quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Galeria dos Mártires - Frei Tito de Alencar Lima

FREI TITO DE ALENCAR LIMA - Mártir da Tortura
FRANÇA * 10/08/1979


Religioso dominicano, perseguido e preso por seu compromisso com o povo oprimido, viveu as mais bárbaras torturas, físicas e psicológicas, sobretudo na Operação Bandeirantes – centro de torturas do exército, em São Paulo. É um dos casos mais dramáticos da perseguição à Igreja e ao povo nesses anos das ditaduras militares de Nossa América. Tito interiorizou toda as acusações, as solidões todas, tentou evitar de todo jeito comprometer seus companheiros, carregou como uma sombra de pecado a imagem do delegado torturador Fleury, no exílio do Chile e da França e, finalmente, num gesto de expiação extrema se enforcou numa árvore, aos 28 anos, na capina francesa. Mártir da tortura é considerado mundialmente, vítima dos poderes de repressão. Num poema histórico, que escreveu, na França, reproduz com sua agonia a agonia de Jesus: “Pediste a teu Pai tua paz, o sentido de tua paixão e de teu amor. / Meu Pai, meu país: por que me abandonaste?”.

“É preferível morrer do que perder a vida”.

“... Quiseram deixar-me dependurado toda a noite no pau-de-arara. Mas o capitão Albernaz objetou: “Não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá  o preço de sua valentia...
        Na cela, eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros religiosos sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria agüentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me. Na cela cheia de lixo encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento...
        Tomei a gilete, enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa.
        Revestidos de paramentos litúrgicos, os policiais me fizeram abrir a boca “para receber a hóstia sagrada”. Introduziram um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito.
        No sábado, teve início a tortura psicológica. “A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista”, diziam eles. “A Igreja vai expulsá-lo”. Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse”.

(No exílio, na França, sempre subsistindo à seqüelas da tortura, Frei Tito escreveu esta poesia:)

Quando Secar o Rio de Minha Infância

        Quando secar o rio de minha infância
        secará toda dor.
        Quando os regatos límpidos de meu ser secarem
        Minha alma perderá sua força.
        Buscarei, então, pastagens distantes
        - lá onde o ódio não tem teto para repousar.
        Ali erguerei uma tenda junto aos bosques.
        Todas as tardes me deitarei na relva
        e nos dias silenciosos farei minha oração.
        Meu eterno canto de amor:
        expressão pura de minha mais profunda angústia.
        Nos dias primaveris, colherei flores
        para meu jardim da saudade.
        Assim, exterminarei a lembrança de um passado sombrio.

Terra de Santa Cruz - Adélia Prado
Poetisa e escritora. O poema em homenagem a Frei Tito está no livro Terra de Santa Cruz, de 1986, publicado pela Editora Guanabara.
Nas minhas bodas de ouro, esganada como os netos,
vou comer os doces.
Não terei a serenidade dos retratos
de mulheres que pouco falaram ou comeram.
Porque o frade se matou
no pequeno bosque fora de seu convento.
De outras vezes já disse: não haverá consolo. E houve:
música, poema, passeatas.
O amor tem ritmos que não são de tristeza:
forma de ondas, ímpeto, água corrente.
E agora? Que digo ao homem, ao trem, ao menino que me espera,
à jabuticabeira em flores, temporã?
Contemplar o impossível enlouquece.
Sou uma tênia no epigastro de Deus:
E agora? E agora? E agora?
Onde estavam o guardião, o ecônomo, o porteiro,
a fraternidade onde estava quando saíste,
o desgraçado moço da minha pátria,
ao encontro desta árvore?
Meu inimigo sou eu. Os torturadores todos enlouquecem ao fim,
comem excrementos, odeiam seus próprios gestos obscenos,
os regimes iníquos apodrecem.
Quando andavas em círculos, a alma dividida,
o que fazia, santa e pecadora, a nossa Mãe Igreja?
Promovia tômbolas, é certo, benzia edifícios novos,
mas também te gerava, quem ousará negar, a ti
e a outros santos que deixam as bíblias marcadas:
"Na verdade carregamos em nós mesmos nossa sentença de morte".
"Amai vossos inimigos".
O que disse: "Quem crer viverá para sempre", este também
balouçou do madeiro como fruto de escárnio.
Nada, nada que é humano é grandioso.
Me interrompe da porta a mocinha boçal. Quer mudas de trepadeira.
Meus cabelos levantam. Como um torturador eu piso e arranco
a muda, os olhos, as entranhas da intrusa
e não sendo melhor que Jó choro meus desatinos.
Sempre há quem pergunte a Judas qual a melhor árvore:
os loucos lúcidos, os santos loucos,
aqueles a quem mais foi dado, os quase sublimes.
Minha maior grandeza é perguntar: haverá consolo?
Num dedal cabem minha fé, minha vida e
meu medo maior que é viajar de ônibus.
A tentação me tenta e eu fico quase alegre.
É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos,
ao nosso Deus que é uma galinha grande.
Nos põe debaixo da asa e nos esquenta.
Antes, nos deixa desvalidos na chuva,
pra que aprendamos a ter confiança n'Ele
e não em nós.

