por que precisamente ele desapareceu...?", pergunta o mesmo sacerdote. E responde: 
"Primeiro, porque esse gênero de sofrimento é uma graça extraordinária e para recebê-la é preciso estar preparado". E Carlos estava, por sua própria dor e pela dor dos outros. 

"Segundo, porque a verdadeira misericórdia, a amizade e o serviço desinteressado, o desejo de liberdade e justiça, etc, são algo 'subversivo', que deve se eliminado. A partir daí começamos a compreender o porquê..."

Texto retirado do livro: Sangue pelo Povo - Martirológio Latino-Americano - Ed. Vozes