quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Galeria dos Mártires - Eugênio Lyra

EUGÊNIO LYRA
Advogado dos Trabalhadores Rurais
Mártir da Justiça
SANTA MARIA DA VITÓRIA – BA * 22/09/1977

Eugênio Lyra nasceu no dia 08 de janeiro de 1947. Começou a frequentar uma escola particular com apenas cinco anos e aos sete, ingressou numa escola pública. Gostava muito de ler e lia tudo o que via.

Não gostava de brincar, não sabia jogar gude, nem bola e nem outros brinquedos que as crianças gostam.

Sempre foi muito estudioso, esperto, prestativo, principalmente com as pessoas mais humildes e velhas. Era muito preocupado comigo, com os irmãos e com as pessoas do seu relacionamento. Isto desde pequeno.

Aos onze anos, ingressou no Colégio Marista. Sempre foi um aluno muito esforçado e de ótimo comportamento. Aos quinze, concluiu a 4º série do ginásio e mudou-se para Salvador, onde deu continuidade aos estudos. Morava em uma pensão, no quarto dos fundos, local em que passou horas amargas e grandes sacrifícios para alcançar o que ele mais desejava.

Fez o científico no Colégio Central, onde conheceu Lúcia, sua colega e amiga. Juntos fizeram o vestibular, passaram e continuaram os estudos na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Desta amizade nasceu o amor. 

Ainda estudante, aos dezoito anos, lançou seu primeiro livro, intitulado Fogos Fátuos. Em 1968, aos vinte e um anos, lançou Abismos, livro, assim como o primeiro, de poesias.

Em 1969, quando estava estagiando, a primeira causa foi de uma humilde senhora que estava para perder a casa. Eugênio fez todo o possível para que ela permanecesse no imóvel.

Formou-se em 1970, no dia 08 de dezembro. Um ano depois, casou-se com Lúcia e juntos, na mesma profissão, instalaram um escritório na Rua Chile, em Salvador, onde atenderam por algum tempo.

Sendo chamado para trabalhar em diversos sindicatos, viajava para atender em várias cidades do interior baiano tais como: Feira de Santana, Riachão do Jacuípe, Cachoeira, Santo Antônio de Jesus, dentre outras. 

Em 1976, no dia 05 de abril, foi transferido para Santa Maria da Vitória, onde fixou residência, atendendo aos trabalhadores e lutando pela devolução das terras dos camponeses que tinham sido tomadas pelos grileiros. Ele se sentia bem em lidar com aquela gente sofredora, que precisava de alguém humano que fizesse algo por eles: recebia a todos que o procuravam e atendia com carinho e atenção aquela gente humilde. Buscando sempre ajudá-los, sentia-se feliz ao lado deles. 

Um dia foi convidado por um grileiro que lhe ofereceu uma boa quantia para que ficasse ao lado dele, contra os lavradores. Ele agradeceu dizendo que ficaria com os lavradores, que precisavam dele. Deste dia em diante, começaram as ameaças e perseguições. Mesmo assim, ele não acreditava que alguém tivesse coragem de lhe fazer o mal. 

Ele e Lúcia já estavam casados há seis anos. Ela estava esperando um filho e estavam felizes. Mas a felicidade durou pouco... 

Eugênio vinha a Salvador para depor na CPI da grilagem. Viria na sexta-feira, não sabendo que as autoridades de lá (como o delegado de polícia e o regional, que era na época Eymar Portugal Sena Gomes) estavam aliadas aos malditos grileiros e haviam contratado o pistoleiro Wilson Gusmão por Cr$ 40.000,00 (quarenta mil cruzeiros) para executar o bárbaro crime, antes da vinda dele para Salvador. 

Nesta época, Lúcia estava no quinto mês de gestação e como vivia assustada não deixava que ele saísse sozinho. Andavam sempre juntos. E foi então que na quinta-feira, 22 de setembro de 1977, na porta da barbearia de Santa Maria da Vitória, aconteceu a triste tragédia: Eugênio, aos 30 anos, fora vitimado, fatalmente, com uma bala na testa, caindo aos pés de Lúcia, que ainda correu atrás do pistoleiro. 