Galeria dos Mártires - Margarida Maria Alves

MARGARIDA MARIA ALVES - Líder Sindical Rural

ALAGOA GRANDE – PB * 12/08/1983

Mulher forte, camponesa de cerne, de fé profunda, líder no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, PB, Margarida entrou de cheio no compromisso social na defesa das terras e da dignidade do povo, mesmo frente a todas as ameaças e consciente do alto risco. “Até na hora que se acordava, na cama, relata seu marido Severino, era conversando sobre sindicato, os direitos dos trabalhadores, dos pobres”. “Da luta não fujo”, repetia ela. 

- “Não sei quando irão me matar, não sei onde, sei que vão me matar, mas enquanto eu estiver viva, eu lutarei pelos direitos dos trabalhadores”.          

- “Os poderosos estão nos perseguindo. Nós não tememos, e vamos à luta até o fim. Porque é melhor morrer na luta, do que morrer de fome. Fiquem certos, os trabalhadores, de que não fugimos da luta. É mais fácil vocês saberem que nós tombamos, do que saberem que corremos. Os poderosos estão dizendo que estamos invadindo as suas propriedades; invadindo estão eles, invadindo os nossos direitos, invadindo o salário justo. Eles estão negando água e pão, estão fazendo opressão à diretoria e aos trabalhadores. A prepotência nos massacra demais: mas uma certeza eu tenho: que isso não faz a gente esmorecer. Nós não queremos o que é de ninguém: nós queremos o que é nosso. Precisamos nos unir cada vez mais. Sabemos que somente com nossa união e a nossa organização a gente vai conseguir os nossos direitos”.

- “Companheiros, eu quero pedir a vocês, quando voltarem para casa, que se lembrem e rezem por aqueles que estão lutando, enfrentando ameaças, por aqueles que estão lutando, enfrentando o revolver. Nós não podemos calar diante desta multidão”. 

Seu testemunho tem feito florescer muitas “margaridas” de consciência e de coragem, sobretudo entre as mulheres lavradoras.



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Martirológio Latino-americano - mês de agosto

