quarta-feira, 8 de maio de 2013

Galeria dos Mártires - Vicente Cañas, missionário jesuíta


08/05/1987 – Vicente Cañas, missionário jesuíta, assassinado pelos que cobiçavam as terras dos índios que ele acompanhava, mártir em Mato Grosso, Brasil.

Vicente Cañas Costa (Albacete, 22 de outubro de 1939 - Mato Grosso, 6 de abril de 1987), também conhecido como Kiwxi, foi um missionário jesuíta espanhol naturalizado brasileiro, que, em 1974, estabeleceu os primeiros contatos com os indígenas Enawenê-nawê, no estado de Mato Grosso, e passou a residir entre eles em 1977, trabalhando pela preservação de seu território, com demarcação da Terra Indígena Enawenê-Nawê e por ações de saúde. Foi assassinado dez anos depois, a mando de fazendeiros da região.

O corpo do Ir Vicente Cañas foi encontrado cerca de quarenta dias depois da morte, por dois missionários do Cimi, com o abdômen perfurado. Seu barraco, em desordem, apresentava sinais de luta; seus óculos foram quebrados por uma porretada em seu rosto. Seus instrumentos de trabalho, como o cesto onde levava medicamentos, além de lanterna, espingarda e facão, já estavam na voadeira (barco) com a qual iria até as aldeias, como havia avisado por rádio dias antes do assassinato. 

O inquérito policial tramitou durante seis anos. Apesar de ser voz corrente na região sobre o envolvimento dos acusados no crime, a população de Juína e das aldeias indígenas conviveram e ainda convivem com medo de represálias e se calam em relação aos mandantes e executores deste crime. A revelação do envolvimento dos acusados só se deu por testemunhos de indígenas da etnia Rikbaktsa (canoeiros), habitantes das terras vizinhas à dos Enawenê-Nawê. 19 anos depois do crime foram julgados pelo Tribunal do Júri, pelos crimes de homicídio duplamente qualificado, mediante pagamento e em emboscada, Ronaldo Antônio Osmar, ex-delegado de polícia de Juína, município onde se deu o assassinato, José Vicente da Silva e Martinez Abadio da Silva, um conhecido pistoleiro da região.  Ninguém foi condenado.

O advogado do Cimi, Paulo Machado Guimarães, admitiu que faltaram provas. Ele acusou o ex-delegado Osmar de intermediar a negociação entre José Vicente e os supostos mandantes do crime, Pedro Chiquetti e Camilo Óbice, que eram fazendeiros na área. Chiquetti possuía terras no limite norte da comunidade indígena e tinha interesse em expandi-las. Já Óbice era um grileiro na região, também interessado nas terras dos Enawene-Nawê. Os dois faleceram durante o longo processo judicial. O outro suposto mandante, o latifundiário Antonio Mascarenhas Junqueira, não pôde ser julgado em razão da idade avançada. Segundo Guimarães "a Funai tem o registro das disputas entre fazendeiros e os indígenas desde antes de 1988" e, aparentemente, a morte do padre Vicente deveria facilitaria a tomada das terras indígenas.




Um comentário:

  1. tanta coisa que a gente desconhece, tanta luta, tantos mártires, as comunidades massacradas pela impunidade e injustiça dos cobiçosos de poder e riquezas.

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