E assim fizeram parar a vida do jovem advogado que lutou e deu seu sangue pelos lavradores, deixando, além da família, uma criança inocente, a maior vítima deste bárbaro crime: a pequenina Mariana. 

Aqui termina, com um trágico fim, a história de uma criança boa, inteligente e jovem; que não teve infância, nem juventude: seu mundo foi os livros, sua família e a luta ao lado dos trabalhadores.

É com muita amargura e com o coração traspassado que narrei à vida do meu inesquecível filho EUGÊNIO LYRA
Dona Maria Lyra, 1981

Abaixo um poema escrito por Eugênio Lyra para sua esposa:

“Plantemos novas sementes,
colhamos frutos maduros,
rompamos todas as frentes
e obstáculos futuros.
Sejamos mais conscientes
e, juntos, onipotentes,
prostremos todos os muros.”

Do teu, para sempre,
Eugênio – 14/04/71

Galeria dos Mártires - Pe. Miguel Woodwar Iribarry

Pe. MIGUEL WOODWARD IRIBARRY
Mártir do Povo Chileno
CHILE * 22/09/1973

Miguel Woodward Iribarry nasceu em Valparaiso, Chile dia 15 de dezembro de 1930, filho de pai Inglês e mãe chilena. Fez estudos secundários na Inglaterra em um colégio interno dirigido por monges beneditinos. Aos 18 anos começou a estudar engenharia, graduando-se em Engenharia Civil em 1950 no King College Universidade de Londres, e logo depois voltou para o Chile e entrou para o seminário. 

Foi ordenado padre diocesano na Catedral de Valparaiso em 1961 pelo  Bispo Raúl Silva Henríquez.

Como muitos sacerdotes daquela época, imbuído pelo vento transformador do Concílio Vaticano II, quis ser um padre operário, e passou a trabalhar como torneiro em um estaleiro do porto de Valparaíso e foi também professor de CESCLA (Centro de Estudos e Capacitação para o Trabalho) da Universidade Católica de Valparaíso. Suas opções evangélicas se tornaram cada vez mais radicais em sua caminhada ao lado do povo explorado.

Em 1969, ele renunciou a Paróquia Penablanca e juntou-se ao exercício religioso público. Ele construiu uma casa no vilarejo de Progreso, em Cerro Pleasures de Valparaíso, onde liderou uma comunidade religiosa. Fazia parte do Movimento Cristão para o Socialismo e simpatizava com o governo de Salvador Allende. Entrou para o partido MAPU (Movimento de Ação Popular Unitária) e era um líder local dos Conselhos de Abastecimento e Preços (JAP) lideradas pelo general Alberto Bachelet. Em seguida, ele entrou em conflito com as autoridades eclesiásticas de Valparaiso, por isso foi destituídos das práticas sacerdotais pelo Bispo Tagle Emilio Covarrubias.

Pe. Miguel Woodward foi preso por membros da Inteligência Naval em 16 setembro de 1973, em sua casa em Cerro Placeres, Poblacion Heróis del Mar, no rescaldo do golpe militar. Ele foi levado para um quartel e, em seguida, para o navio Lebu, onde começaram as torturas, após a tortura quase fatal, Woodward foi transferido para o Esmeralda - um navio utilizado ​​pela Marinha do Chile como centro de detenção e tortura dos prisioneiros políticos após o golpe militar de 11 de setembro de 1973.

Conforme o testemunho do segundo no comando do Esmeralda, Eduardo Barison, Pe. Miguel Woodward morreu a bordo do navio por excessiva tortura  infligida. O certificado oficial de mortos indica a parada cardíaca como a causa da morte, enquanto a promotoria argumenta que Woodward morreu em consequência de hemorragia interna causada pela tortura.

Depois de sua morte, foi enviado para a família na Inglaterra, uma certidão de óbito, em que dava como causa da morte parada cardíaca. No entanto, a Marinha escondeu o corpo e falsificou a sua certidão de óbito, enterrando-o presumivelmente, no Cemitério de Playa Ancha, 25 de setembro, em uma vala comum.