Agosto

01/08/1975 – Arlen Siu, estudante, 18 anos, mártir da revolução nicaragüense.
01/08/1979 – Massacre de Chota, Peru.
02/08/1981 – Carlos Pérez Alonso, padre, apóstolo dos enfermos e dos presos, defensor da justiça, desaparecido na Guatemala.
03/08/1980 – Massacre de mineiros bolivianos em Caracoles, Bolívia, após golpe de Estado: 500 mortos.
03/08/1999 – Ti Jan, padre comprometido com a causa dos pobres, assassinado em Porto Príncipe, Haiti.
04/08/1849 – Anita Garibaldi, heroína brasileira, lutadora pela liberdade no Brasil, Uruguai e Itália.
04/08/1976 – Enrique Angelelli, bispo de La Rioja, mártir. Comprometido com a causa dos pobres, implacavelmente perseguido pela oliguarquia da província, assassinado em um “acidente”.
04/08/1979 – Alirio Napoleón Macías, padre mártir em El Salvador, metralhado no altar de sua paróquia.
07/08/1985 – Christopher Williams, pastor evangélico, mártir da fé e da solidariedade em El Salvador.
09/08/1989 – Daniel Espitia Madera, camponês militante do povo colombiano, assassinado.
09/08/1991 – Miguel Tomaszek e Zbigniew Strzalkowski, franciscanos, missionários no Peru, assassinados, devortos da paz e da justiça.
09/08/1995 – Num conflito com os trabalhadores sem-terra, na fazenda Santa Helena, a policia militar mata 10 trabalhadores e prende 192 pessoas, com crueldade, em Corumbiara, RO, Brasil.
09/08/2000 – Morre Orlando Yorio, desaparecido, testemunha, profeta da vida, referencia na Igreja comprometida, Argentina.
10/08/1974 – Tito de Alencar, dominicano, levado ao suicídio pela tortura, Brasil.
10/08/1977 – Jesús Alberto Páez Vargas, líder do movimento comunitário, pai de quatro filhos, seqüestrado e desaparecido, Peru.
12/08/1983 – Margarida Maria Alves, presidenta do Sindicato Rural de Alagoa Grande, Paraíba, Brasil, assassinada, mártir da luta pela terra.
12/08/200 – Morre Pe. Alfredinho, missionário francês, da congregação “filhos da caridade”, fundador da ‘Irmandade do Servo Sofredor’, morou por 20 anos no sertão do Ceará, depois mudou-se para uma favela de Santo André, onde viveu, a partilha, o compromisso com os pobres que era ‘os seus mestre’ até os últimos dias de sua vida.
13/08/1521 – No dia 1-Serpente do ano 3-Casa, depois de 80 dias de cerco, cai México-Tenochtitlán, uauhtémoc é feito prisioneiro e morrem cerca de 240.000 gerrilheiros.
14/08/1984 – Mártires camponeses de Pucayacu, Peru.
14/08/1985 – Mártires camponeses de Accomarca, estado de Ayacucho, Peru.
15/08/1980 – José Francisco dos Santos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Correntes (PE), Brasil. Assassinado.
15/08/1984 – Luis Rosales, líder sindical, e companheiros, mártires da luta pela justiça entre os trabalhadores de bananais da Costa Rica.
15/08/1999 – Isidoro Bakanja, jovem catequista congolano (zairense) açoitado a mando de seu patrão belga, hostil às práticas religiosas, morreu mártir perdoando seus algoz e mandante. África.
16/08/1976 – Coco Erbetta, catequista, universitário, mártir das lutas do povo argentino.
16/08/1993 – Mártires indígenas ianomâmis, de Roraima, Brasil.
18/08/1527 – O cacique Lempira é morto durante uma Conferência de Paz, em Honduras.
18/08/1952 – Alberto Hurtado, padre chileno, apóstolo dos pobres, beatificado em 1994.
18/08/1993 – Mártires indígenas achanincas, de Tziriari, Peru.
20/08/1982 – América Fernanda Perdomo, membro da Comissão de Direitos Humanos de El Salvador, seqüestrada com outras cinco pessoas, entre elas uma menor de idade.
21/08/1971 – Mauricio Lefèvre, missionário oblato canadense, assassinado durante golpe de Estado na Bolívia.
22/08/1988 – Jürg Weis, teólogo evangélico, coodenador da secretaria nacional suíça dos Comitês de Solidariedade com a América Central, mártir da solidariedade com El Salvador.
24/08/1617 – Rosa de Lima, primeira santa e padroeira da América, canonizada por Clemente X em 1671.
25/08/1991 – Alessandro Dordi Negroni, missionário, mártir da fé e da promoção humana, Peru.
26/08/1977 – Felipe de Jesús Chacón, camponês, catequista, assassinado pelas forças de segurança em El Salvador.
27/08/1987 – Héctor Abad Gómez, médico, mártir da defesa dos direitos humanos em Medellín, Colômbia.
27/08/1999 – Morre Dom Hélder Câmara, irmão dos pobres, profeta da paz e da esperança, Brasil.
28/08/1994 – Jean-Marie Vincent, monfortiano, opositor da ditadura de Duvalier, comprometido com os direitos humanos, depois de escapar de vários atentados dos Tonton-macoutes, assassinado em Porto Príncipe.
30/08/1993 – Um esquadrão da morte e policiais executam 21 pessoas na favela de Vigário Geral, Rio de Janeiro, Brasil.
31/08/1988 – Morre Leónidas Proaña, “Bispo dos Índios”, em Riobamba, Equador.