O Tribunal de Apelações de Valparaíso, investigando o desaparecimento do sacerdote chileno-britânico e ativista MAPU Miguel Woodward Iriberry, determinou que os agentes envolvidos não vai servir a qualquer pena de prisão. José Manuel García Reyes e Héctor Fernando Palomino López foram condenados a três anos e um dia na prisão, mas concedeu o benefício da liberdade condicional. Atilio Manuel Leiva Valdivieso foi absolvido em razão da demência. Os agentes restantes, Carlos Alberto Miño Muñoz, Marcos Cristián Silva Bravo, Guillermo Carlos Inostroza Opazo, Luis Fernando Pinda Figueroa e Bertalino Segundo Castillo Soto foram absolvidos por falta de provas da participação.

O caso de Miguel Woodward faz parte das relações complexas e confusas, que viveu no Chile, a Igreja e o Estado, nos anos de 1970 e 1980.

A Universidade King College, para demonstrar que sua memória é mantida viva, estabeleceu um prêmio chamado “Miguel Woodward”, para o estudante que se destacasse não só pelo estudo, mas especialmente por suas qualidades humanas.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

Galeria dos Mártires - Antônio Conselheiro

ANTÔNIO CONSELHEIRO
Patriarca do Povo Sertanejo
CANUDOS – BA * 22/09/1897

Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro por antonomásia, nasceu no sertão do Ceará em 1829, na cidade de Quixeramobim. Desde a juventude sentiu e percebeu as injustiças praticadas contra o povo pobre do sertão e se acendeu nele a paixão pela libertação desse povo.

Tornou-se educador e missionário leigo, e em suas peregrinações pelo sertão por mais de 20 anos, foi deixando por onde passava, marcas de sua fé e de seu compromisso social, construindo, em mutirão, barragens, açudes, capelas, cemitérios. Conquistando com sua palavra e seu testemunho o povo do sertão, que na época “vivia abandonado pela Igreja, acorrentado pelos coronéis, perseguido pelo Estado”.

Depois dos 20 anos de peregrinação pelo Nordeste, amado do povo e incompreendido ou perseguido pelas várias autoridades, Conselheiro sentiu de perto o atraso sistemático e o descontentamento das massas populares e resolveu, por volta de 1893, colocar em prática seu objetivo de formar, com nordestinos retirantes, uma comunidade igualitária: Belo Monte (Canudos), na região do Raso da Catarina, cortada pelo rio Vasa-Barris.

Rapidamente a comunidade cresceu e em poucos anos tornou-se uma das maiores cidades do Nordeste, com 25.000 habitantes. Ordeira, religiosa, produtiva, comunitária.

A reação dos coronéis, dos políticos e de setores da Igreja não se fez esperar e começou a guerra de Canudos, a maior guerra camponesa do século XIX. As três primeiras expedições militares foram derrotadas pelos sertanejos. A quarta expedição da polícia e do exército, munida de milhares de homens e de potentes canhões conseguiu destruir, à 5 de outubro de 1897, a grande cidade comunitária do Brasil.

Até o último sobrevivente foi degolado, incluindo as crianças. Canudos virou cinzas, mas virou também, por seu sonho e resistência, bandeira de luta e de esperança do outro Brasil que almejamos.

Vítima de ferimentos causados pela explosão de uma granada, Antônio Conselheiro morre em 22 de setembro de 1.897.

Canudos vive e vive Antônio Conselheiro, patriarca do povo do sertão.

Texto retirado da Galeria dos Mártires, no Santuário de Ribeirão Cascalheira, MT.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Galeria dos Mártires - Pe. Francisco Luis Espinosa e Companheiros

Pe. FRANCISCO LUIS ESPINOSA e COMPANHEIROS
Mártires em Estelí
NICARÁGUA * 20/09/1978

Pe. Francisco e foi assassinado pela Guarda Nacional em Estelí, Nicarágua, quando dirigia seu veículo acompanhado de dois leigos em direção a Condega para levar medicamentos aos refugiados na Escola de Agricultura, da qual era diretor.

Ao entrar na cidade, o veículo parou porque lhe deram voz de alto na esquina da prefeitura. Da guarnição, distante uns 100 metros, dispararam uma rajada de metralhadora. Os disparos destroçaram o veículo e os corpos de seus 3 ocupante.

O veiculo foi ocultado imediatamente e os corpos enterrados numa vala comum, mas tão à flor da terra que foram descobertos ao se proceder a outros enterros.

Pe. Francisco Luis e seus companheiros morreram no ato de serviço a seus irmão refugiados.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Galeria dos Mártires - Ir. Yolanda Cerón Delgado

Ir. YOLANDA CERÓN DELGADO
Mártir dos Direitos Humanos
COLÔMBIA * 19/09/2001

Memória dos 16 anos de seu martírio.

Yolanda Cerón Delgado, religiosa da Congregação da Companhia de Maria, realizava por vários anos um trabalho de denuncia permanente sobre a grave situação dos direitos humanos na região, fazendo chamados urgentes para as autoridades locais, nacionais e internacionais para que se investigassem os casos e se criminalizassem os responsáveis destes crimes contra a comunidade nariñense, de acordo com informações da Agência Nizkor. 

Trabalhou por oito anos no apoio as comunidades indígenas e afro-colombianos.

No dia 19 de setembro de 2001, ao meio-dia, na porta da Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia, localizado no Parque Nariño, município de Tumaco (no departamento de Nariño, no sudoeste da Colômbia) Irmã Yolanda Cerón foi vítima de alguns bandidos que dispararam oito tiros, que há deixou gravemente ferida, sendo transferida para o hospital local, onde morreu momentos depois.. "Vemos claramente que este assassinato - de acordo com o comunicado oficial do Bispo de Tumaco - é uma resposta às ações que a Diocese tem empreendida pela defesa dos direitos humanos e as denuncias pelas ações de violência e corrupção que diariamente ocorrem em nosso solo".

Nos dias anteriores, de acordo com a mesma fonte, a religiosa tinha relatado a permanente vigilância que vinham fazendo aos escritórios da Pastoral Social, assim como a perseguição que foram submetidos por homens não identificados. Além disso, foi relatado que recentemente tinha sido convocada pelo Escritório de Tumaco para ratificar as queixas sobre a violação dos direitos humanos que ela havia feito meses anteriores.

A vida de Yolanda foi caracterizada pelo seu empenho e defesa da vida; desde sua opção por defender os mais pobres de seus país, denunciando as situações de desrespeito aos direitos humanos em sua região, mostrando profeticamente o que hoje é chamado de "terrorismo de Estado", cuja manifestação se expressa, entre outros, pelos paramilitares.

Yolanda era uma mulher de muito valor, corajosa e comprometida, que sempre lutou pela Paz. Seu compromisso incansável pela vida ao lado dos pobres, ameaçados e das pessoas afetadas por esta guerra absurda é um grande testemunho e exemplo, e também um chamado para nos comprometermos pela Causa da Paz e da Justiça na Colômbia, em nossas Cidades, no Mundo.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir da página: http://servicioskoinonia.org/martirologio/

Galeria dos Mártires - Charlot Jacqueline e Campanheiros

CHARLOT JACQUELINE e COMPANHEIROS
Mártires da Educação Libertadora
HAITI * 19/09/1986

Charlot Jacqueline e companheiros, militantes e educadores, mártires da educação libertadora para seu povo haitiano. 

Militantes cristãos e alfabetizadores da Missão ALPA. Sequestrados e desaparecidos. Charlot vivia em Cité Soleil, subúrbio de Porto Príncipe. Participava das organizações de bairros e acompanhava seus irmãos em todas as suas reivindicações. Era monitora da Missão ALFA, uma campanha de alfabetização nascida em 1984, por iniciativa da Igreja em solidariedade com os problemas das povo. 

O projeto da Missão ALFA abriu possibilidade de conscientização, uma vez que tinha como objetivo ensinar a leitura e a escrita para três milhões de analfabetos em cinco anos.