Textos utilizados na Tenda dos Mártires - JMJ


É na tenda dos mártires da caminhada onde deve estar mesmo a juventude. Na tenda do deserto dos desafios. Na tenda da sede à procura do infinito. Na tenda da solidariedade com todos os largados à exclusão. Na tenda dos que cantam o Evangelho nas noites de luar ou de desolação. Na tenda dos mártires da caminhada, bebendo o cálice da Testemunha Fiel, Jesus, e com todas as testemunhas que o seguem.
            Façamos desta Jornada Mundial da Juventude uma Páscoa, um Pentecostes. Reassumindo com paixão profética as causas do Reino, dando as nossas vidas, como deram e dão as suas tantas testemunhas, companheiras da caminhada. Juventude, quem falou em medo ou em cansaço havendo Páscoa, havendo mártires?
                                               Pedro Casaldáliga
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A JMJ e o Bem Viver - Marcelo Barros

Hoje, em toda a América Latina, o “Bem Viver” é um critério social e político importante. Conforme a nova constituição nacional da Bolívia, um objetivo do Estado é garantir a realização do bem viver pessoal e coletivo. O “bem viver” é um conceito vindo das culturas indígenas e que corresponde ao que Jesus disse no evangelho: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Essa vida de qualidade e em abundância é o objetivo dos novos processos sociais e políticos emergentes em vários países do continente latino-americano e que em muitos lugares se chamam bolivarianos porque são inspirados na figura de Simon Bolívar, que no século XIX, consagrou sua vida à libertação e à integração de várias nações latino-americanas.

A Jornada Mundial da Juventude é um evento católico com objetivos bem restritos, mas pode ser sim como um fórum da juventude no qual os jovens não sejam apenas objeto da missão religiosa de uma Igreja, mas sejam protagonistas de sua missão mais ampla no mundo atual. A Tenda dos Mártires foi construída para ser o espaço onde essa articulação possa ocorrer e os jovens que nem sempre têm oportunidade possam conhecer e se sentir participantes desse processo de integração latino-americana e de inserção na vida de nossos povos.


Em grego, o termo mártir quer dizer testemunha. Não são mártires somente os irmãos e irmãs que morreram ao dar a vida pela causa da justiça. São mártires todos os homens e mulheres que por seu modo de viver testemunham que esse novo modo de ser do mundo é não somente necessário, mas possível e queremos construí-lo. Por isso, a Tenda dos Mártires é plenamente espaço da juventude que quer participar dessa construção do bem viver na sociedade atual. A certeza de nossa vitória vem da Páscoa de Jesus e páscoa do mundo que nessa tenda, crentes e não crentes são convidados a celebrar. 

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JUVENTUDE E MARTÍRIO - Frei Betto*                                             
Mártires são todos aqueles que morrem pela fé cristã, reza a Igreja Católica. Mártires são também aqueles que morrem pelos valores do Evangelho. 
Assim, se Estêvão é o primeiro mártir (Atos 7, 54-60), apedrejado com a cumplicidade de Saulo, o futuro apóstolo Paulo, frei Tito de Alencar Lima, levado à morte em 1974, aos 28 anos, devido às torturas sofridas sob a ditadura militar, é um mártir atual, testemunha da fidelidade aos anseios libertários do povo brasileiro.
A Igreja Católica distingue mártires e confessores, dignos de serem reconhecidos como santos. São mártires os que derramaram o próprio sangue por serem discípulos de Jesus. São confessores aqueles que, embora tenham tido morte natural, deixaram um exemplo de vida condizente com os valores evangélicos.
A maioria dos mártires celebrados pelo calendário litúrgico da Igreja eram jovens. Foram assassinados pelo Império Romano, como Cecília (séc. II) e Sebastião (séc. III), e, mais recentemente, por regimes ditatoriais, como  Edith Stein (1891-1942) e Maximiliano Kolbe (1894-1941), mortos pelo nazismo no campo de concentração de Auschwitz.
A Igreja não exige mártires. Não espera de nós, cristãos, heroísmo. Espera fidelidade ao caminho de Jesus, que implica a defesa intransigente dos direitos dos pobres, a luta por justiça, a tolerância frente a quem professa outra fé, a compaixão, o amor ao próximo, à natureza e a Deus.
Hoje, o martírio não consiste tanto em morrer pela fé cristã, e sim em viver por ela no seguimento de Jesus, assumindo o desafio de professar – não a fé em Jesus – e sim a fé de Jesus.
 *Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.
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Juventude que ousa lutar constrói o poder popular - Marcelo Barros

No mundo dos fóruns sociais e da comunicação virtual, a Jornada Mundial da Juventude pode ser um acontecimento marcante para muita gente jovem mobilizada para esse evento. Assim como Jesus se inseriu na realidade humana e se tornou um irmão de todo ser humano, a missão da Igreja não é apenas chamar a juventude para ser católica e sim inserir-se na realidade dos jovens, ouvir o que eles e elas têm a dizer à Igreja e o que gostariam de pedir ao papa e aos ministros da Igreja. 

Nessa perspectiva, é importante que, por ocasião da JMJ, além de ver o papa e escutá-lo, os jovens pudessem também dizer ao papa o que esperam da Igreja e do ministério do bispo de Roma. E a JMJ ajudasse os jovens católicos e cristãos de outras Igrejas a verem mais claro sua vocação própria na sociedade atual e sua missão junto à maior parte da juventude que não se interessa por fé e é a principal vítima da publicidade e dos meios de comunicação do mundo atual. A Tenda dos Mártires, espaço da juventude comprometida com as pastorais sociais, pode ser o instrumento desse diálogo para contribuir com a JMJ e ajudar os/as jovens ali presentes a aprofundar sua missão no mundo.

De acordo com vários analistas da realidade, no mundo atual, o que está acontecendo de mais novo e profundo é o processo social e político emergente em vários países da América do Sul. Na Venezuela, Bolívia e Equador, assim como em alguns outros países, há um caminho social e político novo que tem sido fruto do protagonismo das classes mais pobres, parte das culturas indígenas e negras e tem conseguido reduzir a desigualdade social, estabelecer novas leis de justiça no campo e na cidade e dar prioridade à educação, saúde e moradia para todos. É importante que as Igrejas cristãs descubram a forma de participar desse processo. Jesus disse no Evangelho: “Pelos frutos, conhecereis a árvore”. Mesmo os adversários do bolivarianismo, reconhecem esses benefícios sociais. No Brasil, ainda não vivemos essa realidade, mas os movimentos sociais estão mobilizados para participar do processo nacional. No dia 07 de setembro como sempre o Grito dos Excluídos reúne milhares de pessoas em todo o país e a partir de um tema que cada ano é aprofundado em diálogo com a Campanha da Fraternidade da CNBB. Nesse ano de 2013, o tema do Grito será “Juventude que ousa lutar constrói o projeto popular”. O Grito convoca toda a juventude, cristã e não cristã, para participar das lutas pacíficas e da caminhada libertadora do povo e assim contribuir na construção de uma sociedade nova mais livre e mais integrada a esse processo bolivariano que está tomando toda a América Latina. De acordo com os evangelhos, Jesus diz aos jovens de hoje: “Não é quem reza: Senhor, Senhor que entra no reino de Deus, mas quem faz a vontade do meu Pai que está nos céus” (Mt 7, 21).


A Tenda dos Mártires é o lugar no qual a juventude pode redescobrir esses processos sociais novos, apaixonar-se por eles e engravidar novas formas de participar dessa aventura maravilhosa na qual Jesus ressuscitado estará conosco como companheiro bolivariano. 

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Vicente Cañas (1939-1987)
Nascido espanhol, inculturado Enawene-Nawe, mártir brasileiro.