As pessoas descobriram, através da alfabetização, a importância de se expressar, do acesso à informação, para libertar a riqueza de seu espírito, e de sua cultura. Vislumbravam horizontes da democracia. 

Isso se tornou perigoso para as ditaduras no poder e a mesma hierarquia eclesiástica decidiu suspender o programa em um comunicado, referindo-se a politização de seus diretores e monitores. 

Na noite de 19 de setembro de 1986, Charlot e companheiros foram retirados de suas casas por homens uniformizados e civis, espancados com brutalidade e tratados como comunistas. Eles nunca mais apareceram. Parentes e amigos da Missão ALFA começaram a procurá-los. O país inteiro se mobilizou. 

Seus nomes e seus compromissos transcendem as fronteiras e as organizações internacionais cobram do governo haitiano o aparecimento destes militantes da educação. Uma manifestação de sessenta mil pessoas saíram as ruas exigindo o aparecimento de Charlot e o fim da repressão contra os monitores do ALFA. 

O povo tomaram consciência do seu papel, e em memória de Charlot e de seus companheiros, ocupam seus lugares na vanguarda de suas lutas.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir da página: http://servicioskoinonia.org/martirologio/

Galeria dos Mártires - Pe. Joan Alsina Hurtos

Pe. JOAN ALSINA HURTOS
Testemunho da Fé na América Latina
CHILE * 19/09/1973

Joan Alsina Hurtos, jovem sacerdote catalão, chegou ao Chile por meio da OCSHA (Obra de Cooperação Sacerdotal Hispano-Amaricana) em 1958. Jovial, destemido, generoso, com um claro carisma pela Pastoral Operária, viveu coerentemente seu sacerdócio e seu compromisso social, ao serviço do povo, de quem foi sempre um companheiro. Foi assessor de vários grupos cristãos.

Trabalhou no Hospital San Juan de Dios, viveu como operário num bairro de Santiago e foi, sobretudo, profeta da Palavra. Nos finais de semana celebrava a missa em um bairro operário ou ajudava nas paróquias vizinhas. Foi capelão dos grupos de Ação Católicas.

Depois do golpe militar chileno de 11 de setembro de 1973 de derrubou o presidente Allende, continuou indo ao trabalho no hospital dizendo que lá estaria mais seguro, além disso, no hospital havia muita gente em reais dificuldades que necessitava dele. No dia 19 daquele mês foi levado pelos militares. Seus amigos passaram vários dias procurando por ele. Em 26 de setembro, o cônsul espanhol avisou que seu corpo estava no necrotério (fora encontrado no dia 20). 

Na missa fúnebre foi concelebrada por mais de quarenta sacerdotes. Segundo o médico que efetuou a autópsia a pedido do cônsul, ele tinha no corpo mais de 10 perfurações de bala, todas disparadas pelas costas. Havia chegado ao necrotério às 10:30h da manhã do dia 20, em um caminhão juntamente com outros cadáveres achados debaixo da ponte Bulnes no rio Mapocho.

Nas horas antes do seu martírio deixou-nos um dos mais belos textos martiriais desse nosso século latino-americano: seu “Testamento”. O próprio soldado que o fuzilou dá testemunho da serenidade cristã com que Joan deu a vida: Ele me disse: ”por favor, não me vendes os olhos, mata-me de frente porque quero ver-te para te dar o perdão”... Levantou o olhar para o céu,... pôs as mãos sobre o peito... e disse: “Pai perdoa-os!”.