         O Vaticano II (1962-1965) ajudou na reformulação profunda do trabalho missionário junto aos povos indígenas. Muitos jovens, leigos e religiosos, ajudaram em suas Congregações e na condução dos rumos do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), fundado, em 1972, como organismo anexo à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Esses jovens eram capazes de conviver despojadamente com os povos indígenas. Lutaram para valorizar as culturas dos povos indígenas e demarcar suas terras como parte integrante de uma nova evangelização.
         Um destes jovens indigenista era Vicente Cañas, Irmão jesuíta, nascido espanhol, naturalizado brasileiro, inculturado Enawene-Nawe. Vicente herdou de seu pai o sonho revolucionário, a capacidade de risco e a audácia de seu temperamento. Entrou na Companhia de Jesus em 1961 e carregou ao longo de sua vida religiosa a radicalidade de uma vocação que culminou no martírio. Viveu algum tempo no Ceará e logo foi enviado a Mato Grosso, á Missão Anchieta, em Diamantino.
         Em 1969, aconteceu um fato sinistro que o introduziu definitivamente no mundo indígena do qual nunca mais iria se afastar. Seu batismo de fogo e sangue foi uma desastrada expedição da Funai aos chamados Beiço-de-Pau (Tapayuna) que habitavam entre os rios do Sangue e Arinos, no norte de Mato Grosso. O grupo indígena que contavam com mais de 600 índios, ficou reduzido a 41, por causa de uma gripe transmitida pela equipe da Funai. O Pe. Antonio Iasi, da Missão Anchieta, que cuidadosamente havia iniciado os primeiros contatos com os Tapayuna, foi chamado ás pressas para salvar os restos daquele povo. Iasi convidou Vicente para cuidar da saúde dos sobreviventes. De outubro de 1969 a abril do ano seguinte, Vicente viveu com os Tapayuna. Em maio, estes foram transferidos para o Parque do Xingu, reunindo-se a seus irmãos Suyá.
         Depois Vicente Cañas conviveu por cinco anos com o povo Pareci, no noroeste de Mato Grosso. Em 1971, participou do primeiro contato com o povo Mynky, na época apenas 23 pessoas. Em 1974, participou dos primeiros contatos com os Enawene-Nawe, no rio Juruena, com uma população de 100 pessoas, aos quais dedicou os próximos anos de sua vida. Vicente era considerado pelos Enawene-Nawe como um deles. Participava dos seus trabalhos e rituais, era enfermeiro, mecânico, pescador e dentista. Os índios o adotaram como filho e parente segundo suas próprias regras de parentesco. Em seu diário descreve minuciosamente os costumes culturais dos Enawene-Nawe. Procurou viver a sua fé na prática da religião desse povo. No processo que levaria, em 1996, à demarcação de sua terra foi assassinado. Foi encontrado morto só um mês depois, em 16 de maio de 1987, ao lado do seu barraco na margem esquerda do rio Juruena, a cabeça inclinada para a esquerda como se quisesse beijar aquela terra de seu amor e de sua luta. Nu, (para nós) mas adornado com os colares, as braçadeiras, os brincos, as pulseiras, as vestes dos Enawene-Nawe.
         Contrariando com sua presença a cobiço por terra e madeira, Vicente sabia que estava jurado de morte. A área estava sendo alvo de interesse de vários fazendeiros e madeireiros que viam no Vicente um empecilho ás suas pretensões. Ele mesmo chegou a comentar com os companheiros: “não estranhem se um dia vocês me encontrarem morto.” Os próprios índios o haviam alertado: “Se cuida. As picadas dos jagunços já estão perto do teu barraco”. Por causa do assassinato de Vicente Cañas foram indiciados os fazendeiros Pedro Chiquette e Carlos Camilo Obici, o ex-delegado da polícia civil na cidade de Juína (MT), Ronaldo Antônio Osmar, na ação penal apontado como um dos mandantes do crime, e o Martinez Abadio e José Vicente como executores do crime. Até hoje, nenhuma condenação.
         Depois de ser periciado pelo Instituto Médico Legal (IML) do Estado de Mato Grosso, o crânio do missionário foi enviado para novas perícias ao IML do Estado de Minas Gerais. De lá, em 1989, o crânio do Ir. Vicente desapareceu misteriosamente. Depois foi encontrado por um engraxate de sapatos, numa caixinha que declarava seu conteúdo, perto da rodoviária de Belo Horizonte, fato até hoje não explicado.
         O padre Bartomeu Meliá termina o seu relato sobre o companheiro Vicente com humildade: “Não é cômodo ter tido um mártir por companheiro da vida e de vocação, e um mártir como Vicente. É uma `Memória´ que queima por dentro, uma memória exigente e também uma garça de Deus”.
Paulo Suess

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