Segue abaixo carta-oração, testemunho espiritual escrita por Joan Alsina:

Por quê?
Queríamos colocar vinho novo em odres velhos e acabamos ficando sem odre e sem vinho... no momento.
Chegamos ao fim caminho, abrimos uma trilha e agora estamos nas pedras. Até quando continuaremos andando... Até quando? Pode ser que encontremos algumas árvores para nos proteger das balas.
- Nenhum dos que molharam o pão nas panelas do Egito, verá a Terra Prometida, sem passar antes pela experiência da morte.
- Já não há profetas entre nós, apenas o bezerro de ouro. (Ex. 32,1-16). Nada restou de dois dias para cá.
E como não podemos falar, ruminamos. Temos saudades do pão seco compartilhado, comido entre risos e sorrisos.
Nós não tínhamos entendido as palavras de São Paulo: "Nós todos vamos ser testado pelo fogo". E quanta palha queimada! Onde estão agora os que queriam chegar às últimas consequências?
- Permitiram-nos fazer um jogo tão nojento, com possibilidades tão limitadas, que nós mesmos nos saturamos. "Santa Democracia, rogai por nós!"
É fácil resignar-se - tão fácil pregar a resignação - com a perda. Porque perder significa deixar de ter e começar a ser. E aqueles que mais tinham e continuam a possuir, são os que menos eram; eram menos, mas tinham o poder e força.
“E Verbo se fazia carne”. E isto não toleramos. É o escândalo da cruz. Nunca Suportamos.
Respeitaremos todas as ideologias... enquanto não tentem tornar-se carne e realidade. Se ousarem, fá-la-emos sangue e carne massacrada.

E agora?
São muitas pessoas que foram identificadas e purificadas. Setenta e dois disseram. Quarenta mil estavam no êxodo. E aqui também, de um lado e outro.
Que importa?
O povo é tropa, evidentemente; "Faremos uma país novo, livre e independente". Outras Vozes, outros âmbitos. Não, as vozes são as mesmas, e a dialética também. Falta de conexão interna. Não sabem quem sou, de onde eu venho e para onde vou. Chegarei a casa. Este me olha. Aquele pode me prender. Esconder-te. Depender de uma senha, de uma instituição, de uma confissão arrancada. Suor, frio, calor. Uma cela pequena, solitária, fria. Quem está do outro lado do telefone? Quem chama à porta a esta hora? Não sei o que vou fazer, somente o que me farão. E o mais doloroso: por quê? Agora entendo quando me falam da luta contra o medo. E ainda continuam os disparos. Principalmente a noite. Isto é a insegurança e a consciência da insegurança, o medo.
Quem contra quem? Pessoas, pessoas, pessoas. De um lado e do outro. Eles estão mortos; ou em fuga; ou estão lá em cima. Estratégias, decretos, declarações! E o povo dormindo ou morto. É a impotência. O sangue ferve. As palavras não saem. E pensar que - palavras e ações estão fadadas ao pó e a carne esmagada e massacrada.
E a nossa Mãe? (Igreja)
Não se pode improvisar.
O equilíbrio serve somente para os tempos de 'paz'.

Esperanças
Se o grão de trigo não morrer, nunca dará frutos. É terrível um monte incendiado, mas é preciso ter esperança de que, da cinza molhada, negra e pegajosa, volte a germinar vida.
Descobrimos a vida em cada dia, em cada minuto. Descobrimos os valores dos pequenos gestos de cada momento. O riso na rua triste; a voz amiga em código no telefone; a preocupação pelos caídos; a mão estendida; a fase que ousa dizer uma piada.
Lembro-me de uma passagem de Saint Exupéry, em Vôo Noturno. Ele estava voando não sei sobre qual país, quando só então captou o sentido da casa, da montanha solitária, da luz, das ovelhas, do pastor. Para entender o sentido das coisas é necessário que nos distanciemos delas ou que delas nos distanciem.
Agora eu entendo as palavras de São Paulo: "A caridade não se incha de orgulho". (I Coríntios, 13,4). A verdade está escondida, porque é a Palavra feita carne. Somos como ovelhas levadas ao matadouro. Em tuas mãos entrego o meu espírito. Isto não é literatura. Nos momentos cruciais temos que empregar símbolos. De outra forma não poderíamos expressar.
Esperamos vossa solidariedade. Entendeis agora o que significa o Corpo de Cristo? Se nos afundamos, é algo da esperança que se afunda. Se com as cinzas brotar nova vida, é algo que nasce de novo dentro de vós.

Adeus a todos. Ele sempre nos acompanha onde quer que estejamos.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.